As finanças e o futebol

A Copa União nasceu antes da Premier League, mas a paixão derrotou a razão. Chega de perder tempo. O futebol virou um negócio muito sério

Sergio du Bocage - 08/05/2019 17h53


O futebol europeu, por melhor que sejam os jogos, tem uma característica que, para nós, brasileiros, não seria nem um pouco atraente. Nos campeonatos nacionais de lá, apenas dois a três clubes, no máximo, disputam o título. O que foge um pouco a essa regra é a Premier League, na Inglaterra. Mas há casos, como na França, de apenas um clube ser absoluto, sem concorrentes.

Por aqui, dizemos sempre que existem 12 grandes clubes brigando pelo Brasileirão. Dizemos, mas sabemos que não é verdade. Vejam só: de 81 a 90, tivemos nove times diferentes sendo campeões brasileiros; de 91 a 2000, foram oito; de 2001 a 2010, sete; de 2011 até 2018, quatro, ou seja, no máximo serão seis até 2020. Está ou não havendo um achatamento?

Conversei essa semana com Pedro Daniel, gerente sênior da área de Esportes da EY. Ele estuda as finanças dos clubes brasileiros, as tendências de mercado e o faturamento dos clubes em geral. E ele não tem dúvidas em afirmar que, atualmente, temos de cinco a seis clubes em condições de brigar pelas melhores posições no Brasileirão. Não que sejam maiores que os outros, mas são os mais bem estruturados e com finanças em dia. Com isso, podem negociar melhor, chamam a atração de patrocinadores e até de jogadores que sentem mais confiança em atuar num clube mais bem organizado.

A EY divulgou essa semana um estudo com o endividamento dos clubes. O Botafogo, por exemplo, tem dívidas de mais de R$ 720 milhões. Segundo Pedro Daniel, não é o valor da dívida que assusta, mas sim a capacidade de cada clube se recuperar. Palmeiras e Flamengo, por exemplo, têm dividas de pouco mais R$ 460 milhões, mas faturam mais do que isso por ano.

É possível pagar essas dívidas? Sim, desde que os clubes se entendam. O caminho não é curto, mas para começar, é necessário não ser dependente das cotas de TV e saber dividir suas fontes de recursos com patrocinadores e produtos desenvolvidos para o torcedor; entender que os patrocinadores agora não pagam os altos valores de antes, negociando cotas variáveis como já acontece nos Estados Unidos e na Europa; saber que o clube não é mais apenas social, mas uma empresa de conteúdo, em que o futebol é apenas uma plataforma de fundo e tudo o que gira em torno dele precisa gerar receita.

O bom da conversa foi saber dele que a mentalidade dos dirigentes esportivos, atualmente, é bem melhor e voltada para o lado empresarial. Afinal, cada clube fatura mais de R$ 500 milhões por ano. A paixão deve ser deixada de lado e se tornar exclusivamente um sentimento do torcedor. Já perdemos muito tempo. A Copa União nasceu antes da Premier League, lá no distante 1987. Se tivesse se mantido atuante, certamente nosso futebol estaria num outro patamar.

Sergio du Bocage é carioca e jornalista esportivo desde 1982. Trabalhou no Jornal dos Sports, na TV Manchete e na Rádio Globo. É gerente de programas esportivos da TV Brasil e apresenta o programa “No Mundo da Bola”.

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