Quando o culto vira crime

Poderia a igreja se transformar no lugar mais perigoso do mundo? Parece que sim!

Luiz Sayão - 10/04/2019 10h43


Uma das maiores insistências dos cristãos mais religiosos e fervorosos é que os seus amigos frequentem uma igreja. A verdade é que muitos crentes sinceros e muito dedicados chegam até mesmo a ser impertinentes com seus colegas, convidando-os para visitarem uma igreja e se integrarem a ela. Não resta dúvida de que frequentar uma igreja bíblica e cultuar a Deus é uma prática muito boa, conforme o ensino do Novo Testamento (Hebreus 10:25). Afinal de contas, não custa muito gastarmos um tempo para agradecer ao Senhor por tantas bênçãos recebidas na vida, juntamente com a comunidade do povo de Deus.

Todavia, a mera frequência a reuniões religiosas e a prática externa da fé não comprovam uma espiritualidade sadia, como já bem advertia o profeta Isaías há quase 2.800 anos (Isaías 1:12). Parece estranho e inimaginável, mas a grande verdade é que a prática do cultuo a Deus pode até se tornar algo muito mais perigoso do que se pensa. Por esta razão, o texto de Gênesis 4 vai nos trazer uma história surpreendente que ilustra, com clareza, essa realidade.

Depois do pecado de Adão e Eva e de sua expulsão do jardim do Éden (Gênesis 3), somos informados do nascimento de seus dois primeiros filhos: Caim e Abel. O filho mais velho, Caim, tornou-se agricultor; Abel era pastor de ovelhas. A Bíblia nos conta que, certa vez, eles foram prestar um culto a Deus. O texto prossegue e nos informa que Caim ofereceu um culto inadequado, de maneira que Deus rejeitou sua oferta. Diante disso, ele foi tomado de muito ressentimento e de terrível inveja de Abel; assim, de modo premeditado, acabou matando seu irmão. Um homicídio! Quem poderia imagina!? Não parece loucura que o primeiro assassinato da história bíblica tenha começado num culto?! A conexão entre religião e violência aparece logo no início das Escrituras. Com certeza, isso não é em vão. Poderia a igreja se transformar no lugar mais perigoso do mundo? Parece que sim!

Uma olhada atenciosa em Gênesis 4 nos revelará que Caim ofereceu “qualquer coisa” para Deus, enquanto Abel escolheu o melhor. Caim trouxe do fruto da terra, uma oferta ao Senhor (Gênesis 4:3).

A atitude de Caim deu início a uma queda livre na direção do pecado e da morte. Tudo começou com a sua atitude perante Deus. Enquanto Abel escolhe a melhor oferta possível de seu rebanho, Caim entende que Deus pode receber “um fruto da terra”, “uma coisa qualquer”. Assim, desprezando a Deus, Caim o considerou alguém nada especial e trouxe-lhe uma oferta comum. Seu culto mal oferecido é rejeitado. Em vez de arrepender-se e de realinhar sua conduta, Caim se entrega ao ressentimento e à revolta interior. A ruptura com Deus o leva à ruptura com o próximo. Como se pode ver no texto, mais tarde, dominado pela inveja, Caim atacou seu irmão e o matou. E, apesar da insistente graça divina que buscou Caim tantas vezes, sua atitude foi sempre de justiça própria e de rebelião. Deus fala com Caim quatro vezes, sempre oferecendo uma oportunidade de repensar sua vida e postura. Caim torna-se o retrato de como pode ser terrível o caminho de uma falsa expressão de fé.

Quando olhamos com atenção para a história de Caim, vamos descobrir que os problemas mais terríveis da vida começam muito pequenos. Fascinados por aquilo que tem proeminência e visibilidade, perdemos o foco no que é essencial e vital. A ruptura com Deus traz a ruptura psicológica (revolta e ressentimento); isso pode nos levar à ruptura fraternal (inveja, ódio, homicídio) e a criação de uma tradição de tragédias (a genealogia de Caim e suas cidades), que sofrerá o juízo divino. Por isso, devemos ter o maior cuidado possível.

É terrível, mas é verdade: o primeiro homicídio da história teve início num culto feito de qualquer jeito! Que Deus nos livre de tão terrível defeito! Afinal, quem crê em Deus e sua Palavra, deve prestar-lhe adoração perfeita.

Parece coisa de filme: Se Deus não for adorado direito, o culto vira crime!

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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