Opinião Sergio du Bocage: Pano pra manga – Atletas trans

O que importa é que a atleta trans não precisa fazer a cirurgia de mudança de sexo para disputar competições femininas

Sergio du Bocage - 28/02/2018 09h15

Existem muitos assuntos que causam polêmica no esporte. Mas um tem chamado a atenção, pois tantas são as vertentes, opiniões favoráveis e contrárias, argumentos e, por que não, interesses? Afinal, a atleta trans deve/pode ou não participar de competições esportivas entre as mulheres? Segundo o Comitê Olímpico Internacional, sim.

Mas no dia 10 de março, em Manaus, um evento de MMA promete colocar muita lenha nessa fogueira. Anne Veriato vai enfrentar um homem cis, no Mr. Cage. E com naturalidade e confiança, pois segundo ela própria afirma, “só é justo lutar contra homens. Seria covardia lutar contra mulheres. Isso é uma coisa que nunca passou pela minha cabeça”.

Anne Veriato, atleta trans, lutadora de MMA Foto: Divulgação

Diante de tal posicionamento, reconhecendo sua força pelo fato de ter nascido homem e de só aos 14 anos ter iniciado o tratamento hormonal – está com 21 anos no momento -, Anne indiretamente apoia as atletas mulheres que se sentem em desvantagem diante da força de uma trans. Caso específico de Tifanny, jogadora de vôlei que tem feito sucesso na Superliga, defendendo o Bauru. Os números dela em quadra impressionam – ela tem média superior à da oposta Tandara, destaque da Seleção Brasileira, por exemplo.

Difícil ter opinião formada em definitivo. Particularmente concordo com a tese de que a trans leva vantagem sobre a mulher cis, pois a musculatura foi formada como sendo de homem. Se virmos os resultados em olimpíadas de homens e mulheres em provas de atletismo e natação, vemos as diferenças de desempenho. No vôlei, a altura da rede em jogos femininos é 19 centímetros mais baixa que a dos jogos masculinos. No basquete, a bola é menor e mais leve para as mulheres que para os homens. No tênis, os jogos têm menos sets.

Até o momento, o COI não pretende mudar de posição. Já se falou em uma olimpíada só para as atletas trans. Em limite de trans para cada equipe. Levantou-se a questão de países formarem equipes femininas só com atletas trans, que certamente seriam mais fortes.

E muito mais pode ser dito e será. O que importa saber é que a atleta trans não precisa fazer a cirurgia de mudança de sexo para disputar competições femininas. O que vale é que o nível de testosterona dela esteja abaixo de 10 nanomols por litro de sangue. Se isso acontecer, ela vai estar dentro das regras.

Sergio du Bocage é carioca e jornalista esportivo desde 1982. Trabalhou no Jornal dos Sports, na TV Manchete e na Rádio Globo. É gerente de programas esportivos da TV Brasil e apresenta o programa “No Mundo da Bola”.