Seu casamento é uma sociedade – parte 1

O casamento é uma sociedade que envolve um homem e uma mulher empenhados em um negócio que é o matrimônio, visando crescimento ou sucesso, desejando lucro

Josué Gonçalves - 04/08/2018 08h00

Prezados leitores do Pleno.News, já abordei o tema de o casamento ser uma sociedade, mas nas próximas semanas quero aprofundar o assunto estudando com vocês os diversos aspectos que envolvem uma sociedade. Por exemplo, o que é necessário para que uma sociedade dê certo?

Recentemente, estive em Brasília e, na ocasião, procurei conversar com um empresário bem-sucedido. Ele tem dois sócios e os três estão empenhados na direção de uma grande organização, que tem crescido muito.

Na primeira oportunidade, perguntei a esse profissional: “Qual é o segredo do sucesso da sociedade de vocês?”. Note que a pergunta não foi sobre o sucesso da empresa, mas sobre o sucesso da sociedade. Ele, então, me falou de uma série de fatores que somados levam ao sucesso de uma sociedade com três integrantes, três sócios. E esses termos têm tudo a ver com o casamento que, sob certa perspectiva, é uma sociedade.

O casamento é uma sociedade que envolve um homem e uma mulher como sócios, empenhados em um negócio que é o matrimônio, visando ao crescimento ou ao sucesso, desejando lucros – que são os filhos, as noras, os genros, os netinhos – e que de algum modo deixará uma impressão na sociedade, que em linguagem corporativa chama-se percepção de mercado ou percepção da marca.

Há casamentos que deixam uma boa impressão na sociedade (ou no mercado); outros deixam uma mancha fétida na comunidade em que vivem.

O esforço e a percepção do papel a ser desempenhado por cada parte, do marido e da esposa, devem ser no sentido de tornar o casamento um grande negócio, porque “casamento é um grande negócio”. E, como negócio, o casamento pode dar lucro ou prejuízo,– dependendo dos envolvidos, da maneira como se dá a gestão do negócio, do gerenciamento e sua administração.

Mas o que é necessário para que esse grande negócio dê resultados emocionais, espirituais e materiais e seja um sucesso? Para responder a essa importante pergunta, eu vou aplicar as dicas desse empresário com quem conversei.

COMPROMETIMENTO
Em primeiro lugar, ele destacou o comprometimento.

E o comprometimento tem a ver com o quê? Como você pode perceber melhor o que significa estar comprometido ou ter comprometimento com o seu casamento? Que elementos estão envolvidos no comprometimento conjugal?

  1. O comprometimento envolve sacrifício.
  2. O comprometimento envolve dedicação.
  3. O comprometimento envolve entrega.

Sem esses três elementos, que compõem o comprometimento, o grande negócio que é a sociedade conjugal pode se tornar um péssimo negócio e até mesmo vir a causar um tremendo prejuízo. E não seja estritamente materialista quando pensar nos prejuízos, porque há outros danos ainda piores que o prejuízo financeiro. Um casamento arruinado causa prejuízos emocionais, danos morais, estragos familiares, sociais e, dependendo da situação, até mesmo espirituais. Por isso, cuidar bem do seu casamento e empenhar-se para que ele seja bem-sucedido é um excelente negócio em todos os sentidos! Você concorda?

Não há um só empreendimento humano de sucesso que não exija sacrifício. Quem se dispõe a casar pensando ser possível manter a união sem sacrifício não pode casar-se. Eu aconselho a esquecer-se desse projeto por enquanto, porque não é possível casar-se sem sacrifício.

Se desejarmos ser bem-sucedidos nessa sociedade chamada casamento, teremos de encarar o sacrifício como um exercício diário, pessoal e intransferível. É diário, porque cada dia tem as suas próprias dificuldades – Jesus mesmo disse que cada dia traz o seu próprio mal. É pessoal, porque ambos precisam sacrificar-se em favor do conjunto, em favor da sociedade. E é intransferível, porque o meu sacrifício não pode ser feito pelo meu cônjuge, como o sacrifício do meu cônjuge não pode ser realizado por mim – cada um tem a sua participação efetiva e essencial em benefício do conjunto.

Finalmente, o comprometimento envolve entrega. Eu diria que a entrega não é um estado impossível de ser alcançado, mas que ninguém se engane: ela só vem com o exercício diário de sacrifício e dedicação. A entrega de si em função da pessoa amada é o ponto principal que devemos buscar. Paulo escreveu que o amor de Jesus pela Igreja foi tão intenso que Ele se entregou por ela. Jesus não avaliou os seus interesses, o seu status, nada de si. Ele concentrou-se na sua amada e por ela entregou-se: “… assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Efésios 5:25).

O comprometimento também envolve dedicação, e isso diz respeito ao grau de renúncia de mim mesmo. Posso dar um exemplo contrário para que você entenda o que quero dizer com isso. Você sabe como são as pessoas egoístas?

Pessoas egoístas são aquelas que pensam exclusivamente em si e jamais se preocupam com os outros, com o bem-estar dos outros. Pessoas egoístas dedicam-se àquilo que trará benefícios pessoais, nunca aos outros.

Assim, cada sócio no casamento, se pretender sucesso, não poderá pensar exclusivamente em si. Precisará se dedicar ao que trará bem-estar ao casal, ao cônjuge, ao novo corpo formado pela união em uma só carne.

O nível de comprometimento que você assume faz com que coloque os interesses do casamento acima dos seus interesses individuais. É de Laurence Peter o pensamento: “A arte do compromisso é dividir o bolo de modo que cada um pense ter ficado com a maior parte”. Se algo é bom para um, mas não é bom para o casal, então não é bom para ninguém.

O casamento é a prioridade, não o indivíduo; o casal deve ser protegido, não o macho nem a fêmea; o casal deve ser o foco, não os projetos e anseios pessoais de cada sócio. Isso se chama comprometimento. Quem pensa dessa forma está comprometido com o sucesso do seu casamento. Cada um abrirá mão do que é bom somente para si, desde que não seja bom para o casamento. O casamento está acima dos interesses individuais.

PACTO DE LEALDADE
Outro elemento que precisamos considerar para que a sociedade dê certo é o pacto de lealdade.

Em Malaquias 2:16 lemos: “Porque o Senhor Deus de Israel diz que odeia o repúdio, e também aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o Senhor dos Exércitos, portanto cuidais de vós mesmos e não sejais desleais”. (Grifo meu).

A lealdade é o cumprimento daquilo que exigem as leis da fidelidade e da honra. Um homem e uma mulher de bem devem ser leais um ao outro. A lealdade é uma virtude que se desenvolve conscientemente e implica cumprir com um compromisso ainda que seja perante circunstâncias constantemente em mudança ou adversas. Trata-se de uma obrigação que se tem para com o outro dentro do pacto conjugal.

O contrário da lealdade é a traição, que supõe a violação de um compromisso expresso ou tácito. Por exemplo: um homem deve ser fiel à sua esposa. Não lhe mentir faz parte da lealdade. Se, em contrapartida, enganar a sua mulher, estará cometendo adultério.

Para uma sociedade ser bem-sucedida, é preciso que seus sócios levem muito a sério o pacto de lealdade. Grandes decisões dentro de uma sociedade pactuada, que celebra uma aliança, são tomadas em conjunto. Isso caracteriza a lealdade, pois as decisões em conjunto:

  • promovem a aproximação;
  • o diálogo; e
  • a manutenção dos interesses mútuos (não individuais).

Atitudes dessa natureza alimentam a lealdade na sociedade conjugal. Quem está casado não pode viver como se solteiro fosse. Por isso, é preciso o pacto de lealdade. Assim que nos casamos é necessário construir uma ponte que nos leve do eu para o nós. Desse momento em diante as grandes decisões serão tomadas em conjunto. A lealdade será verificada em detalhes como esses, que muitas vezes podem passar despercebidos caso nada dê errado, mas ao menor sinal de um problema, vai deixar marcas bastante indesejáveis. Portanto, atenção aos detalhes.

Quando eu trato desse assunto sobre o pacto de lealdade, é impossível não lembrar uma história que ouvi de um amigo. Esse relato é o retrato em cores do que não é para ser feito numa sociedade, principalmente num casamento!

Eu havia ido pregar na igreja de um amigo e no retorno a São Paulo ele veio comigo. Sentado ao meu lado no avião, em dado momento ele confidenciou: “Eu tenho uma chateação com a minha esposa”. Eu, então, perguntei o porquê. Ele disse: “Rapaz, a minha esposa não reconhece o meu esforço, não reconhece a minha liderança. Pois veja você que eu fiz uma casa muito legal para nós e ela nunca reconheceu isso”.

Então, conversando com ele, e posteriormente com a esposa, eu cheguei ao ponto “x” da questão. E sabe qual a conclusão a que eu cheguei? Ele mesmo me disse a causa daquela situação delicada. E o que falou foi que toma todas as decisões e escolhe tudo sozinho, porque considera que a esposa tem mau gosto. Ele, então, comprou o terreno no condomínio de sua escolha, projetou a casa, contratou a construtora, construiu, pintou, mobiliou, decorou a casa, fez a jardinagem, e quando ela estava pronta, do seu jeito, do seu gosto, ele chamou a esposa para apresentar a ela a grande obra…

A esposa entrou na residência, deu uma olhada geral no ambiente, não fez cara de bons amigos, evidentemente… e ele ficou bravo!

Por que ela não vibrou com o projeto? Por que ela não celebrou a grande obra? Por que ela não reconheceu todo o esforço do marido? Porque foi uma grande decisão tomada individualmente, não pelos dois. E em uma sociedade de sucesso as grandes decisões devem ser tomadas em conjunto, respeitando o pacto de lealdade que existe entre os sócios.

Aquela esposa reclamou com o marido o seguinte: “Sabe por que eu não estou vibrando com a casa? Porque você não perguntou a mim se eu gosto dessa cor, desse tipo de piso, se eu queria uma casa de dois andares ou térrea. Você não perguntou a mim se eu queria o jardim desse modo. Essa casa não é um sonho nosso, é um projeto seu. Como você quer que eu vibre com uma construção que não tem a minha participação nem a minha marca?”.

Um projeto realizado numa sociedade necessita, indiscutivelmente, da participação dos sócios, dos envolvidos. Não há como esperar sucesso, vibração, sacrifício de todos se cada parte não estiver envolvida com algum aspecto que lhe diga respeito. Veja que diferença existe nessa outra história, de certo modo semelhante à do meu amigo.

Eu construí a casa de nossa família. Algumas pessoas a viram, participaram conosco, foram lá visitar-nos. Fizemos uma reforma que foi quase uma construção. Se você for à nossa casa, vai perceber algumas coisas bem interessantes. Por exemplo, a cor do quarto do casal foi a minha esposa quem escolheu. A cor da sala também foi escolha dela ― coisa de mulher. Elas gostam de decidir determinados acabamentos na casa onde moram. A cor da cozinha, quem escolheu? A minha esposa também. Já a cor do quarto do meu filho Douglas, ele mesmo escolheu. A cor do quarto da minha filha Letícia, ela própria escolheu. No quarto do Pedro, a cor foi Pedro quem escolheu.

Alguém poderá perguntar: “E o senhor, escolheu a cor de algum ambiente?”. A cor do meu escritório. Sobrou isso para mim. E é interessante que houve áreas distintas onde tivemos uma ativa participação conjunta. Eu escolhi o revestimento do banheiro, mas ela escolheu o piso da sala. Isso é sociedade. Se você me perguntar: “É o que você gostaria?”. Eu quero ver a minha esposa feliz. Se ela gosta, eu aprendo a gostar com ela, o que também acontece em relação aos meus gostos. Amar é aprender gostar daquilo que a pessoa amada gosta.

Eu posso dar uma dica a você que tem encontrado dificuldade em compartilhar decisões importantes com o seu cônjuge. Há atitudes aparentemente simples que tomamos no dia a dia que acabam funcionando como um exercício para os projetos mais ousados na sociedade. Por exemplo, eu conheço maridos que nem sequer deixam a esposa escolher a comida no restaurante. Eles chamam o garçom e dizem: “Picanha para dois”. Eles olham para as esposas e fazem uma pergunta retórica, ou seja, com a resposta pronta: “É picanha que você quer, não é? Então, ela quer picanha também, garçom. E duas águas de coco também”. Ela quer também água de coco. Mas ela não disse que quer, ele decidiu por ela.

Habitue-se a dividir decisões simples e corriqueiras com o seu sócio, com a sua sócia. Com essas práticas, vocês vão permitir conhecerem-se melhor um ao outro preparando-os para aventuras maiores, projetos mais ambiciosos que envolvam a participação real de cada parte. Permita que haja interação de ambas as partes nas decisões que dizem respeito ao casal. Pratique de fato o pacto de lealdade.

Nisso devemos novamente nos curvar ao que a Bíblia diz: “Duas pessoas andarão juntas se não estiverem de acordo?”. (Amós 3:3, NVI)

Se não houver lealdade na manutenção da sua sociedade, ela não irá longe. As decisões tomadas devem ser boas para ambos. Nada do que fizerem prosperará, se for bom só para uma pessoa. Pode funcionar uma vez, duas, mas chegará o momento que isso se tornará uma rotina, que oprimirá a parte que não participou nas decisões – e esse é o ponto em que as crises vão se intensificar no seu relacionamento. Evite isso hoje! Seja fiel no seu pacto de lealdade. Quando há lealdade, respeita-se a individualidade, mas não se permite o individualismo.

ADMINISTRAÇÃO INTELIGENTE
As sociedades que esperam sucesso precisam ter uma administração inteligente.

Quando falamos de administração inteligente, estamos nos referindo a habilidades desenvolvidas. Ninguém se casa com autoridade para dizer: “Sei tudo sobre casamento. Sei administrar finanças, educar filhos, relacionar-me com a família do meu cônjuge, inclusive com a sogra e com o sogro, lidar com minha família de origem e com questões de animais de estimação, como funciona o processo de comunicação e sei tudo sobre sexo”.

Isso é utopia, sonho irrealizável. Simplesmente não existe uma pessoa assim, investida de tamanha autoridade. Todos nós temos algumas (ou muitas) deficiências no nosso casamento, e essas deficiências precisam ser resolvidas a partir do desenvolvimento de uma habilidade.

As habilidades não nascem conosco; são aprendidas, são desenvolvidas, mesmo que já se tenha aquele dom de nascença. Deixe-me dar mais exemplos.

Qual é a sua deficiência conjugal que lhe incomoda? É na área da comunicação? Então, você pode ler um livro sobre comunicação no casamento, ler um artigo sobre isso numa revista especializada, assistir a uma palestra. Por que você não conversa com casais que se comunicam bem? Desenvolva essa aptidão. Aprenda essa habilidade.

Suponhamos que o seu problema seja na área financeira. Por que você não compra um bom livro sobre o assunto? Há ótimos livros nas prateleiras das livrarias que tratam dessa questão.

Vamos a outro exemplo: Sua dificuldade é na área sexual? Ninguém se casa sabendo tudo sobre sexo, especialmente se você escolheu esperar. A maturidade sexual leva um tempo para ser atingida e ela acontece em momentos diferentes para o homem e para a mulher. A mulher atinge o seu nível de maturidade sexual depois dos 35 anos. O homem, muitas vezes, aprende a controlar o momento do orgasmo depois dos 35, 40 anos de idade. Mas é possível você aprender isso. Como? Descubra e adquira as boas publicações, inclusive com apoio de base bíblica, ensinando como praticar sexo com qualidade.

Outro exemplo: suponhamos que o seu problema seja a dificuldade de se relacionar com a sogra. Isso tem jeito, e não é orando para a sogra desaparecer nem morrer. É lendo um bom livro, que descreva como o autor resolveu isso ou as experiências de outras pessoas que o escritor apresenta na sua obra. Você terá contato com as experiências de sucesso daqueles que tiveram o mesmo problema que você e superaram, porque desenvolveram suas habilidades. Caso você conheça alguém que tenha um bom relacionamento com a sogra, um relacionamento maduro, estável, sente-se com essa pessoa e peça que ela conte a você a receita.

Quando você quer fazer um prato novo, não pede a receita a quem já o fez? Então, peça também a receita do bom relacionamento. É assim que nós avançamos sobre áreas em que somos deficientes: conversando, compartilhando experiências, aprendendo.

E falando em cozinha, pode ser que a sua deficiência esteja aí. Já imaginou o marido que precisa almoçar no restaurante todos os dias porque a mulher alega que “não tem mão boa” para cozinhar? Se esse é o seu caso, vá estudar. Converse com a sua avó, com a sua mãe, com a sua sogra, com a vizinha. Vá aprender, vá desenvolver a sua habilidade porque a sociedade conjugal depende de uma administração inteligente.

E como posso administrar minha sociedade de maneira inteligente? Desenvolvendo novas habilidades de acordo com as deficiências existentes.

Ninguém pense que, com o tempo, tudo ficará às mil maravilhas. Sempre será preciso identificar áreas com deficiências e desenvolver novas aptidões. Até hoje eu estudo e aprendo sobre como administrar com inteligência a nossa sociedade conjugal. Não podemos descuidar um só instante, porque sociedades que se conformam a um padrão, a uma situação, ficam para trás.

A história conta inúmeros casos de grandes sociedades que se julgaram plenas, estáveis, autossuficientes, e logo foram parar na sarjeta. Não é diferente com a nossa sociedade conjugal. Sempre haverá uma área a ser melhorada, uma habilidade a ser aprendida, um talento a ser desenvolvido.

Lembre-se: o fracasso de um é o fracasso da sociedade conjugal como um todo. Eu sou o maior interessado em que a minha esposa não fracasse, porque, se ela fracassar, nós dois teremos fracassado, pois estamos no mesmo barco. A minha esposa é a maior interessada em que eu dê certo como seu sócio, porque no casamento ou os dois ganham ou os dois perdem.

Que Deus os abençoe!

Josué Gonçalves é terapeuta familiar, escritor, pastor e apresentador do programa Família Debaixo da Graça, transmitido pela RedeTV!. Trabalha com o tema Família há 27 anos.