Seguir a “Teologia do Saci” irá fazer você cair

É um caminho por onde não é possível prosseguir

Luiz Sayão - 26/06/2019 11h43

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um dos quadros mais tristes da cristandade perante os que não são cristãos é a sua fragmentação desmedida e quase que incontável. Há nos dias de hoje mais de cem mil denominações evangélicas em todo o mundo. Na verdade, a maioria delas é exatamente igual a muitas outras em termos de doutrinas e práticas. Infelizmente, muitos grupos se separam de seus irmãos na fé por motivos pouco cristãos na história. Todavia, apesar de tantos desencontros em termos de unidade, é fato que grande parte de nossas divisões teve origem em questões teológicas e doutrinárias.

É claro que teologia e doutrina são elementos fundamentais, dos quais não se pode abrir mão. Se alguém nega a divindade e a humanidade de Cristo, a onisciência de Deus, a salvação pela fé e a singularidade e autoridade da Bíblia, essa pessoa não pode ser considerada cristã evangélica, uma vez que ela mesma se exclui dessa referência. No entanto, as divisões do contexto protestante e evangélico não se limitam a doutrinas fundamentais. As questões que nos distanciam de nossos irmãos são as menores, de importância secundária, e em alguns casos são até mesmo questões irrelevantes.

Da minha perspectiva, a razão principal de nosso divisionismo exacerbado seja o que prefiro chamar de “teologia do saci-pererê”. Como todos sabem, o saci-pererê é uma espécie de duende brasileiro criado pela imaginação popular. A criatura do folclore nacional seria um guardião das florestas, perneta, que assustaria todos os que perturbam o silêncio das matas. O que mais se destaca na figura do saci é o fato de que ele tem uma perna só, sua marca inconfundível. Naturalmente, a pergunta já surge na mente do amigo leitor: Mas, o que isso tem a ver com teologia? Saci e teologia andam juntos? Ou “pulam juntos”? É melhor explicar. O que quero dizer com isso é que boa parte de nossa teologia é uma “teologia de uma perna só”, isto é, uma teologia restrita, que enxerga de modo limitado o quadro amplo da revelação divina.

Historicamente, uma das razões pelas quais criamos uma teologia limitada assim é a nossa herança racionalista. Os antigos hebreus e cristãos sabiam que a realidade era muito mais complexa do que a nossa razão permite descrever. Além disso, eles também entendiam que certas dimensões da fé aparentemente distintas não eram necessariamente contraditórias. O problema é que quando nossa teologia se “helenizou” exageradamente de modo aristotélico, adotamos uma logicamente simplista que nos trouxe diversos problemas.

Para entender tal realidade, basta lermos a Bíblia e vermos que o texto sagrado não se incomoda em afirmar coisas que pode ofender o racionalismo de muitos. Por exemplo, como Deus pode ser infinito e encarnar num bebê em Belém? A encarnação é um mistério além do alcance da razão. Como Deus pode ser um e três ao mesmo tempo? Não é possível destrinchar plenamente a doutrina da Trindade. Como a Bíblia pode ser Palavra de Deus e ser escrita por homens? As duas declarações são verdadeiras. Como podemos ser salvos por nossa fé e ao mesmo tempo por obra exclusiva do Espírito Santo? Há quem queira excluir um dos aspectos. Como entender que Deus é totalmente soberano e nós somos livres e responsáveis por nossos atos? A polarização acentuada não reflete as Escrituras. Como decidir se é o bom senso, a sabedoria bíblica que nos norteia, ou é a direção sobrenatural do Espírito Santo? Há gente que escolhe um ou outro.

A verdade é que o mistério e a complexidade da realidade bíblica têm sido reduzidos para “facilitar” a vida dos cristãos. Uns dizem que Deus é pura razão, outros afirmam que ele é só coração e emoção. Uns insistem que Deus faz tudo, sendo plenamente soberano (enfatizando que até os ímpios foram predestinados ao inferno), outros afirmam que Deus não pode fazer nada sem nossa autorização (nós é que decidimos! Nesse caso será que Deus ainda é Senhor?). Uns preferem um Deus mais coletivo, sociológico; outros afirmam que ele é o Deus do indivíduo. Há quem veja Deus como inserido na realidade concreta do mundo; outros o colocam no “milésimo céu”, em sua espiritualidade e distância absolutas.

A verdade é que toda teologia radical e polarizada terá sérios problemas e graves consequências de ordem prática. Se entendermos que “duas paralelas só se encontram no infinito”, que toda moeda “tem duas faces” e que a realidade é bem mais dialética, ou até mesmo “poli-alética” do que admitimos, seremos muito beneficiados. Há vários benefícios decorrentes dessa postura:

Em primeiro lugar, seremos mais humildes em nossa afirmação de “conhecimento do sagrado”. Há muito da revelação que ultrapassa a visão racionalista.

Em segundo lugar, aprenderemos a separar questões fundamentais de problemas secundários. Às vezes, “coamos mosquitos e engolimos camelos”.

Em terceiro lugar, desenvolveremos nossa tolerância e nosso senso fraternidade e amor cristãos (esses são inegociáveis, segundo Jesus). Espero que venhamos a amadurecer nesta direção, pois a teologia brasileira tem mais condições de ser menos radical do que muita teologia produzida no chamado “primeiro mundo”.

A importância de fugirmos da teologia do saci-pererê, evitando que nossas igrejas saiam por aí, pulando de uma perna só, tropeçando e caindo, é que em nossos dias tal tendência está acentuada. Depois de décadas de experiência, viajando por todo o mundo e sempre em contato com muitos centros teológicos de expressão, pude constatar os descaminhos de uma teologia polarizada. Há uma tendência em alguns grupos da atualidade de se rejeitar a doutrina das penas eternas, pois ela seria “irreconciliável com o amor de Deus” (a ideia é que se Deus é amor, ele não pode ser justiça, muito menos pode ele mostrar sua ira). Recentemente, um outro debate causou discussão no meio evangélico: surgiu a teologia do “teísmo aberto”. A ideia de alguns teólogos americanos é que Deus abriu mão de sua soberania e onisciência e resolveu não saber o futuro. Em resumo, Deus “abriu mão de ser Deus”. O intuito é “livrar” Deus de ser responsabilizado do sofrimento que há no mundo. Trata-se de um ultra-arminianismo que ignora centenas de textos bíblicos. Novamente, temos uma teologia radical, polarizada, bastante ocidental, e que ignora a dialética hebraica, negando a realidade do mistério.

Na verdade, da “teologia do saci” todos devem fugir. É um caminho por onde não é possível prosseguir. A advertência está dada: seguir a “teologia do saci” fará você cair.

Que Deus tenha misericórdia de nossas pretensões e abençoe a igreja brasileira para que ela venha crescer no conhecimento de Deus, na tolerância fraternal e no pensamento teológico cristão equilibrado.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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