Deus quer que sejamos diferentes, mas não esquisitos

Muitas regras bem estranhas e desconhecidas pela própria Bíblia tornaram-se padrão de espiritualidade em muitos ambientes

Luiz Sayão - 19/02/2019 10h09


Há muitos anos, quando viajava pelo interior do estado do Tocantins, aproximei-me de um senhor e puxei conversa. Lá estava um cidadão de média estatura, moreno e já passado dos 40 anos de idade. Conversa vai, conversa vem, logo fui procurando compartilhar com ele o Evangelho. Assim, comecei a falar do amor de Deus, da pessoa de Cristo, do plano de salvação, quando, de repente ele me interrompeu, me encarou e, carrancudo, perguntou-me: “Você é crente?” E, logo depois de minha resposta afirmativa, ele prosseguiu: “Mas, você bebe café?” Quando respondi que sim, o homem esbravejou: “Então você não é crente coisa nenhuma, porque o crente que é crente mesmo nem café pode beber!” Nunca mais esqueci aquela experiência inesperada, intrigante e triste. O que aquele homem tinha entendido sobre o Evangelho?

Não há como fugir da pergunta: Por que será que tantas pessoas têm essa ideia dos cristãos evangélicos? De onde procede esse tipo de perspectiva? Apesar das caricaturas injustas dos evangélicos disseminadas muitas vezes, parte dessa imagem estranha vem dos próprios chamados crentes. O mais triste, porém, é que esses comportamentos inadequados e extremistas procedem de pessoas sinceras e que amam a Deus. Como lidar com uma situação como essa?

É bem verdade que Deus ordena que o cristão não ame o mundo (1 João 2:15). O mundanismo não é compatível com a vida de um seguidor de Jesus. Por outro lado, esse filho de Deus, discípulo do Senhor, não pode sair do mundo (1 Coríntios 5:10) e não deve perder sua liberdade e submeter-se a uma servidão legalista (Gálatas 5:1). Como lidar com essa tensão? A resposta está na própria atitude de Jesus. Vemos nos evangelhos que o nosso Mestre e Senhor sempre esteve no mundo: Jesus participava de festas, normalmente (João 2:1-11) e chegou a ser chamado de comilão e beberrão (Mateus 11:19) por causa de seu comportamento social comum. Ele também foi criticado por estar na companhia de cobradores de impostos desonestos, os publicanos (Marcos 2:16). O Senhor se aproximava dos pecadores (Lucas 5:30) e tinha coragem de conversar com mulheres de má fama, arriscando sua reputação (João 4:9; Lucas 7:37-39).

Essa proximidade de Jesus das pessoas comuns e de tantos pecadores nunca teve relação com o pecado. Sabemos que Jesus nunca tolerou o pecado (Mateus 21:12), sempre criticou a injustiça (Mateus 6:15), anunciou o juízo de Deus, condenou a hipocrisia religiosa (Mateus 12:34) e, muitas vezes, pregou uma mensagem muito dura e difícil de ouvir (Mateus 5:20).

Parece que muita gente tem achado que um bom cristão deve ser uma pessoa diferente dos outros na sua forma de agir. Isso é verdade, mas é preciso perguntar: Em que sentido deve haver diferença? Quando um chamado cristão é um alienado, usa roupas muito estranhas, torna-se isolado, faz cara de bravo e parece que está “chupando limão” o tempo todo, muitos imaginam que aí está um “santo servo do Senhor”. Será que é o caso? Claro que não! Muitas regras bem estranhas e desconhecidas pela própria Bíblia tornaram-se padrão de espiritualidade em muitos ambientes: usar gravata obrigatoriamente no culto, cortar a barba, não usar bigode, não ouvir música “do mundo”, usar penteados específicos, usar instrumentos musicais determinados, a obrigação (ou proibição absoluta) de bater palmas no culto, guardar dias “sagrados”, rejeitar certos alimentos não espirituais, trajes femininos especificados e dezenas de outras “leis” semelhantes. A grande verdade é que essas questões pequenas são irrelevantes e nada têm a ver com o ensino de Jesus.

Na verdade, é triste dizer, mas trata-se de uma distorção do cristianismo bíblico e representam uma fuga da real responsabilidade do povo de Deus nesse mundo de trevas. É possível tornar-se uma pessoa estranha e esquisita, cheia de maneirismos religiosos e, ainda assim, “amar o mundo”. Amamos o mundo quando buscamos poder, colocamos o nosso ego como centro da vida e temos como alvo aquilo que as pessoas desse mundo mau tanto desejam. O fato é que não precisamos ser diferentes das demais pessoas. Devemos agir como seres humanos normais que comem arroz com feijão, ouvem a previsão do tempo, acompanham notícias, conhecem futebol, música, arte, ciência, etc. A diferença deve estar em nossos valores, em nossa ética e em nossa atitude misericordiosa e amorosa. Nisso devemos ser radicalmente diferentes do mundo sem Deus.

É hora de ser muito diferente. Vamos rejeitar a imoralidade sexual, combater a prática do aborto e da exploração infantil, vamos denunciar e criticar todo tipo de injustiça e de maldade à nossa volta, deixemos de ser consumistas tolos, vivamos para as nossas famílias, perdoemos quem nos odeia e nos prejudica, rejeitemos subornos e propinas, lutemos contra a tentação da riqueza, da ostentação e da vaidade, choremos pelos perdidos e pratiquemos a misericórdia. Vamos viver como quem entende a prioridade máxima do Reino.

Não seja um sujeito estranho e bizarro e, ao mesmo tempo, igual aos demais descrentes, meu querido irmão. Torne-se, cada dia, bem diferente do padrão desse mundo. Não seja um “alienígena”, pois Deus quer que sejamos diferentes, e não esquisitos.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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