É mais do que um incêndio! É o retrato da decadência cultural de um país inteiro

Essa tragédia é uma consequência da inversão de valores que vive o Brasil neste exato momento

Marisa Lobo - 08/09/2018 10h22

O incêndio ocorrido, neste domingo (2), no Museu Nacional, que este ano completaria 200 anos de história como a primeira instituição científica do país, reflete muito mais do que um desastre de prejuízos irreparáveis para o Brasil e para a história da humanidade. Ele é o retrato perfeito de um país que foi entregue ao descaso cultural, moral e institucional.

Fachada do Museu Nacional, em chamas Foto: EFE/Marcelo Sayão

Não haveria momento ironicamente mais oportuno para a destruição de 200 anos de história brasileira, do que na véspera das eleições onde um presidiário e a sua trupe de cúmplices do crime pleiteiam o cargo de maior importância do país, o da Presidência da República, mesmo após a impugnação da candidatura pelo Tribunal Superior Eleitoral.

O cidadão que lamenta os danos irreparáveis no Museu Nacional, talvez não perceba que essa tragédia faz parte de um processo gradual de desvalorização da alta cultura e corrupção institucionalizada. Isso não tem a ver com dinheiro, mas com gestão e interesses. Administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Museu Nacional, berço e guardião da nossa história imperial, recebia vergonhosos 550 mil reais anualmente para sua manutenção, e com dificuldades. Esse valor é menor do que o gasto anual do Governo com apenas um juiz do Supremo Tribunal Federal. Que proporção mais insana é esta? Ela existe por falta de dinheiro ou desonestidade intelectual, prioridades e competência administrativa?

O portal G1 publicou uma matéria sobre Wagner Victer, que há 14 anos foi secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro. Ele disse na época “o Museu vai pegar fogo” após fazer uma visita ao local. Hoje ele declarou que “o tempo resolveu”, confirmando o seu alerta na década passada e comprovando que o descaso cultural do país não tem a ver com verba pública. Não tem a ver com PEC dos gastos, mas com valorização da boa cultura, nossa identidade e patrimônio nacional.

O ex-secretário lembrou que “já naquela ocasião era óbvio que não só problemas de falta de manutenção, como a ausência de sprinklers associada a uma série falhas, além de áreas fechadas contendo farto material inflamável, indicavam um potencial risco de um incêndio dessas proporções”. Veja que se esse alerta foi dado 14 anos atrás, então o descaso não vem de um Governo específico, mas de vários.

Acontece que o Brasil por décadas vem sendo assaltado por uma geração de doutrinadores que relativizaram tudo, inclusive a noção de boa cultura. Esta é a geração Paulo Freire, onde a boa crítica se perde pela crítica vazia, sem começo, meio e fim, mas na qual tudo são subjetividades entre “opressores e oprimidos”.

NÃO HÁ INVESTIMENTO PARA O QUE NÃO É VALORIZADO
O incêndio no Museu Nacional é uma consequência da inversão de valores que vive o Brasil, em grande parte motivada pela classe “artística”, pela grande mídia e algumas personalidades, mais interessadas no próprio bolso do que no bem do país.

Quem não lembra da exposição Queermuseu, que em agosto do ano passado criou uma polêmica nacional ao ser aberta no Santander Cultural, expondo imagens de pedofilia e zoofilia até para alunos do colegial? Segundo a Época Negócios, a exposição recebeu R$ 800 mil de financiamento por isenção fiscal, via Lei Rouanet.

Essa foi a mesma lei que financiou no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), em setembro do ano passado, uma exposição chamada La Bête, onde uma criança pôde tocar um homem nu em nome da “arte”, de acordo com o ILISP.

Desde que foi aprovada em 1991, a Lei Rouanet já gastou quase 16 bilhões de reais (até 2017), promovendo entre outras bizarrices o documentário acerca do ex-ministro petista, José Dirceu, condenado a mais de 30 anos de prisão pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. A pequena fortuna aprovada para o documentário sobre o presidiário foi de R$ 1.526.536,35!

Exemplos como esse apenas demonstram que o maior problema que enfrentamos no Brasil não é a falta de recursos, mas a corrupção somada ao colapso cultural e ao de identidade nacional. Ele está nas escolas, nas praças, rodas de bar, nas universidades, na TV e nas maiores casas de shows do país. O poder público também é, sim, o reflexo disso que vivenciamos dentro de casa. E só vivenciamos porque aceitamos calados, muitas vezes indignados, mas omissos.

Finalmente, o incêndio no Museu Nacional é o ataque cardíaco ocorrido em um corpo sobrecarregado de malfeitores. Um sinal claro de que precisamos intervir de forma urgente e radical para ressuscitar este país que está definhando, resgatando a boa cultura, investindo no fortalecimento das nossas identidades culturais e valorizando o dinheiro do contribuinte. Por isso, acredito que as eleições deste ano pode ser um divisor de água. Ela pode ser a mão que desliga o último aparelho de respiração que resta mantendo vivo o Brasil, antes que se transforme em uma Venezuela, ou o eletrochoque que pode lhe ressuscitar.

Qual delas você quer ser?

Marisa Lobo possui graduação em Psicologia, é pós-graduada em Filosofia de Direitos Humanos e em Saúde Mental e tem habilitação para Magistério Superior.

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