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Nise Yamaguchi diz que uso da cloroquina “esvaziou CTIs”

Oncologista falou sobre eficácia do remédio em carta de resposta às críticas feitas por epidemiologista

Paulo Moura - 03/06/2020 08h46 | atualizado em 03/06/2020 08h48

Oncologista Nise Yamaguchi Foto: Alesp/Marco Antônio Cardelino

A oncologista Nise Yamaguchi voltou a defender o uso da hidroxicloroquina para combater os casos de Covid-19. Em uma carta publicada como resposta às críticas feitas contra ela pelo epidemiologista Carlos Magno Fortaleza, Yamaguchi declarou que os locais que aderiram ao medicamento viram seus Centros de Terapia Intensiva (CTIs) serem esvaziados.

– É isto [inversão da curva do vírus] que tem sido visto em diversos convênios médicos que já adotaram esta estratégia de tratamento precoce e têm os seus centros de terapia intensiva se esvaziando e dando espaço para que cirurgias de câncer e de doenças importantes de serem tratadas – afirmou.

A médica também falou sobre a pesquisa publicada na revista científica The Lancet, duramente criticada após tentar desmerecer o uso da cloroquina com métodos inconsistentes. Em seu texto, ela apontou alguns problemas apresentados pelo estudo.

– O que chamou a atenção é a forma como houve a distribuição entre os continentes, muito homogênea, com dados incompletos de quanto tempo as pessoas teriam tomado as medicações, por que tomaram e o braço controle, por que não tomou – escreveu.

Ao final, Yamaguchi ainda pediu que os objetivos individuais sejam colocados a serviço da vida e ressaltou que o esforço de todos será necessário para a reconstrução do país após o momento de pandemia passar.

– Possamos ser sábios e corajosos, para podermos reconstruir um país que necessita do esforço conjunto de todos nós, dentro de uma unidade que faz uma Nação crescer. Que o conhecimento possa ser verdadeiro e nobre, sendo utilizado para a cura do COVID e dos caminhos para o futuro dos nossos descendentes – finalizou.

Confira a carta de Nise Yamaguchi, na íntegra:

Considero este momento crítico que nós vivemos, de profunda reflexão, com toda a dificuldade dos sistemas de saúde públicos de contemplarem os atendimentos dos pacientes graves, dentro da crise mundial. Temos também uma crise de credibilidade dos estudos da hidroxicloroquina e cloroquina, sendo publicados em grandes revistas médicas, procurando evidências substanciais criadas em plataformas pseudo-tecnológicas que buscam alavancar ações de absoluta inconsistência e detrimentais à vida humana.

Aqueles que acreditam que o tratamento deva ser precoce com hidroxicloroquina, azitromicina e zinco do COVID-19, para combater a fase inicial de replicação viral, objetivam diminuir em 95% ou mais, a chance dos pacientes irem para a UTI e serem entubados, em sofrimento desnecessário. Outros que não acreditam, chegam a dizer que não se deve fazer nada, já que em estudos criados para demonstrarem a toxicidade de medicamento semelhante, a cloroquina usada em dose absurda, de 4,4 vezes o que seria a dose mais baixa no estudo do Amazonas, causaram arritmias fatais. Criou-se uma espécie de pandemia do medo, de problemas cardíacos graves, com uma classe de medicamentos que é usada há mais de 70 anos, em mais de bilhões de doses no mundo nas infecções por malária e doenças autoimunes e que eram considerados medicamentos essenciais da própria Organização Mundial da Saúde, e que agora prioriza o protocolo com medicamentos caros endovenosos nas suas pesquisas.

A revista Lancet que lançou um resultado organizado por uma companhia sem histórico de pesquisas destas proporções, e que culminou na proibição de estudos de hidroxicloroquina no Reino Unido, França e Bélgica, está sendo duramente questionada pela metodologia incerta, de fontes não seguras, e análise questionável de dados eletrônicos obtidos de forma não transparente, sem consentimento ético conhecido até o momento. Este estudo avaliou 96.032 pacientes de cinco continentes, onde 14.888 pacientes teriam sido tratados e teria demonstrado a toxicidade da hidroxicloroquina e mais risco de arritmia. O que chamou a atenção é a forma como houve a distribuição entre os continentes, muito homogênea, com dados incompletos de quanto tempo as pessoas teriam tomado as medicações, por que tomaram e o braço controle, por que não tomou. Também havia um percentual de pacientes semelhantes no apêndice 3, de pacientes fumantes nos cinco continentes, assim como de hipertensos, e de uso de estatinas, inclusive na África, que deveria diferir completamente do número de pacientes que fumam da Ásia ou da Europa. Isto e outros desatinos estatísticos estão levantando questões no mundo inteiro.

Por que tanto trabalho para tentar desmerecer um medicamento?

O que nos perguntamos é: por que um medicamento sem custo, de ação principalmente nas fases iniciais e talvez preventiva, vem sofrendo tanto escrutínio e tantos ataques violentos? Imagino eu que deva ser muito eficiente e que possa fazer a inversão da curva da pandemia. Pelo menos é isto que tem sido visto em diversos convênios médicos que já adotaram esta estratégia de tratamento precoce e têm os seus centros de terapia intensiva se esvaziando e dando espaço para que cirurgias de câncer e de doenças importantes de serem tratadas também possam ser realizadas em meio a este momento importante da história da humanidade.

Também parece que todos que chegam com alguma solução para esta crise são alçados imediatamente a candidatos ao posto executivo de Ministro da Saúde. Em primeiro lugar, este é um lugar que cabe aos fortes, que possam sofrer incessantemente aos ataques de todos que almejam o cargo, e também de toda a torcida de diversos matizes, pois existe um nexo destrutivo das reputações e dos objetivos mais profundos de se tentar melhorar a saúde como um todo, de fazer a interlocução com as diversas camadas sociais e as organizações que são o sustentáculo do Sistema Único de Saúde. Cabe pouco espaço para o amor e a consideração à dor de todos os que sofrem diuturnamente com um sistema insuficiente, para a maioria das doenças agudas e crônicas deste país. Além disto, também não se considera a importância do Brasil como referência mundial dentro do maior sistema universal de saúde pública do mundo, com números invejáveis de transplantes de medula, de fígado, de rim e até de coração e de pulmão. E que, nesta pandemia, tem a chance de mudar totalmente a evolução da doença, tratando precocemente os pacientes com COVID-19.

Ainda temos tempo de sermos um exemplo de civilidade e de humanidade, onde os objetivos individuais, econômicos ou partidários sejam colocados a serviço de um bem maior, a vida. Para que o mundo acorde um pouco melhor desta pandemia, onde percebamos que o que verdadeiramente importa é invisível aos olhos, de que o respeito à trajetória individual possa se voltar para o bem do todo. Possamos ser sábios e corajosos, para podermos reconstruir um país que necessita do esforço conjunto de todos nós, dentro de uma unidade que faz uma Nação crescer. Que o conhecimento possa ser verdadeiro e nobre, sendo utilizado para a cura do COVID e dos caminhos para o futuro dos nossos descendentes.

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