Coluna Josué Valandro Jr.: A capacitação do cristão – parte 2

Cabe ao cristão desejar conhecer sua missão, e cabe ao pastor preparar o pasto para que essa descoberta seja fácil

Josué Valandro Jr. - 19/01/2018 08h00

Queridos leitores do Pleno.News, semana passada começamos a falar sobre capacitação. E, hoje, quero retomar este assunto.

Vimos Moisés em dois momentos. No primeiro, ele se sente capacitado para atuar, quando na verdade não está pronto. E, no segundo, ao se sentir totalmente despreparado é aí que pôde ser usado por Deus. Então perguntei: Você está capacitado para o que precisa realizar? Está capacitado para uma obra relevante para o seu Deus?

1)Para que sejamos cristãos capacitados precisamos entender nossa vocação
Moisés não tinha uma vocação sacerdotal. Era leigo, líder político, mas foi chamado por Deus para libertar o povo. A missão e a determinação de quem executará essa missão são atos da soberania de Deus. Ele usa quem quer, onde quer e da forma que quer. O que não podemos perder de vista é que todo salvo tem uma missão divina. Em Êxodo 3:4 vemos Deus chamando a Moisés pelo nome: “Moisés, Moisés”, o que nos mostra que a chamada é pessoal. Precisamos entender que o que Deus separou para nós (Seu projeto), ninguém poderá fazer. Moisés argumentou e Deus sempre deu uma resposta, e permitiu até a presença de um porta-voz: Arão; mas o líder era Moisés.

Com certeza nossas igrejas ainda vivem o resquício romano da divisão entre clero e laicato. Não se vê os crentes preocupados em identificarem suas vocações e as exercerem. Esquecemos de I Pedro 2:9 que diz que todos os crentes são sacerdócio real. Nossos princípios dizem isso, mas o problema é viver. Todos têm “um Egito” a desafiar e “um povo” a libertar. Temos “egitos” diferentes, mas todos são chamados.

Quando falamos de chamada, pensamos em Moisés, Paulo, João: os “figurões” da fé. E muita gente fica inibida de crer numa chamada de Deus sendo apenas “figurinha”.

O Dr. Robert Linthicum, autor do livro Cidade de Deus, Cidade de Satanás, contou que um jovem de Chicago com deficiência mental fazia entregas de produtos nas casas e percorria a cidade com uma alegria que contagiava a todos. Mas foi vítima de um acidente e morreu. Uma multidão foi ao seu velório e muitas pessoas aceitaram a Cristo ali, ao serem apresentadas ao motivo da alegria de Jack: seu amor por Jesus. O testemunho de uma pessoa teoricamente incapaz revolucionou inúmeras vidas da cidade. Será que você é menos capaz que ele? I Coríntios 1:26-31 diz que Deus usa coisas fracas e desprezíveis para que Ele receba maior glória.

Não podemos esquecer que os pastores têm papel fundamental nesse auxílio aos cristãos para que descubram e se engajem em suas missões. Efésios 4:12 mostra que a tarefa principal dos ministros é capacitar os santos. Em Êxodo 33:11-22 notamos o exemplo dado por Deus. Instrução e treinamento vieram antes do serviço. Moisés entendeu porque estava sendo chamado, o que faria, o resultado do trabalho e que armas teria. Para que povo aceitasse o projeto libertador, primeiramente Moisés deveria ser capacitado. É evidente que a tarefa pastoral envolve muitas atividades, mas não se pode comprometer o que é essencial: capacitar!

Para isto o pastor não pode esquecer em seu ministério de dois caminhos:

a) Discipulado – Só por ele acontece o que Eugene Peterson, no livro Um Pastor Segundo o Coração de Deus, chama de trigonometria ministerial. O livro apresenta o ministério como um triângulo e lembra que não são as linhas de trabalho que definem o ministério, mas os três ângulos: orar, ler a Bíblia e praticar a orientação espiritual. Sem discipular, nenhum crente terá a prática da orientação espiritual. Sem isso não executará bem seu ministério.

b) Relacionamentos – Sempre há um “Arão” em nossa vida. Ninguém é chamado para um ministério sozinho. Deus deu Arão, Caleb, Josué, Mirian, Jetro, anciãos (3:18) para sustentarem Moisés. Cristianismo não é religião; é relacionamento. Precisamos incrementar relacionamentos entre os irmãos para que a igreja seja mais que um ajuntamento de gente, mais do que um corpo bem ajustado. Sem relacionamento, o crente tende a não crescer. Fica vulnerável a relacionamentos com as coisas mundanas. Não procura ajuda e não oferece ajuda. Pode até ficar na igreja, mas sem o sabor de um relacionamento familiar de profunda sensibilidade espiritual que o leve a crescer a cada dia.

Enfim, cabe aos cristãos desejarem conhecer suas missões, e cabe aos pastores preparar o pasto para que esta descoberta seja a mais facilitada possível!

2) Para que sejamos cristãos capacitados precisamos deixar as declarações de desculpas pelas declarações de confissão
Primeiro, Moisés disse “eu não consigo ver injustiça. Eu dou o troco. Não dá pra controlar”. Em nenhum momento do texto sagrado vemos arrependimento pela morte do egípcio. Parece que Moisés prefere dar desculpas. No segundo momento, Moisés prefere se humilhar e dizer um “eu não consigo” de clamor. Faz uma confissão de limitações, fraquezas e temores internos de sua alma. “Eu não consigo” deixa de ser desculpa para errar e passa a ser confissão para que Deus o trate. Ele não aguentava a injustiça e matou egípcio, mas não tinha controle sobre si mesmo. Precisava confessar sua limitação, seu pecado.
Tem gente que não cansa de falar que não pode servir melhor a Deus porque tem o problema X ou Y. Esta é declaração de quem depende de si mesmo e dá desculpas esfarrapadas para Deus. Esquecemos que é justamente quando nos sentimos incapazes que o Senhor nos capacita.

Moisés alegou que não sabia falar e Deus lhe deu Arão (4:14). Deus sempre nos dá a ajuda necessária para que cumpramos nossa missão. Não devemos nos desesperar.

Lembre-se que quando Deus chama para um trabalho, ele parecerá aquém de sua potencialidade, aliás aí está uma evidência da chamada. Foi assim com Moisés. Quando o trabalho é maior que nós, aprendemos a depender de Deus e dar a devida glória a Ele.

O profeta Isaías confessou seu pecado. Deus o purificou e daí surgiu um dos maiores profetas da história. Se nós confessarmos os nossos pecados, não faltará capacitação. Pare com as declarações de desculpas e faça declarações de confissão a Deus!

3) Para que sejamos cristãos capacitados precisamos entender que os desertos da vida são preparações para nosso chamado
Moisés só se tornou uma pessoa sensata, humilde, reflexiva antes do agir depois de 40 anos no deserto. Ele não sabia porque estava em situação tão desfavorável, mas foi onde aprendeu como viver sem água e sombra, com sofrimentos e solidão.

O deserto é a linha de produção de homens usados por Deus. O deserto não é motivo para o crente achar que não pode atender o chamado. Ao contrário, em meio ao deserto de sua vida, o crente deve avaliar que lições o Senhor da seara quer lhe ensinar para que cumpra sua missão com excelência e autoridade divina.

Quanto aos obreiros que têm enfrentado lutas nas igrejas, nas finanças, nas emoções e até no corpo, devem se lembrar que: Jesus enfrentou problemas com um traidor na sua igreja, que faltou dinheiro para alimentar pessoas em momentos de seu ministério, que se angustiou no getsêmani e que teve seu corpo ferido e morto. Mas em todas essas coisas vemos a preparação de Deus para a derrota de Satanás e vitória da igreja de Jesus! Glórias a Deus pelos desertos de nosso Salvador!

Será que também não precisamos encarar os nossos desertos com a mesma submissão de Jesus?

Fica aqui a minha reflexão. Semana que vem terminaremos esse assunto. Que Deus lhe abençoe!

 

Josué Valandro É o pastor presidente da Igreja Batista Atitude da Barra da Tijuca, no Rio. Se graduou em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e informática pela PUC-RJ. Pós-Graduado em gestão estratégica de recursos humanos pela UNILESTE-MG, e mestrando em teologia pelo Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte (USA). Casado com Bianca, Valandro é pai do Lucas e do Gabriel.

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