Será o fim do carnaval da corrupsamba?

Em meio a tal cenário, muito dinheiro público vai continuar financiando essa alienação perversa, que já não é mais uma festa folclórica e cultural

Luiz Sayão - 26/02/2019 10h09


A corrupção é um dos mais terríveis flagelos da sociedade contemporânea. No Brasil ela tornou-se um mal terrível. O uso indevido dos recursos públicos e a ineficácia da Justiça são facetas da triste realidade. A preservação da corrupção está muito relacionada com a poderosa indústria de alienação. No Brasil, um dos seus principais mecanismos de continuidade é o carnaval. É o ritmo da corrupsamba! A ideia popular é esquecer a vida e cair na “gandaia e na folia”. Enquanto todos os desmandos são praticados, o povo “se diverte”.

Apesar de sua face tupiniquim, o problema da corrupção não atinge apenas os países emergentes e subdesenvolvidos. Na verdade, poucos países no mundo são exemplos de honestidade e transparência. Na última pesquisa (Transparência Internacional – Índice de Percepção de Corrupção – 2018), a lista dos doze primeiros lugares (dos menos corruptos) trazia: Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Singapura, Suécia, Suíça, Noruega, Holanda, Canadá, Luxemburgo, Alemanha e Reino Unido. Dos doze países menos corruptos do planeta há um país asiático e onze europeus (cultura cristã). Quatro são escandinavos e nove são de tradição protestante! Lamentavelmente, o Brasil amargava a decadente posição de número 105, para a tristeza nacional! São 180 países avaliados. Nenhum deles é referência no continente americano.

A corrupção é, de fato, uma praga mundial! Ela está em toda parte. Em se tratando da nossa história, principalmente nas últimas décadas, a realidade tem sido muito difícil. O Brasil e a vasta maioria da América Latina, ou a “América Católica” de Caetano Veloso, têm sofrido com uma corrupção grotesca. A percepção geral do que enfrentamos é a do salmista: “Os ímpios andam altivos por toda parte, quando a corrupção é exaltada entre os homens” (Salmos 12:8).

A situação tornou-se sobremodo alarmante no cenário brasileiro nos últimos anos. O cenário ético da política nacional recente é vergonhoso. Nosso país hoje é considerado mais corrupto do que a China e a Índia. Estamos com a mesma pontuação de Egito, Argélia e Zâmbia. É triste, mas o fato é que, em muitas áreas do país, a violência e o caos da segurança pública prevalecem. Parece que o Brasil e grande parte do mundo tendem a tornar-se reféns do tráfico de armas e drogas. Diante desse caos, o nosso sentimento é semelhante ao descrito em outro Salmo: “Quando os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo?” (Salmo 11:3).

A decadência de uma sociedade passa pelo desrespeito de valores fundamentais. Quando os representantes da democracia, da fé e da sociedade de qualquer nação não cumprem mais os seus papéis, o que restará? A vitória da corrupção só é possível quando política, mídia e religião tornam-se cúmplices do mal.

Talvez seja por isso que vemos que a corrupção tem aparecido ao lado de outros índices terríveis da realidade brasileira: liberdade de imprensa e democracia. Para variar, os países escandinavos, de tradição protestante luterana, lideram os dois índices. Já o Brasil, tem posição 103 no item liberdade de imprensa. Estamos atrás de Burkina Faso e Benin! No ranking de liberdade democrática, nosso lugar é 51. Parece ironia! É a falta de justiça em todos os seus desdobramentos.

Em meio a tal cenário, muito dinheiro público vai continuar financiando a alienação perversa do carnaval, que já não é mais uma festa folclórica e cultural em sua maioria. Caos, baderna, promiscuidade, bebedeira, mortes nas estradas. A triste fuga da realidade é de chorar. Que esperar de uma nação que passa uma semana bebendo e fazendo orgia? O mais terrível é que “o Show da Corrupsamba” é aplaudido por políticos, por grande parte da mídia descaracterizada e até por religiosos!

Como lidar com tal desvario? Como posicionar-se politicamente com bom senso? Em primeiro lugar, as falsas esperanças de qualquer “messianismo político” e da “esquerda marxista antiga” são modelos absurdos e ultrapassados, falidos na raiz. Os regimes de inspiração marxista nunca deram certo! Devem ser esquecidos. Infelizmente, em nossa história recente, em vez de olharmos para modelos bem-sucedidos de democracia e de sociedade de inspiração protestante, buscamos referências que nada podiam prometer.

Em segundo lugar, não podemos nos iludir com nenhum sistema político, ainda que existam sistemas melhores do que outros. Vale aqui mencionar o escritor cristão francês Jacques Ellul. Sua proposta curiosa é a “anarquia cristã”. A ideia de Ellul não é anárquica no sentido comum; ele sugere que não se pode confiar jamais em sistema político nenhum; ao contrário. Um cristão deve sempre protestar contra o mal, sendo “sal da terra”, pois ninguém pode se vender para nenhum sistema!

Em terceiro lugar, é preciso enfatizar que a questão ética começa de fato no âmbito da individualidade: “Quem é fiel no pouco, é fiel no muito” (Lucas 19:17). Chega de vitimização. Todos nós somos responsáveis. A sociedade se tornará menos corrupta quando seus participantes forem honestos. Um político desonesto é apenas um cidadão que “chegou lá”. Finalmente, a esperança permanente é que a justiça divina triunfará. Todos os corruptos serão pegos! Será o fim do Carnaval e da “Corrupsamba”!

Voltando aos Salmos, devemos ter esperança, pois “Um pouco de tempo, e os ímpios não mais existirão; por mais que você os procure, não serão encontrados” (Salmos 37:10).
E: “Pois o SENHOR aprova o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios leva à destruição!” (Salmos 1:6).

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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