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Epidemia diante da palavra da sabedoria

Num cenário como esse, creio que, com certeza, vale a pena consultar a sabedoria bíblica para entender a questão da pandemia

Luiz Sayão - 09/04/2020 12h00

Diante do cenário imprevisível da grande epidemia que assola o mundo hoje, devemos perguntar o que está acontecendo. Será que estamos diante de uma obra diabólica? O vírus tem origem no mal? Talvez seja mera responsabilidade humana, como pensa a maioria. Para outros, porém, parece apenas “obra do acaso”. Vou ousar afirmar que nenhuma das respostas acima sugeridas é suficiente para explicar a pandemia que assola o planeta. Num cenário como esse, creio que, com certeza, vale a pena consultar a sabedoria bíblica para entender a questão. Desta vez, entendo que uma boa lição sobre o assunto está na perspectiva dos antigos profetas bíblicos.

Entre os profetas de Israel e de Judá, destacam-se as palavras do pequeno livro do profeta Naum. Na abertura de sua profecia, no texto de 1.3, lemos o texto que afirma: “O SENHOR tem o seu caminho no vendaval e na tempestade, e as nuvens são a poeira dos seus pés”. Essas palavras ecoam desde a chegada do juízo divino que caiu sobre a capital assíria, Nínive, no século 7 a.C. Mais do que nunca elas nos falam de modo particular nestes dias difíceis de crise e dor.

Conscientes da realidade, os pagãos temiam os desastres naturais, atribuídos a divindades específicas

Nem todos estão conscientes de que a perspectiva do homem bíblico registrada nos textos dos profetas de Israel tenha total distinção da visão do homem contemporâneo, muitas vezes secularizado e humanista. A antiguidade dos tempos bíblicos, como qualquer época da história humana, estava acostumada a catástrofes de todo tipo, inclusive a pestes e a outros desastres naturais. Nesse contexto imprevisível, a revelação bíblica também se mostrava distinta da visão de mundo naturalista do paganismo do antigo Crescente Fértil.

No paganismo de Canaã a natureza era divinizada, enquanto no Israel bíblico, o Eterno tudo dominava e era transcendente em relação ao mundo fenomenológico. Apesar dessa disparidade de enfoque, nos tempos bíblicos ninguém partia do pressuposto de que o mundo estava sob o controle do homem e que as coisas deveriam prosseguir o curso planejado e esperado pela razão humana, que “tinha entendido as leis do universo” e era capaz de dominá-lo com maestria. Esse foco antropocêntrico foi desdobramento do racionalismo e iluminismo recentes. Os antigos iriam se sentir à vontade, em certo sentido, com algumas ideias de pensadores mais recentes como Kierkegaard, Heidegger e até Sartre. Eles compreenderiam a tremenda limitação do ser humano, sua impotência diante do mundo “estranho” que os cerca. Conscientes da realidade, os pagãos temiam os desastres naturais, atribuídos a divindades específicas. Baal e Astarote dominavam o cenário da cultura cananita. Os homens se imaginavam à mercê dos deuses, que poderiam atingi-los a qualquer momento.

A antiguidade dos tempos bíblicos estava acostumada a catástrofes de todo tipo, inclusive a pestes e a outros desastres naturais

Vale ressaltar também que o que vemos é que o pensamento bíblico rejeitou a idolatria pagã e destacou que o Eterno era o verdadeiro e único Deus. Por isso, os deuses pagãos não passavam de imaginação dos povos. Apesar disso, o homem bíblico nunca atribuiu a elementos não divinos à origem dos fenômenos. Uma leitura atenta do Salmo 29, por exemplo, revelará a apologética contra o baalismo e a ênfase de que o SENHOR é o verdadeiro Deus que domina as tempestades. Pode se constatar que “a voz do SENHOR” do Salmo 29 é o trovão que estronda de modo assustador. De modo geral, na Bíblia, o sofrimento que atinge os homens tem origem no próprio Deus e não em outra fonte. De igual modo, no livro de Rute, o sofrimento geral (fome) e, também, a dor específica (de Noemi) têm origem no próprio SENHOR.

Uma perspectiva teísta da realidade não tem outra alternativa. É impossível imaginar que um desastre natural, como uma epidemia ou um terremoto não tenha a ver com o próprio Deus. Isso nos levaria a entender que a natureza opera independentemente da ação divina. A ideia equivocada de que os homens têm direitos perante o Criador e que Deus deve ser culpado pelos sofrimentos que lhes são causados marcam a tradicional revolta dos ateus e agnósticos que se limitam a ver a vida “debaixo do sol”, para usar a linguagem do Eclesiastes. Por isso, em última instância, com as Escrituras, afirmamos que o Deus de toda soberania tem o controle de tudo e de modo direto ou indireto (permitindo) é o “responsável” pelos desastres naturais, pois tudo vem de Deus.

Se pudéssemos conversar com o homem bíblico do Israel antigo, talvez não fosse tão difícil entender o seu raciocínio. Ele saberia, por exemplo, que Deus tinha sido responsável de modo direto por intervenções meteorológicas que causaram muitas mortes, como foi o caso do Dilúvio e da abertura (e retorno das águas) do mar Vermelho. Além disso, ele entenderia facilmente também que Deus é quem tira a vida de todos os que falecem (Dt 32.39 – “eu mato, e eu faço viver”). O SENHOR dá a vida e a tira. Em certas ocasiões, ele convoca algumas de suas criaturas um pouco antes do momento por elas esperado. O homem que mata é assassino, pois não tem o direito de tirar aquilo que nunca concedeu. Mas este não é o caso do soberano Deus. Por isso, nossos avós gostavam de dizer que um falecido havia sido “recolhido”.

A literatura bíblica até cunhou o termo ’enosh para falar do homem como criatura frágil

Esse homem bíblico também geralmente costumava entender que tais atos divinos poderiam ser um lembrete ao ser humano de sua fragilidade e de sua pecaminosidade. A leitura do livro de Salmos revela isso com frequência (veja os salmos 30 e 130: https://www.youtube.com/watch?v=uKyiRFB4GIY). A relação sofrimento e pecado feita com o tema da fragilidade era comum. A literatura bíblica até cunhou o termo ’enosh para falar do homem como criatura frágil. O termo distingue-se de ’ish e de ’adam, e define o homem em sua distinção com relação ao divino.

Por isso, se um homem bíblico soubesse de nossa realidade perversa e distante de Deus, com todas as nossas mazelas contemporâneas, ele consideraria a possibilidade de uma intervenção divina em nosso tempo para refrear os desmandos humanos na Terra. Isso, indo um pouco além na história, diante das expectativas escatológicas neotestamentárias (Mt 24, Lc 21) seria esperável enfrentar desastres, inclusive epidemias.

Todavia, o mais surpreendente nisso tudo é que, numa perspectiva mais do que dialética, os textos bíblicos ao mesmo tempo nos ensinam a sentir profundamente o sofrimento e a chorar em meio à tribulação com toda a dor. O homem bíblico lidava com a realidade de que Deus é ao mesmo tempo soberano, tem o direito de julgar e punir, mas tem amor por suas criaturas e sofre com elas e por elas, por causa de sua misericórdia. Na verdade, o israelita antigo talvez até pudesse fazer uma outra pergunta: Por que, diante de tanta maldade e injustiça, o Deus onipotente e justo não executa o seu juízo sempre que necessário?

Diante dessa interrupção de nossa rotina, muitas vezes egocêntrica, irrefletida e irresponsável, creio que ainda há chance de arrependimento

É muito possível, no meu entendimento, que em no profundo do seu coração ele se consolasse com as palavras do salmista: “a misericórdia do SENHOR dura para sempre” (Sl 136). Que bom! É um consolo! É confortante! Parece que Deus resolveu esperar um pouco mais! Diante dessa interrupção de nossa rotina, muitas vezes egocêntrica, irrefletida e irresponsável, creio que ainda há chance de arrependimento e retorno ao Senhor de toda sabedoria e soberania diante da epidemia! Afinal, Deus usa aquilo que nos parece mal e dolorido, aquilo que chega como tempestade e vendaval, para fins bons, para a sua glória.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).
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