Quando a mãe trouxe salvação

Deus usa caminhos inesperados para a lógica e a expectativa humanas

Luiz Sayão - 21/05/2019 09h00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem estiver fazendo suas leituras bíblicas periódicas e, por acaso, começar a ler o livro de Juízes, ficará atordoado. O fato é que quando se segue a proposta “analgésica” atual de ler a Bíblia apenas para se sentir bem, muitos desistem da leitura que, em grande parte, é um tanto quanto assustadora. O livro descreve a infidelidade dos israelitas para com Deus, marcada por um ciclo perene de pecado, servidão, clamor e libertação. A descrição da sociedade da época revela o caos generalizado. Em quatro versículos lemos o refrão: “Naquela época não havia rei em Israel” (17.6; 18.1; 19.1; 21.25), e dois textos acrescentam: “cada um fazia o que lhe parecia certo” (17.6; 21.25). A história do levita e da morte de sua concubina (19) e a subsequente guerra contra os benjamitas são capazes de deixar qualquer um perplexo. É bem possível que quem lê o livro de Juízes depois do jantar nem consiga dormir bem de noite!

Nas Bíblias que conhecemos (que seguem a ordem da Septuaginta), vemos que o livro de Juízes é seguido pelo livro de Rute. Todavia, na Bíblia Hebraica, seguindo a ordem judaica tradicional, descobrimos que é o livro de 1Samuel que aparece na sequência. Na verdade, é uma ordem mais natural. A história do povo de Israel prossegue numa sequência nítida de Juízes para 1 Samuel. Diante disso, não é difícil imaginar o que provavelmente se passava na mente de um antigo leitor da Bíblia Hebraica. Ao terminar de ler Juízes, certamente ele estaria se perguntando como Deus iria agir para tirar o povo de uma situação caótica e terrível como a que é descrita no final do livro. De onde viria a salvação? Quem traria ordem e esperança para um povo tão machucado? Se pudéssemos sugerir, o que diríamos? Um grande rei como Davi? Um general poderoso? Talvez fosse mais razoável pensar num sacerdote ou num profeta consagrado. Para a nossa surpresa, a esperança e a salvação não procederão de uma figura promissora do ponto de vista humano.

O texto do primeiro capítulo de 1 Samuel surpreende nossa expectativa. A figura promissora que surge é a de uma mulher estéril chorando e clamando a Deus por um filho. Se já não era suficiente ler sobre uma tragédia nacional, agora teremos que ler uma tragédia familiar! Afinal de contas, estamos lendo a Bíblia ou vendo um filme de terror? Surpreendentemente, a história bíblica mostra como Ana sofria por ser estéril, situação de grande vergonha em sua época. Para a consternação de muitos, o texto bíblico ainda deixa claro que “o SENHOR a tinha deixado estéril” (1.6). Todavia, esta mulher (e não um homem), leiga (e não um sacerdote ou profeta), comum (e não alguém que pertencia à nobreza), tem fé e persistência para continuar chorando a Deus por um filho. Em vez de queixar-se da vida, ou revoltar-se contra a ordem estabelecida, ela mantém persistentemente sua fé e ora a Deus desconsiderando sua própria imagem perante os outros. Seu desespero leva o sacerdote Eli a considerá-la uma dependente da bebida (1.14), e ela faz questão de explicar-se dizendo que não é uma “vadia” (1.16 – literalmente “uma filha de Belial”. Sua fé é vitoriosa, e o SENHOR se lembra dela, e ela tem um filho (1.19,20).

A lógica divina é surpreendente. Através de uma profunda luta pessoal, Deus dará início à reconstrução da nação. Ana é a mãe de Samuel. O último juiz de Israel teve o grande mérito de equilibrar a nação e prepará-la para a sua futura monarquia. Samuel torna-se um dos líderes mais importantes da história do Israel bíblico. O que nos impressiona no texto é que Deus usa caminhos inesperados para a lógica e a expectativa humanas (confira: https://www.youtube.com/watch?v=r8B2gp2q02Y&t=3s). Ele usa quem menos esperamos, nas situações mais adversas e desconfortantes. Parece que Deus tem prazer em reconstruir a história a partir dos frágeis cacos da fragilidade e sofrimento humano.

Isso tem grande significado para quem crê e caminha pela fé. O poder pertence a Deus. Ele faz o extraordinário, e a história da redenção divina é essencialmente milagrosa. O mais bonito de tudo é que ele escolhe agir por meio de gente comum, em meio às aflições que ele mesmo permite em nossa vida. Na história antiga do Israel Bíblico, a salvação do rumo da nação do Israel não vem de um profeta, de um general, de um grande rei, dos anjos, mas sim de uma simplesmente mãe, que na verdade chorava porque nem mãe conseguia ser.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

 


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