A Reforma Protestante e sua trajetória brasileira

A Reforma representou uma nova autoridade (o texto no lugar da instituição) e a libertação do indivíduo

Luiz Sayão - 01/11/2018 18h04

O panorama religioso brasileiro mudou radicalmente nas últimas décadas. A tradicional religião dominante, o Catolicismo Romano perdeu espaço para as minorias religiosas do país como os sem-religião, os espíritas e os evangélicos. Nesse cenário, as igrejas evangélicas têm crescido de modo impressionante no Brasil.

Os pentecostais e neopentecostais foram os grupos religiosos que mais cresceram. Foi um avanço mais do que surpreendente. Esses herdeiros da Reforma Protestante, os chamados evangélicos, eram cerca de 13% da população brasileira em 1991, chegaram a 22% em 2010 e já alcançam a cifra de 32% dos brasileiros em 2018 (http://portalwebgospel.com.br/evangelicos-saltaram-de-9-para-32-em-26-anos-dizem-institutos-de-pesquisa-confira-graficos/). São mais de 60 milhões de pessoas. É a população da Itália! Seria o quarto país mais populoso das Américas e o quinto da Europa!

A Reforma Protestante, que mudou a história da Europa, em resumo, foi um movimento de retorno à Bíblia. Sola Scriptura foi o grito de Lutero, acompanhado de Calvino, de Zuínglio e de muitos outros reformadores. As mudanças sócio-culturais, econômicas e teológicas decorrentes do Protestantismo europeu do século 16 reescreveram a trajetória de diversos povos e lhes deu também nova identidade.

Os contornos teológicos desgastados do fim da Idade Média exigiam uma releitura da cristandade europeia a partir de suas origens bíblicas. Os reformadores, luteranos, anglicanos, calvinistas e anabatistas, esboçaram uma caminhada em direção ao cristianismo primitivo, à busca da exegese bíblica, à compreensão da graça divina e da salvação e à liberdade de consciência. De fato, esse retorno à Bíblia teve significado muito além do universo religioso.

Na verdade, a Reforma representou uma nova autoridade (o texto no lugar da instituição) e a libertação do indivíduo. A Bíblia tornou-se livro aberto a ser examinado por todos e entendido agora pelo estudo sistemático. A autoridade do Livro mudou “o foco da verdade”, que já não estava mais na instituição religiosa dominante, e esse enfoque abriu caminho para a hermenêutica, para o livre-exame do texto bíblico, para a educação de todos e para a ciência e o progresso.

Além disso, o conceito do sacerdócio universal de todos os crentes definiu a igualdade entre as pessoas, consagrou valores que impulsionaram a democracia na história do mundo ocidental. Entre tantas razões, essas foram sementes que contribuíram para o progresso dos países protestantes na história recente.

Essa herança fez história inicialmente na Europa Central e Setentrional, depois na América do Norte, e mais recentemente no Brasil. Invasores franceses e holandeses protestantes marcaram presença no Brasil colonial, mas não tiveram continuidade histórica. Pouca gente tem conhecimento, mas o primeiro culto protestante das Américas aconteceu no Rio de Janeiro, dirigido pelos pastores huguenotes franceses Pierre Richier e Guillaume Chartier, no dia 7 de março de 1557.

Mas, foi somente no século 19 que a presença protestante voltou a marcar a história brasileira. Com a maior liberdade religiosa da Constituição de 1824 e com a entrada de imigrantes alemães e suíços, luteranos e reformados, que chegaram ao país, o protestantismo de imigração se estabeleceu aqui para ficar. Todavia, esses protestantes só tiveram influência decisiva na formação religiosa dos imigrantes e seus descendentes.

Vale ressaltar que, paralelamente, os ingleses que viviam no Brasil também tiveram liberdade culto para praticarem a fé anglicana. Mas, o protestantismo missionário só chegaria mais tarde, a partir do movimento de missões modernas, que despontava no mundo evangélico anglo-saxão desde o fim do século 18. As denominações históricas marcaram a sua chegada em terras brasileiras: os congregacionais (1855), os presbiterianos (1859), os metodistas (1867), os batistas (1871) e os pentecostais (1910).

Tradicionalmente vistos como agentes da modernidade e do progresso social, os nossos primeiros protestantes não puderam alinhar-se facilmente com a cultura brasileira da época. Sob uma forte herança puritana, uma espiritualidade concreta e uma ênfase no indivíduo, a nova fé via a tradição católica como sinônimo de atraso e pobreza. Afinal, a fé protestante sempre valorizou o trabalho, a repressão das paixões, a intelectualidade produtiva e a tranquilidade econômica da posteridade. As características desse protestantismo missionário podem ser assim resumidas:

  • Doutrinária. Ênfase na autoridade da Bíblia em oposição à tradição, crença na salvação individual pela graça e pela fé e não em obras e sacramentos, intermediação única de Cristo entre Deus e o homem em oposição à intercessão de Maria, dos santos etc.
  • Culto. Abolição de ícones no culto, centralidade da pregação, valorização da atuação dos leigos, proselitismo (conversão), negação do mundo e repressão das paixões (santificação), maior participação dos membros no culto e na vida da comunidade da fé.

Esse protestantismo missionário foi fundamental na construção do contexto evangélico brasileiro. Todavia, sua trajetória foi peculiar. A excessiva negação do mundo (de inspiração platônica), a alienação política e social e um certo fundamentalismo definiram um protestantismo distinto do modelo progressista analisado por Max Weber.

No entanto, devemos perguntar: como foi que esse modelo prosperou no Brasil? A enorme extensão do país e a falta de sacerdotes católico marcaram a dificuldade da igreja romana de cuidar de seus fiéis, membros de uma fé já diversificada e sincrética. Como bem observou Gilberto Freyre, os portugueses costumavam mostrar uma certa divisão de personalidade, e estavam acostumados com diferenças raciais e religiosas que marcaram sua história. Isso semeou um perfil peculiar no mundo lusófono.

No caso do Brasil, caboclo e mulato, a flexibilidade e convivência com a contradição se tornaram uma realidade. As ideias liberais e positivistas, aliadas à influência maçônica, presentes na elite nacional permitiram maior liberdade religiosa no país. Nesse ambiente fértil, os protestantes começaram a evangelização com o intuito de converter os católicos à nova fé. Distribuindo Bíblias, realizando cultos vivos, usando leigos nas pregações, nas escolas dominicais e construindo uma estrutura de igreja marcada pela ampla participação dos fiéis, a fé protestante iniciou com sucesso sua empreitada na realidade brasileira.

A tropicalização nacional desse protestantismo é uma experiência única. A igreja evangélica brasileira é de fato uma experiência cristã muito recente, que ainda está em busca de sua identidade e de seu caminho. Da perspectiva sociológica, em parte, mostra-se como expressão de progresso e desenvolvimento, como se verifica nas mudanças sociais positivas de tantas denominações evangélicas; mas, em parte, é também retrógrada e obscurantista, tendo contornos quase sectários em certos contextos específicos.

O perfil mais popular desse protestantismo tupiniquim se afastou bastante de suas raízes e mostrou-se delineado por forte misticismo, marcados por experiências existenciais e espirituais frágeis e até mesmo pré-modernas. O que será do Protestantismo Brasileiro, o movimento evangélico? Se não é fácil entender nosso Brasil, mais difícil será compreender nossa igreja evangélica. Qualquer previsão sobre o futuro é temerária.

Todavia, é muito importante que esse protestantismo brasileiro siga na direção de algumas propostas práticas e favoráveis.

1. Voltar-se de modo consciente e responsável para a fonte da fé, as Escrituras Sagradas, valorizando o estudo bíblico e teológico consistente, sem abrir mão da sã doutrina.

2. Transformar e encaminhar a efervescência efusiva dessa fé em benefício social e cultural da realidade brasileira.

3. Saber inserir-se na vida política e cultural brasileira sem perder o sabor, o “sal” do evangelho, não se permitindo tornar-se massa de manobra de qualquer viés ideológico.

4. Caminhar na direção de uma tolerância sem abrir mão de convicções. A maior fragilidade da fé evangélica é a facilidade de multiplicar divisões. O desafio é grande.

5. Mostrar à sociedade a graça bendita de Cristo Jesus não somente pela pregação da verdade do Evangelho, mas também por uma postura de “graça concreta” que mostre o amor de Deus aos que sofrem com realidade do mal neste mundo. Sejamos uma comunidade misericordiosa e amorosa.

 

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

Clique para receber notícias
WhatsApp
Entre e receba as notícias do dia
Entrar no Grupo