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Profissionais de saúde contam o que sentem frente à Covid

Médicos, enfermeiros e técnicos enfrentam riscos, preconceito e distância da família para salvar vidas

Camille Dornelles e Virgínia Martin - 12/05/2020 19h17 | atualizado em 13/05/2020 11h14

Desde o dia 26 de fevereiro, quando o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Brasil, uma luta contra a doença começou e os combatentes de linha de frente, os profissionais de saúde, não pararam de ser acionados desde então.

Palmas nas sacadas dos prédios residenciais começaram a marcar diariamente o agradecimento da população sobre seus esforços. Mesmo assim, os casos seguiram aumentando e, com eles, a exigência sobre o trabalho dos profissionais de saúde.

O Pleno.News resolveu conversar com alguns trabalhadores da linha de frente dos estados com mais casos confirmados para entender como está o seu emocional.

PRECONCEITO
A. B. é uma auxiliar de enfermagem que falou ao Pleno.News sobre o que vive, mas não quis se identificar, por medo de retaliações. Ela trabalha no Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, que atua como unidade federal de referência no combate ao novo coronavírus, e lamentou a atual situação.

– Somos vistos como vetores da doença a ponto de sofrermos agressões por parte da sociedade. A gente enfrenta uma mídia bastante bombardeadora, mostrando falhas no sistema que não nos compete – declarou.

FALTA DE MATERIAIS
Outro problema apontado pela enfermeira foi a falta de equipamentos de proteção individual adequados.

– A gente enfrenta uma falta precária de EPIs, muitos que temos estão abaixo do preconizado como adequado por causa do racionamento. A gramatura do capote, por exemplo, fica abaixo do que preconiza a nota técnica da Anvisa. Muitas vezes, o capote não é o adequado e a máscara não é adequada. Temos dificuldade em testar os colegas. Por que a própria unidade não apoia seus próprios funcionários? Para nós está sendo muito difícil lidar com isso – desabafou.

A enfermeira também criticou a falta de visibilidade que se dá para essa situação pela grande mídia.

– Não é isso o que vai para a mídia. O que vai é que o leito está vazio, mas o hospital fechado… Só que nós não temos culpa que os leitos foram fechados por posicionamento político ou ingerência. Temos força de trabalho adoecida, pessoas afastadas… E já haviam profissionais afastados por outras doenças que se somaram aos afastados pela pandemia. Na mídia o número de infectados é muito grande, mas não é real – explicou.

Enfermeiras oraram por pacientes e por suas famílias Foto: Reprodução/ Angela Gleaves

MORTE DE COLEGAS
Sua colega C.N., também enfermeira, falou sobre a perda de colegas de trabalho.

– Já perdemos além de enfermeiros, técnicos e auxiliares de Enfermagem, ascensorista, maqueiro, copeira, funcionário do necrotério e por aí vai. E o pior. O funcionário passa mal, vai na emergência e o médico não autoriza abrir ficha de atendimento – revela C.N.

MEDO PELA FAMÍLIA
Além de A. B., a enfermeira W. D., que também pediu para não ser identificada, afirmou ter medo de pegar a doença. Ela trabalha na cidade de São Paulo, centro dos casos de Covid-19 no Brasil.

– Aqui está desesperador. Começaram a convocar profissionais da saúde básica para atender nos hospitais. Muitos profissionais estão falecendo! Eu já fiz teste, tenho medo por causa de meus dois filhos, que não podem pegar de jeito nenhum! – declarou.

A enfermeira revela que os profissionais de saúde estão morrendo da doença. Ela atende em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) da Zona Norte.

– Onde trabalho é um dos piores bairros para o Covid 19. Aqui em São Paulo, ouvi de um médico legista que a estimativa é de dez a 25 vezes o número dos casos. Aqui não se faz mais autópsia e os médicos da UBS estão fazendo a declaração de óbitos na residência e o movimento do cemitério perto da UBS em que trabalho está enterrando muitas pessoas. Já invadiram uma área próxima do cemitério e o movimento é maior do que o divulgado – relatou.

O médico André Barreto enfrenta dificuldades no enfrentamento da doença Foto: Reprodução

PRESSÃO EMOCIONAL
O médico André Barreto é residente do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, parte do Sistema Único de Saúde (SUS) e um dos mais procurados na cidade.

– Além da preocupação rotineira, passou a existir uma preocupação do contágio e com o bem-estar pessoal. O médico trabalha agora muito mais abalado psicologicamente. Nossa perspectiva no Brasil não é boa, devido ao crescente do número de casos, e a gente vai ter que começar a escolher quem vai ser atendido e quem não vai. Isso é muito preocupante e muito doloroso. Nós, profissionais, temos sofrido com essa pandemia, provavelmente mais do que a população geral – desabafou.

A fisioterapeuta respiratória Sonia Agreste também falou ao Pleno.News sobre a pressão, mas se mostrou agradecida pela possibilidade de poder ajudar na linha de frente da doença.

– Os profissionais vocacionados correm, sim, risco de morte, se aprimoram, buscam conhecimento, se dedicam com muito zelo, se apoiam mutuamente e atendem cada pessoa com muito carinho, se alegram com a vitória e também choram com a perda. Principalmente com a perda da vida, que é nosso bem precioso. As vozes desses profissionais vocacionados têm se tornado minha inspiração e, graças a Deus, têm falado mais alto do que outras vozes que não têm empatia. Eu agradeço a Deus pela oportunidade de estar atuando contra a Covid-19 e agradeço também a todos que colaboram com a gente ficando em casa – declarou.

PREOCUPAÇÃO DE AMIGOS E FAMILIARES
O médico relatou que, apesar da situação difícil, vê mais preocupação de amigos sobre sua situação. Ao atender pacientes com Covid-19, ele acabou sendo infectado. Fez o teste no local, após dois dias veio o resultado positivo e o isolamento em casa.

– O meu contágio não mudou a forma como eu sou tratado, fora a parte do cuidado da minha equipe. Pelo contrário, recebi muitas mensagens de amigos e colegas me perguntando como eu estou, se o pior já passou e como está a minha família. Se adquirir a doença me mostrou alguma coisa foi o oposto de preconceito, mas o carinho e cuidado que meus amigos têm comigo – conta.

Todos os profissionais entrevistados pelo portal frisaram a dificuldade enfrentada na saúde, mas, principalmente o fato dos hospitais terem sido pegos despreparados para enfrentar a pandemia. E uma fala comum entre eles foi que os profissionais, mesmo com medo, não fugiram da responsabilidade.

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