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O feminismo odeia a maternidade

As pessoas dizem participar do movimento sem ter lido qualquer clássico sobre o tema

Pedro Augusto - 22/11/2022 13h57

O feminismo odeia a maternidade Foto: Pixabay

O feminismo está na moda. Quem ousar fazer qualquer crítica pública ao movimento deverá se preparar antes para ouvir uma enxurrada de críticas. Se o autor for um homem, segundo os críticos, ele quer manter seus privilégios. E se for uma mulher é alguém que não sabe o quanto deve ao movimento.

Nas universidades, na mídia, na literatura ou nas conversas corriqueiras o feminismo está na boca de homens e mulheres, apesar de a maioria sequer ter lido quaisquer livros das autoras clássicas, como Simone de Beauvoir, Kate Millett, Betty Friedan etc.

Mas por que as pessoas que se autodenominam participantes do movimento, só atuam virtualmente, e proclamam algo que mal conhecem?

Tudo é por causa de diversas reivindicações justas, como o fim da violência sexual e objetificação feminina ou também pelo legado das duas primeiras ondas.

A primeira delas basicamente lutou por questões políticas, como o direito ao voto de representação e mais alguns fatores dessa mesma linha. Tudo está totalmente ligado ao movimento sufragista que se iniciou no século 19 e alcançou os primeiros anos do século 20.

Simone de Beauvoir influencia feministas até hoje Foto: EFE/SERGE LIDO

Logo em seguida, veio a tão comemorada segunda onda, talvez a mais famosa de todas, com sua luta pela igualdade sexual. E qual o caminho que as pensadoras clássicas defendiam até esse objetivo? Elas afastavam a mulher do lar e da maternidade.

Simone de Beauvoir, em seu livro O Segundo Sexo usa como base de sua tese o livro A Origem da Propriedade Privada da Família e do Estado, de Friedrich Engels, no qual o autor alega que nos primórdios da sociedade não existia o modelo de família tal qual se conhece há algumas gerações. Homens e mulheres se relacionavam sexualmente de forma livre e as crianças eram todas cuidadas pelo grupo.

Anos se passaram e os homens enriqueceram. Para deixar suas posses a filhos legítimos, começaram a cultivar uma sociedade pautada no matrimônio. Uma mulher teria apenas o seu marido e seria a responsável pela criação do filho. Dessa maneira, os homens saberiam que tudo o que foi conquistado ao longo da vida foi deixado para sua prole legítima. Engels defendia que os homens tornaram as mulheres suas propriedades e originaram todas as desigualdades.

Para então libertar as mulheres, aquilo que foi construído socialmente como a maternidade, que só pode se realizar no ser mulher, precisava ser abolido.

Beauvoir chegou a dizer em O Segundo Sexo que: “Em minha opinião, enquanto a família e o mito da família e o mito da maternidade e o instinto maternal não forem destruídos, as mulheres continuarão a ser oprimidas”.

Nesse livro, a autora usa termos muito negativos para se referir ao ser mãe. Ela chega a chamar as mulheres de “escrava da espécie” por causa da capacidade natural de gerar filhos.

Ser mãe, para a autora, era uma forma de ser oprimida. E para libertar o feminino dessa condição a maternidade deveria chegar ao seu fim.

Tão famosa quanto Beauvoir, e talvez o nome mais importante da segunda onda do feminismo nos Estados Unidos, foi Betty Friedan. Ela escreveu A Mística Feminina.

Em sua obra, Friedan disse o seguinte sobre o trabalho doméstico, muito ligado à maternidade e à criação dos filhos:

“Donas de casa são sem sentido… não são pessoas. O trabalho doméstico é particularmente adequado para as capacidades de meninas débeis mentais. Ele aprisiona o desenvolvimento a um nível infantil, falta de identidade pessoal com um núcleo inevitavelmente fraco de si mesmo. Donas de casa estão em um perigo tão grande como os milhões que andaram à sua própria morte nos campos de concentração. As condições que destruíram a identidade humana de tantos prisioneiros não eram a tortura e a brutalidade, mas as condições semelhantes às que destroem a identidade da dona de casa americana”.

Nesse livro, Friedan defende a saída da mulher do lar, principalmente se ela for dona de casa. Ela sustenta que as mulheres em casa são infelizes e se refere a quem está nessa condição de forma negativa. Na tese abraçada pela autora, as mulheres precisam se independer de sua vida familiar e se libertarem. Liberdade e felicidade, para ela, significam não estar totalmente ligada à família.

Outra autora que seguiu na linha de Beauvoir foi Kate Millet em seu Política Sexual. Ela também defendeu a linha de Engels sobre a origem do patriarcado e revelou um meio para as mulheres alcançarem a liberdade.

“Parece improvável que tudo isto possa acontecer sem um efeito drástico sobre a família patriarcal. O desaparecimento do papel ligado ao sexo e a total independência econômica da mulher destruiriam ao mesmo tempo a autoridade e estrutura econômica. Consequentemente, para os menores, seria o fim da situação atual, que os reduz à condição de incapazes e os priva de todos os direitos. Se as crianças fossem entregues a profissionais (com todas as vantagens que isso lhes traria), as mães estariam mais livres, e isso acabaria por destruir a estrutura familiar. O casamento até ser substituído por uma união voluntária, se tal fosse desejado. Se uma revolução sexual fosse efetivada, o problema do aumento demográfico deixaria de constituir um dilema, tal como hoje se apresenta, porque estaria vitalmente ligado à emancipação da mulher”.

Millet, em seu livro, mostra que as mulheres foram colocadas sob o jugo da opressão por causa da maternidade. Para alcançarem a liberdade, elas não deveriam estar em casa e criar seus filhos, mas sim entregá-los a criadores e se dedicarem à profissão.

Não ser mãe ou não criar os filhos diferentemente, para ela, é um sinônimo de liberdade, principalmente para não necessitar de qualquer dependência temporária de um homem, no caso do pai.

As tradicionais estruturas familiares então precisam ser abolidas. Afinal, tudo não passa de uma forma do homem se impor perante a mulher.

Complementando Millet e indo mais além está a Dialética do Sexo de Shulamith Firestone, no qual é proposto de forma bem mais clara que os livros anteriores a adoção do socialismo como maneira de libertar as mulheres.

Firestone chega a enumerar pontos principais para se chegar a esse ideal, como:

“1) A libertação das mulheres da tirania de sua biologia, através de todos os meios disponíveis, e a distribuição do papel da nutrição e da educação das crianças entre a sociedade como um todo (…)
2) A independência econômica e autodeterminação de todos (…). Viveríamos eliminar a dependência das mulheres e das crianças do trabalho do homem, assim como todos os outros tipos de explicação do trabalho (…)
3) A total integração das mulheres e das crianças na sociedade em geral. Isso foi corrompido. O conceito de infância foi abolido, tendo as crianças plenos direitos legais, sexuais e econômicos, e não sendo suas atividades educacionais e de trabalho diferente dos adultos (…)
4) (…) Mas, se ao contrário, ela [a criança] escolhesse se relacionar sexualmente com os adultos, mesmo que isso se desse com sua própria mãe genética, não haveria razões a priori para ela rejeitar os avanços sexuais, uma vez que o tabu do incesto teria perdido valor (…)”.

A autora defende que as mulheres sejam libertas do que chamou de “tirania de sua biologia”, ou seja, da maternidade, para ser livre, não criar filhos e ser economicamente independente.

Além disso, Firestone propõe um conceito em que a sociedade eduque as crianças. Por isso, muitos, atualmente, defendem que os filhos não pertençam aos pais, mas a sociedade e ao Estado; e não aos pais, porque eles perpetuariam estruturas de poder e modelos tradicionais. Tudo isso para que se alcance a liberdade das mulheres.

Por fim, Firestone defende que essa estrutura familiar desapareça e o tabu do incesto acabe. Ou seja, que os pais possam se relacionar sexualmente com seus filhos.

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Pedro Augusto é formado em Jornalismo, já escreveu para outros sites conservadores, possui redes sociais sobre história, é viciado em livros e em breve estará cursando Teologia.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.

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