Leia também:
X Região mais afetada da Itália zera casos e mortes de Covid

Psicóloga que atua no SUS fala como vê o colapso no sistema

Profissional defende necessidade de um sistema de saúde pública eficaz

Camille Dornelles - 25/05/2020 10h19 | atualizado em 25/05/2020 10h20

Psicóloga que atua no SUS defende o sistema e fala da atual situação Foto: Reprodução

O Sistema Único de Saúde (SUS), criado com base no direito constitucional à saúde garantida pelo Estado, tem sido muito exigido no combate à pandemia do novo coronavírus.

Levando em conta que o Brasil, apesar de estar em terceiro lugar no número de casos de Covid-19, já ultrapassou 100 mil pessoas curadas, muitas vitórias contra a doença foram vistas pelo SUS.

Mas os problemas do sistema, como falta de leitos em várias localidades, têm sido alvos de críticas duras. A psicóloga Rebeca Cerqueira trabalha na cidade do Rio de Janeiro e conversou com o Pleno.News sobre como vê essa realidade.

Como você percebe a dificuldade do SUS de abarcar todos os pacientes com coronavírus?
É como eu costumo dizer: a pandemia não quebrou o sistema, como muitos acreditam, ela apenas expôs as falhas de um sistema que já existe e que insiste em perdurar, mesmo aos custos de toda uma população. Sistema este que não investe corretamente os seus recursos nas áreas prioritárias e que não se previne para situações de emergência como a que estamos vivendo no momento.

Mesmo com as dificuldades, ter um sistema de saúde pública resolve?
Olha, eu não diria que resolve, mas que ajuda muito. A premissa de se ter uma saúde pública é ter um estado que gerencia, disponibiliza e se preocupa em oferecer para toda a população o acesso a saúde. No caso do Brasil, o SUS tem como princípios norteadores a integralidade, a universalidade e a equidade. Isso significa que todo e qualquer cidadão que pisar no território brasileiro tem o direito de acesso a todos os serviços de saúde, em todos os níveis de assistência e de maneira equânime, ou seja, de acordo com as necessidades individuais de cada um.

Para você, qual é o principal impedimento para que o sistema abarque a todos?
O motivo de isso não funcionar de maneira que resolvam de fato todos os problemas está na falta de uma gestão eficiente, falta de recursos que na maioria das vezes são desviados de seus respectivos destinos e do setor privado, que trata da saúde como mercadoria e acaba ferindo de certa forma o avanço do setor público no âmbito da saúde. Ou seja, o que difere um sistema público de saúde de um privado é basicamente o acesso, pois sabemos que, enquanto o setor privado tem como objetivo lucrar, apenas parte da população tem condições de arcar com esse investimento. Ao passo que o setor público não faz (ou não deveria fazer) essa distinção. Sabemos que na prática há muito o que ser feito para aprimorar o sistema público, e isso há de ser feito com mais investimento nesse setor e com a sua defesa por parte da população, e não com a aniquilação dele. Pois se assim fosse, menos pessoas ainda teriam acesso aos cuidados de saúde de que necessitam.

E por que você acredita que o SUS deve ser defendido pela população?
Como já disse, o SUS é um sistema único que abarca todos os níveis de assistência e o disponibiliza para toda a sua população e que, desde sua fundação, serve de exemplo de sistema de saúde para os demais países do mundo. Inspirado numa junção do modelo cubano e britânico, o SUS tem uma das legislações mais completas, que visa atingir toda a população do país no que diz respeito ao cuidado em saúde.

O trabalho do SUS é mais amplo do que a maioria da população identifica. O que você acha importante frisar sobre sua atuação?
Vale lembrar que, aqui no Brasil, há serviços de saúde que a população só tem acesso através do SUS e com o auxílio da ANVISA, que é a agencia reguladora principal do SUS. Os serviços mais complexos, portanto mais caros, que se pode ter acesso no que diz respeito a assistência em saúde, são disponibilizados apenas pelo SUS. Alguns exemplos são o transplante de órgãos e de hemoderivados, algumas cirurgias de alto risco, pronto socorro imediato de acidentes ocorridos no trânsito e na rua, dentre muitos outros.

Qual a maior dificuldade do SUS agora?
Então, a maior dificuldade hoje não é só a falta de leitos disponíveis para pacientes graves, mas também a carência de uma resposta política efetiva que visa enfrentar a crise sem sacrificar (mais ainda) a população. Falta um plano de governo que enfrente a pandemia de maneira ética, técnica e científica, pois só assim as vidas serão poupadas de fato.

Leia também1 Enfermeiro se recupera da Covid e volta ao trabalho
2 Psicóloga alerta sobre casos de suicídio na pandemia
3 Veja o que uma médica de São Paulo tem a dizer sobre o SUS

Siga-nos nas nossas redes!
WhatsApp
Entre e receba as notícias do dia
Entrar no Grupo
Telegram Entre e receba as notícias do dia Entrar no Grupo
O autor da mensagem, e não o Pleno.News, é o responsável pelo comentário.