Teologia do trabalho: Não ao ócio, não aos workaholics

Vamos descobrir que as Escrituras Sagradas têm muito a nos dizer sobre como devemos encarar a vida no que diz respeito ao trabalho

Luiz Sayão - 30/05/2019 11h10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando pensamos em espiritualidade, fé ou religião, geralmente voltamos nossa atenção para tudo aquilo que se distancia da terra, da matéria e da vida concreta do dia-a-dia. No entanto, essa visão incorreta tem sido mudada. Hoje, sabemos que fé e espiritualidade são necessidades da vida. Afinal, se formos mal direcionados nessa área teremos problemas. A espiritualidade é tão importante que atualmente já está integrada até mesmo ao mundo corporativo. Todos já sabem que pessoas que oram, meditam e buscam virtude são melhores profissionais e pessoas mais capazes de lidar com os conflitos da vida. Para lidar com o estresse e com as lutas que enfrentamos é preciso ter a força espiritual que vem de Deus.

Diante dessa compreensão correta da realidade, vamos descobrir que as Escrituras Sagradas têm muito a nos dizer sobre como devemos encarar a vida no que diz respeito ao trabalho. A luz bíblica sobre a carreira profissional é muito maior do que se imagina. Um dos textos que mais descrevem de modo prático esse enfoque é o livro de Eclesiastes, registro antigo de sabedoria única.

O momento de preparo e de início de jornada trabalhista é claramente destacado no tradicional texto salomônico. A alegria de um jovem que mescla os prazeres da vida como resultado do seu triunfo inicial parece ter sido escrita em nossos dias:

Não me neguei nada que os meus olhos desejaram; não me recusei a dar prazer algum ao meu coração. Na verdade, eu me alegrei em todo o meu trabalho; essa foi a recompensa de todo o meu esforço. (Ec 2.10)

A atitude de alguém que, depois de algum sucesso na carreira, geralmente depois de casado e já com filhos, reage positivamente diante dos aspectos favoráveis da vida profissional, quando muitas vezes às pessoas até se lembram de Deus também é destacado no texto sapiencial:

Para o homem não existe nada melhor do que comer, beber e encontrar prazer em seu trabalho. E vi que isso também vem da mão de Deus. (Ec 2.24)

Descobri também que poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho, é um presente de Deus. (Ec 3.13)

E, quando Deus concede riquezas e bens a alguém, e o capacita a desfrutá-los, a aceitar a sua sorte e a ser feliz em seu trabalho, isso é um presente de Deus. (Ec 5.19)

Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. (Ec 9.9)

Todavia, o tempo passa, e nem sempre o que esperamos de fato acontece. A força do mercado e a prioridade do dinheiro ameaçam as relações humanas. É preciso se matar para ganhar a concorrência. Os workaholics se entregam ao estresse e à loucura para vencer uma competição quase insana. Nem tudo o que envolve a trajetória profissional parece tão promissor.

Durante toda a sua vida, seu trabalho não passa de dor e tristeza; mesmo à noite a sua mente não descansa. Isso também é absurdo. (Ec 2.23)

Descobri que todo trabalho e toda realização surgem da competição que existe entre as pessoas. Mas isso também é absurdo, é correr atrás do vento. (Ec 4.4)

O tempo passa, e então chega a hora de começar a avaliar os resultados da dura jornada. Valeu a pena trabalhar tanto? Para quê mesmo serve o trabalho? O que perdi? O que ganhei? Do que me privei? Neste momento mais adiantado, surge muitas vezes um vazio que pode explicar porque tanta gente desiste da vida e entrega-se aos vícios. Parece que tudo foi inútil. Não valeu a pena. A atualidade de Eclesiastes chega a assustar:

O que o homem ganha com todo o seu trabalho em que tanto se esforça debaixo do sol? (Ec 1.3)

Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há qualquer proveito no que se faz debaixo do sol. (Ec 2.11)

Por isso desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me muito pesado. Tudo era inútil, era correr atrás do vento. (Ec 2.17)

Cheguei ao ponto de me desesperar por causa de todo o trabalho em que tanto me esforcei debaixo do sol. (Ec 2.20)

A vida segue o seu curso e se aproxima de seu desfecho. A maturidade se manifesta, a impulsividade irrefletida dá lugar à ponderação. Abre-se um caminho de avaliação final da jornada. Afinal, o que foi que eu fiz? O que será da minha herança? Será que terei um legado? O que será depois da minha partida? Mais uma vez, a sabedoria dos antigos escritos hebraicos inspirados chamam a atenção:

Desprezei todas as coisas pelas quais eu tanto me esforçara debaixo do sol, pois terei que deixá-las para aquele que me suceder. E quem pode dizer se ele será sábio ou tolo? Contudo, terá domínio sobre tudo o que realizei com o meu trabalho e com a minha sabedoria debaixo do sol. Isso também não faz sentido. Pois um homem pode realizar o seu trabalho com sabedoria, conhecimento e habilidade, mas terá que deixar tudo o que possui como herança para alguém que não se esforçou por aquilo. Isso também é um absurdo e uma grande injustiça. (Ec 2.18-19,21)

Havia um homem totalmente solitário; não tinha filho nem irmão. Trabalhava sem parar! Contudo, os seus olhos não se satisfaziam com a sua riqueza. Ele sequer perguntava: “Para quem estou trabalhando tanto, e por que razão deixo de me divertir? ” Isso também é absurdo. É um trabalho muito ingrato! (Ec 4.8)

O homem sai nu do ventre de sua mãe, e como vem, assim vai. De todo o trabalho em que se esforçou nada levará consigo. (Ec 5.15)

Eclesiastes é um convite à reflexão. Como estamos vivendo nossa frágil e limitada vida? Por que não nos sentimos preenchidos com as realizações aparentemente vitoriosas e bem-sucedidas? Não dá para viver sem espiritualidade, espiritualidade que vem da Palavra de Deus.

Nas Escrituras vamos descobrir que a fonte maior de satisfação para o profundo do nosso ser é nossa relação com Deus. Sem o cultivo da espiritualidade, sem a razão de ser maior da vida, não conseguimos a sintonia interna tão desejada. É preciso buscar a Deus e seu amor, plenamente manifesto na pessoa de Cristo Jesus. Isso nos prepara para esta vida e também para a futura.

Todavia, essa espiritualidade não está desconectada da vida. O Deus do coração é o Deus da criação. Por isso, o trabalho é uma bênção. Trabalhar é uma maneira de servir o próprio Criador. É atuar no cenário do espaço e tempo divino para beneficiar a vida do próximo. Se o trabalho está devidamente submisso à necessidade maior de nossa vida, nossa relação com Deus, não só satisfará nosso coração, trazendo realização pessoal, como também se transformará em missão. Esse tipo de trabalho glorifica a Deus, abençoa quem o faz e beneficia o próprio. Faz do mundo um lugar melhor.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

 


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