Só dá para fazer teologia com a lágrima nossa de cada dia

É entre olhos embaçados e uma voz embargada que se apresenta uma vida transformada

Luiz Sayão - 16/10/2019 17h28

 

A reflexão teológica é tarefa importante. É o esforçar-se e o curvar-se da razão diante do Sagrado, do Insondável, diante de Deus. Se levamos Deus e sua vontade a sério, com certeza, nosso pensamento se voltará para compreender o Senhor, sua revelação e os seus caminhos. Por isso, toda a tradição judaico-cristã tanto priorizou a supremacia da Palavra Divina. O brado da Reforma ainda soa bem alto: Sola Scriptura. Todavia, esse exercício tão valioso e pertinente é profundo e não pode ser tratado de modo leviano e equivocado. Na verdade, o perigo de se perder na mera abstração do Sagrado é enorme. Os contornos secretos e inconscientes de nossa fragilidade, definida pela inclinação ao mal, o yetser hara’ (Gn 6.5), a corrupção humana, atingem a todos e nos pega de surpresa. É difícil dizer, mas o fato é que “eu sou o meu pior inimigo”; meus males me ameaçam.

Talvez um dos elementos mais extraordinários da revelação bíblica, onde se pode sentir o pulsar de Deus, com a expressão de suas verdades, é que aquilo que se pode conhecer de Deus em termos teológicos e doutrinários está entremeado de sentimentos profundos, balsâmicos e terapêuticos. E, isso muitas vezes escapa de uma avaliação demasiadamente racional das Escrituras. A busca da verdade é uma corrida de obstáculos: meu pecado, minhas preferências, meus traumas, meus anseios, minha projeção pessoal e muitos outros “meus e minhas”, estão no caminho e podem macular minha tarefa teológica, “danificando o meu jardim” com as ervas daninhas da arrogância, da frieza, do orgulho, do isolamento, da pretensão e até da violência. É muito complicado. Às vezes, apenas quero ter razão e ser vitorioso contra os que pensam diferente de mim.

Eu não sei muito bem, mas, em minhas leituras bíblicas, comecei a desconfiar de que existe um santo remédio para esse mal terrível que nos aflige. Ele se chama “teologia do choro”. Hoje estou bem desconfiado de que só dá para fazer teologia com a lágrima nossa de cada dia!

Parece-me que grande parte da igreja de hoje não chora mais. Está insensível. Não tem mais uma santa dor que produz amor. Mas, alguns exemplos antigos e atuais nos ajudam a lembrar um pouco dessa “teologia do choro”.

Feriste-me o coração com a tua Palavra, e eu te amei.

Agostinho.

 

Quem quiser de Deus ter a coroa passará por mais tribulação

Às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação

O Senhor tem dado aos Seus queridos parte do Seu glorioso ser

Quem no coração for mais ferido mais daquela glória há de ter

Trecho do Hino 126 – Harpa Cristã

 

Não só pela alegria te agradeço, mas devo graças dar também pelo sofrer;

As lágrimas amargas de desgosto banhando o meu rosto eu quero agradecer.

Ereni Miranda – Igreja Pentecostal Deus é Amor

 

Essa história toda “do santo choro” parece descortinar-se logo no início das Escrituras, quando a maldade humana domina a terra na ocasião do Dilúvio:

Então, o SENHOR arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra; e isso lhe cortou o coração. (Gn 6.6)

É impressionante! O Deus imutável e perfeito, distinto dos ídolos pagãos, é, ao mesmo tempo, um Deus que “chora por dentro” diante do pecado humano. Isso é misterioso e tocante, de modo que o Eterno ainda é descrito com intensas emoções. Além de “chorar por dentro” por causa do ser humano, quando Deus revela o tipo de relacionamento que ele tem com Israel, em sua aliança com o povo, as páginas sagradas são comoventes:

Assim diz o SENHOR dos Exércitos: “Tenho muito ciúme de Sião; estou me consumindo de ciúmes por ela”. (Zc 8.2).

Imagine só! É o Eterno que se consome de ciúmes por amor ao seu povo. E quando esse povo peca de modo absurdo, Deus ordena ao profeta Oseias que trate sua mulher adúltera e perdida, em conformidade com o jeito de ser peculiar do Eterno, quando mostrar amor para com seu povo:

O SENHOR me disse: “Vá, trate novamente com amor sua mulher, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o Senhor ama os israelitas, apesar de eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolos sagrados de uvas passas”. (Os 3.1)

Fico pensando se teremos na eternidade algum ambiente do registro dos sentimentos profundos de Deus, com sua dor, choro, ciúmes do seu povo e seu amor extravagante e incondicional, limitadamente traduzidos pelos teólogos como “graça”. Sempre precisamos de buscar adjetivos para definir essa graça (maravilhosa, infinda, profunda); só para tentar completar a tradução.

Agora, a coisa é forte! É algo meio louco só em pensar. Certa vez, Deus estava indignado com os pecados do povo e resolveu dar as costas a esses rebeldes; ele chegou a dizer: Mas vocês me abandonaram e prestaram culto a outros deuses. Por isso não os livrarei mais. Clamem aos deuses que vocês escolheram. Que eles os livrem na hora do aperto! ” (Jz 10.13,14). É demais! Foi só o povo se arrepender que “Deus não aguentou com o seu coração que chora por nós”:

E tiraram os deuses estranhos do meio de si e adoraram o SENHOR. E ele já não pôde reter a sua compaixão diante da desgraça de Israel.

É tocante! O Deus que se revela não é impassível. Mostra-se cheio de profundas emoções na sua relação com seus agraciados. É isso o que vamos confirmar na história da redenção. Quando esse Senhor poderoso começa a agir com salvação e libertação na história de Israel, o que será que vamos encontrar? Quem diria? O choro do povo que sofria, o choro do bebê, futuro libertador, diante do Eterno que se compadece da dor:

Ao abri-lo, viu um bebê chorando. Ficou com pena dele e disse: “Este menino é dos hebreus”. (Êx 2.6)

Muito tempo depois, morreu o rei do Egito. Os israelitas gemiam e clamavam debaixo da escravidão; e o seu clamor subiu até Deus. (Êx 2.23)

A história da redenção é marcada por essa “teologia do choro”. Esse santo pranto que concretiza e externaliza a dor, o arrependimento, a dependência do Pai, a confissão, a intimidade com o Senhor, a experiência espiritual profunda, se verifica em vários momentos:

Na história patriarcal, na vida de Jacó, pai das tribos de Israel:

Ele lutou com o anjo e saiu vencedor; chorou e implorou o seu favor. Em Betel encontrou a Deus que ali conversou com ele. (Os 12.4)

Na época dos juízes, quando não havia esperança:

Certa vez, quando terminou de comer e beber em Siló, estando o sacerdote Eli sentado numa cadeira junto à entrada do santuário do SENHOR, Ana se levantou e, com a alma amargurada, chorou muito e orou ao SENHOR. (1Sm 1.9,10)

No exílio, quando tudo parecia não fazer sentido:

Naquela ocasião, eu, Daniel, passei três semanas chorando. (Dn 10.2)

No retorno do exílio, em oração e confissão:

Enquanto Esdras estava orando e confessando, chorando prostrado diante do templo de Deus, uma grande multidão de israelitas, homens, mulheres e crianças, reuniram-se em volta dele. Eles também choravam amargamente. (Ed 10.1)

Na esperança da redenção futura:

“Naqueles dias e naquela época”, declara o SENHOR, “o povo de Israel e o povo de Judá virão juntos, chorando e buscando o SENHOR seu Deus. (Jr 50.4)

Depois de percorrer essa “estrada das lágrimas”, essa “via mui chorosa”, vale observar como se pode verificar a santa terapia de gente como Jó (16.16), Jeremias (Lm 3.48) e Davi (Sl 40.1), que se derramam diante do Eterno. Não há repressão da dor profunda, não há escapismo, não há negação. Existe uma espécie de santo “choro livre” que trabalha o coração.

Todavia, nem só de lamentação vive o coração. Surpreendentemente, a espiritualidade profunda, madura e genuína, é delineada pelas lágrimas. É um chorar didático e comovente:

Quando se deseja agradar a Deus, mas isso não acontece:

Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida. (Sl 119.136)

Quando se descobre no profundo o que é onisciência do Eterno:

Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre; acaso não estão anotadas em teu livro? (Sl 56.8)

Quando a vingança desaparece e o choro do perdão prevalece:

Então, mandaram um recado a José, dizendo: “Antes de morrer, teu pai nos ordenou que te disséssemos o seguinte: ‘Peço-lhe que perdoe os erros e pecados de seus irmãos que o trataram com tanta maldade! ’ Agora, pois, perdoa os pecados dos servos do Deus do teu pai”. Quando recebeu o recado, José chorou. (Gn 50.16,17)

Quando chegamos ao Novo Testamento, a bela e santa “choradeira” só aumenta. É entre olhos embaçados e uma voz embargada que se apresenta uma vida transformada. O que acontece com gente que experimenta essa graça perdoadora profunda? É o santo choro! De uma “pecadora”:

Ela se colocou atrás de Jesus, a seus pés. Chorando, começou a lhe molhar os pés com as suas lágrimas. Depois os enxugou com seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume … Em seguida, Jesus virou-se para a mulher e disse a Simão: “Vê esta mulher? Entrei em sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. (Lc 7.38,44)

De fato, “andar com Jesus” é como que fazer um curso nessa bela “arte de chorar”. Ser cristão também é ser chorão! O próprio Senhor, que nunca é descrito rindo, aparece chorando. É o Jesus que chora diante do túmulo de Lázaro, seu amigo (Jo 11.35). No vislumbre do juízo sobre Jerusalém, não há uma fria declaração teológica, mas um lamento dolorido:

Quando se aproximou e viu a cidade, Jesus chorou sobre ela. (Lc 19.41)

E assim é a marca dos seguidores do Senhor em muitos momentos. Paulo chora em seu ministério pastoral e apostólico:

Por isso, vigiem! Lembrem-se de que durante três anos jamais cessei de advertir a cada um de vocês disso, noite e dia, com lágrimas. At 20.31

Pedro, quando fracassa em sua autossuficiência e peca contra seu querido e amado Senhor:

O Senhor voltou-se e olhou diretamente para Pedro. Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: “Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes”. Saindo dali, chorou amargamente. (Lc 22.61,62)

O extraordinário “filho na fé” de Paulo, Timóteo, que recebe duas de suas cartas também tem a marca da “comunidade das lágrimas”

Lembro-me das suas lágrimas e desejo muito vê-lo, para que a minha alegria seja completa. (2Tm 1.4)

No entanto, quando pensamos em outros aspectos da fé, talvez seja melhor “recolher o lenço”. Não há lugar para tanto choro na elaboração teológica mais rigorosa. Mas, será que isso é verdade? Será que o lugar do “santo pranto” é o da dor e o da devoção. Quando o cérebro entra em ação, pede licença o coração? Eu acho que não!

É interessante observar como Paulo faz apologética. Como ele defende a verdade. Sua postura é clara. Seu discurso não é pós-moderno, nem sofista, nem carece de definição doutrinária inequívoca. Mas, lidar com a verdade de “olhos secos” é um tanto quanto estranho e até mesmo perigoso. É difícil imaginar que “defensores da fé” que proclamam doutrinas tão sérias como o juízo divino creiam de fato no que dizem se não são atingidos no coração por suas próprias palavras. Por isso, a Bíblia, que nos surpreende de modo único, mostra a “teologia chorosa de Paulo”.

Na hora de combater as heresias dos inimigos da fé:

Pois, como já lhes disse repetidas vezes, e agora repito com lágrimas, há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo. (Fp 3.18)

Na hora de repreender uma igreja em pecado e rebeldia:

Pois eu lhes escrevi com grande aflição e angústia de coração, e com muitas lágrimas: não para entristecê-los, mas para que soubessem como e profundo o meu amor por vocês. (2Co 2.4)

Na hora de confrontar o legalismo de seus queridos gálatas:

Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês. (Gl 4.19)

Na hora de expressar sua emoção mais forte para os judeus que não receberam a mensagem do Messias Jesus:

Tenho grande tristeza e constante angústia em meu coração. Pois eu até desejaria ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor de meus irmãos, os de minha raça. (Rm 9.2,3)

Fiquei totalmente chocado quando descobri isso, pois muitas vezes em minha vida quis argumentar apenas para mostrar que sabia mais do que os outros, para provar que estava certo, para envergonhar um opositor, para enaltecer-me em nome da verdade, quando deveria ser humilhado por ela, e, em lágrimas, dar glória a Deus.

Por isso, não é difícil de entender a incrível e sublime lógica bíblica, quando o texto vai focalizar o momento mais importante da história: a Ressurreição do Senhor. Quem poderá ser protagonista do ápice da história da redenção? As lágrimas dificultam o meu texto agora:

Disse Jesus: “Mulher, por que está chorando? Quem você está procurando? ” Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”. (Jo 20.15)

Maria Madalena, que chorava de saudades do Senhor, tem o privilégio do protagonismo na narrativa da ressurreição. Magnífico. Sublime.

Para encerrar nossa “teologia das lágrimas”, não se pode esquecer que “bem-aventurados são os que choram, pois serão consolados” (Mt 5.4), e que esse consolo envolve o fato de que Deus “enxugará dos nossos olhos toda lágrima” (Ap 17.7; 21.4). Não sei como será isso! Às vezes fico pensando nesse momento inefável. Acho que será como quando uma criança é consolada pelo pai ou pela mãe e fica “entre riso e choro”; é quando no desfecho do soluçar o “lamento se torna um alento”. É uma cura do coração ferido que se tornou querido. No meu caso, depois de ter sido tão amado e perdoado, na hora de enxugar minhas lágrimas – que o Senhor me perdoe – ele terá trabalho dobrado.


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