Os manuscritos hebraicos da Bíblia

Os principais manuscritos que são a base de todas as versões bíblicas são os do Texto Massorético

Luiz Sayão - 22/08/2018 12h37

Ao contrário do que muita gente possa imaginar, não existe um manuscrito bíblico único do qual se possa traduzir o texto das Escrituras. Deus, em sua soberania, não quis nos deixar os manuscritos originais nem do Antigo (Bíblia Hebraica), nem do Novo Testamento.

Na verdade, o que temos à disposição são milhares de manuscritos posteriores, cópias feitas por escribas no decorrer dos séculos. Apesar disso, estamos absolutamente seguros de que a Bíblia é o documento antigo mais bem preservado da história. Não há dúvida alguma de que possuímos manuscritos extremamente próximos aos originais.

Todavia, um grande número de pequenas diferenças entre os diversos manuscritos exige uma avaliação cuidadosa dos estudiosos para que seja possível alcançar um texto mais próximo do original.

Quando isso acontece, é necessário buscar a ajuda da ciência da crítica textual que desenvolveu critérios objetivos e científicos de avaliação do texto bíblico. Com base nos resultados desses estudos criteriosos é possível tomar uma decisão correta sobre que variante textual escolher. Portanto, todo estudioso da Bíblia tem como primeiro problema avaliar as variantes textuais dos manuscritos bíblicos e tomar decisões com base nessa avaliação. Somente após esse primeiro passo será possível ter uma compreensão correta e mais próxima do texto original.

No caso da Bíblia Hebraica, o texto foi escrito quase inteiramente em língua hebraica. Dos 929 capítulos do chamado Antigo Testamento, apenas uma parte de Daniel (2:4-7:28), dois trechos de Esdras (4:8-6:18 e 7:12-26) e um versículo de Jeremias (10:11) foram escritos em aramaico.

Os principais manuscritos que são a base de todas as versões bíblicas são os do Texto Massorético. Esse é o texto consonantal padrão, que conservado, pontuado e anotado pelos estudiosos judeus na época medieval.

Entre os mais importantes manuscritos massoréticos merecem destaque o Códice de São Petersburgo e o Códice de Alepo, elaborados por volta do século 10 d.C. Além do Texto Massorético, outras referências importantes do Antigo Testamento são o Pentateuco Samaritano, a Septuaginta (famosa versão grega do texto), a Versão Siríaca, os Targuns aramaicos. Esses outros textos são valiosos e são frequentemente comparados com o Massorético para que os estudiosos cheguem a uma opção textual mais próxima possível do texto original.

Mais recentemente, o achado dos famosos Manuscritos do Mar Morto (1947-1956) ganhou destaque sem igual por terem revelado cerca de 900 manuscritos bíblicos com textos cerca de mil anos mais antigos do que o do Texto Massorético. Essa descoberta única, sem paralelo na história, acabou por comprovar a preservação impressionante de um texto tão antigo, o texto da Bíblia Hebraica.

Manuscritos do Mar Morto / Foto: Divulgação

Já no caso do Novo Testamento, há centenas de papiros antigos, alguns códices (cópias completas do Novo Testamento), como o Sinaítico, o Vaticano e o Alexandrino, e milhares de manuscritos mais recentes.

O resultado do trabalho de crítica textual mais confiável e respeitado pelo mundo acadêmico encontra-se nas edições da Biblia Hebraica Stuttgartensia (Antigo Testamento) e no Novum Testamentum Graece (editado por E. Nestlé e K. Aland), publicados pela Sociedade Bíblica Alemã (Deutsche Bibelgesellschaft).

Todavia, muitas pessoas talvez perguntem porque temos diversas versões bíblicas se os problemas das diferenças dos manuscritos não são a principal dificuldade. Como entender a situação?

É importante ressaltar que os autores do texto bíblico e os escribas responsáveis por milhares de cópias dos manuscritos bíblicos antigos viviam num mundo muito diferente. Falavam línguas (hebraico, aramaico e grego) que ainda procuramos compreender, pertenciam a uma cultura muito diferente da nossa e não redigiam textos conforme a expectativa moderna. Por essa razão, nem todos os textos bíblicos são tão fáceis de serem entendidos, nem mesmo pelos peritos e especialistas nas línguas originais.

Às vezes a construção da frase não segue a gramática comum da língua, em outras ocasiões ficamos em dúvida sobre onde devemos dividir a frase. A divisão das orações no Texto Massorético nem sempre é consenso e a pontuação do texto grego do Novo Testamento, por exemplo, não faz parte do original. Em certas passagens bíblicas há palavras difíceis de serem compreendidas, pois o seu significado comum não cabe no contexto. Isso quer dizer que mesmo depois de estabelecido o texto pelos especialistas da crítica textual, nem sempre todos os textos bíblicos serão decifrados e entendidos com facilidade.

É por isso que o leitor comum muitas vezes já constatou que alguns textos bíblicos possuem traduções diferentes em versões bíblicas diferentes. Embora nem todos saibam, a verdade é que diversos textos bíblicos admitem mais de uma tradução correta, e, em muitos casos, alguns deles exigem uma atenção especial e um trabalho cuidadoso para que sejam de fato compreendidos.

A semântica é a ciência dedicada ao estudo do significado das palavras. As principais fontes de pesquisa semântica são os dicionários e léxicos acadêmicos. Quando queremos saber o significado de um termo procuramos a ajuda de um léxico especializado. Isso não é tão difícil quando estamos pesquisando o significado de termos falados atualmente na língua portuguesa. No entanto, quando queremos descobrir o significado das palavras hebraicas, aramaicas e gregas, a tarefa é muito mais árdua. O significado exato de muitas palavras, principalmente hebraicas, ainda é um desafio para os estudiosos.

A ideia mais comum sobre o significado das palavras é a etimológica. Muita gente acredita que o significado de uma palavra está na sua raiz, na sua ideia original. Em muitos casos isso é verdade.

No caso da palavra cefaloide, por exemplo, é fácil entender o seu significado a partir da sua etimologia. A primeira parte da palavra, cefal, vem do grego kephalê, que significa cabeça; já o sufixo oide expressa a ideia de forma. Assim, cefaloide significa o que tem forma de cabeça. Nesse caso, a etimologia da palavra nos permite saber com exatidão o seu significado. Todavia, nem sempre as associações etimológicas nos dão o significado de um determinado termo.

Há casos como o da palavra hipopótamo, na qual os radicais gregos significam literal e etimologicamente cavalo (hipos) e rio (potamos). No entanto, ninguém jamais concordará que “cavalo do rio” traduz exatamente o significado de hipopótamo.

Finalmente, descobriremos também palavras cuja etimologia até destoam do significado mais comum das mesmas. Esse é o caso da palavra embarque. Originalmente, o termo era usado para o ato de entrar em um barco. Todavia, hoje o termo é usado para referir-se ao embarque de um voo, ao embarque em um trem.

Na verdade, o significado de uma palavra tem a ver com o fator sociológico e também com o seu uso histórico. O uso das palavras, bem como o seu significado, sofre variação de acordo com a época em que o texto foi escrito.

No caso dos estudos da Bíblia Hebraica, os estudiosos fazem distinção entre as diversas fases da língua: o hebraico arcaico, pré-exílico e pós-exílico. A verdade é que há diferença de vários séculos entre um texto e outro. Diante desse fato, não há dúvida de que a mesma palavra pode ter significados diferentes em épocas distintas.

O problema maior não está nos manuscritos. Vale mencionar aqui que no caso do Novo Testamento, apesar de o texto ter sido escrito em grego, sabemos hoje que esse grego não é o grego clássico (dialeto ático). Não é possível compreender o significado dos termos gregos do Novo Testamento conhecendo apenas a cultura e a língua helênica clássicas. Além de ser um grego comum (coinê), o grego neotestamentário é um grego semitizado, ou seja, muito influenciado pela cultura judaica e pelo pensamento hebraico. Somente com o conhecimento da história da cultura e das línguas bíblicas poderemos conhecer o significado das palavras da Bíblia. Isso nos ajuda a não dar a esses termos um significado não pretendido pelo autor original.

Um estudo aprofundado das Escrituras comprovará que não podemos considerar o texto bíblico homogêneo do ponto de vista literário. Cada autor usa certos termos de maneira específica. Nem sempre, a mesma palavra é usada no mesmo sentido em todos os autores. Cada autor bíblico escreve com ênfases teológicas específicas, para uma audiência determinada, num contexto histórico
particular. Além disso, é preciso enfatizar que os diversos autores bíblicos escreveram em estilos literários distintos.

A poesia hebraica, por exemplo, não se caracteriza por rima, mas sim por paralelismos. Há construções poéticas como inversões, quiasmos, acrósticos alfabéticos, aliterações etc. que dificilmente podem ser recuperadas plenamente numa tradução.

Ainda assim, temos o problema das expressões idiomáticas e figuras de linguagem. Metáforas, símiles, sinédoques, metonímias são usadas amplamente na Bíblia. Algumas dessas figuras, se traduzidas literalmente, podem não comunicar nada ou até expressar uma ideia errada.

Vale a pena citar aqui alguns exemplos:

Em Gênesis 34:30 o hebraico diz: “E disse Jacó a Simeão e a Levi: ‘Vocês me trouxeram problemas, ao fazer-me cheirar mal entre os moradores da terra'”. Cheirar mal é uma expressão que significa odiar. O sentido aqui é atrair o ódio dos moradores da terra (região).

Em Salmos 41:9 o hebraico diz: “Até o meu melhor amigo (homem da minha paz), em quem eu confiava e que partilhava do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar”. O significado de levantar o calcanhar contra é voltar-se contra.

Quando alguém tentar traduzir um livro do francês ou do inglês para o português enfrenta uma tarefa não muito difícil. As três línguas são muito semelhantes em estrutura e em vocabulário. Até mesmo o inglês, pertencente ao ramo das línguas germânicas, tem cerca de metade do vocabulário formado de palavras de origem latina. Todavia, quando se faz uma tradução do grego bíblico e do hebraico (ou do aramaico) para o português, a tarefa é muito mais difícil, pois a diferença cultural e linguística é muito grande.

O início das dificuldades está no vocabulário das línguas bíblicas. Os vocábulos muitas vezes não possuem correspondente adequado em português. O campo semântico das palavras é muito particular e até mesmo estranho para nós. Especialmente no caso do hebraico, as palavras expressam conceitos bastante concretos. Ideias abstratas são muito raras. A expressão “fazer uma aliança”, por exemplo, é literalmente “cortar uma aliança” em hebraico. É por essa razão que é impossível fazer uma tradução bem literal da Bíblia. Muitas frases não teriam sentido em português.

Uma das palavras muito importantes da Bíblia Hebraica, por exemplo, é Sheol, traduzido por Hades no grego do Novo Testamento. Em algumas versões antigas a palavra foi traduzida por inferno em quase todos os versos onde o termo aparece. Sem dúvida, a tradução uniforme do termo não é adequada. O termo refere-se de fato ao “mundo dos mortos”, e, em muitos contextos, refere-se de modo concreto à sepultura. Assim Sheol (e Hades) pode ser traduzido, dependendo do contexto, por várias palavras diferentes, dependendo do contexto. As possibilidades de tradução mais encontradas são: profundezas, morte, sepultura, mundo dos mortos e inferno.

No caso do hebraico, uma característica interessante da língua é o seu aspecto conciso. A antiga língua dos hebreus usava poucas palavras para dizer muito. Os verbos de ligação são dispensados, os pronomes pessoais estão embutidos na maioria das formas verbais e algumas preposições e sufixos de posse aparecem anexadas aos substantivos e a outras classes de palavras.

Um exemplo disso pode ser visto no Salmo 15:2. O texto hebraico diz literalmente: “Andante integramente e praticante (da) justiça E falante (da) verdade no seu coração”. Como se vê, é difícil entender o sentido do texto, traduzido aqui bem literalmente.

Depois de traduzido adequadamente, o texto fica assim: “Aquele que é íntegro em sua conduta e pratica o que é justo, que de coração fala a verdade”.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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