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Cientistas da USP estudam se há pessoas ‘superimunes’ à Covid

Pessoas respondem de formas diferentes ao vírus, ainda que tenham a mesma exposição

Pleno.News - 16/05/2021 18h06 | atualizado em 17/05/2021 11h33

Pesquisadores investigam a possibilidade de existirem pessoas ‘superimunes’ à Covid Foto: Pixabay

Quando o marido apresentou os primeiros sintomas de Covid-19, a veterinária Thais Oliveira de Andrade, de 44 anos, tinha certeza de que pegaria a doença também. Os dois haviam sido expostos no mesmo momento a uma pessoa contaminada. Por isso, ela não só cuidou do parceiro, como continuou dormindo na mesma cama com ele.

O estado de Erik Soares de Araújo, de 44 anos, agravou-se, e ele acabou internado em uma UTI, onde ficou por quatro dias. Mesmo assim, os exames de Thais continuavam dando negativo.

– Durante o período em que ele ficou no hospital, testei mais duas vezes, e deu não reagente. Achei que era erro e continuei esperando pelos sintomas. Quando ele teve alta, testei novamente, e nada. Ficou claro que nunca fui infectada – contou a veterinária.

O caso não é tão raro quanto pode parecer. Cientistas já tinham percebido que algumas pessoas são imunes à pandemia que continua se alastrando pelo mundo. São naturalmente protegidas contra a Covid.

Por que algumas pessoas são infectadas e outras não são, apesar de terem sido igualmente expostas ao vírus? Por que alguns indivíduos centenários tiveram formas brandas da doença, enquanto jovens sem comorbidades (como no caso do ator Paulo Gustavo, entre outros) morreram? Haveria um componente genético na vulnerabilidade ou na resistência ao Sars-CoV-2? Essas são algumas das perguntas que os especialistas começaram a se fazer.

Por que algumas pessoas são infectadas e outras não são, apesar de igualmente expostas ao vírus?

EM BUSCA DE RESPOSTAS

Um estudo do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), feito com pares de gêmeos univitelinos e bivitelinos, revelou que irmãos geneticamente idênticos expostos à Covid tendem a ter sintomas e desfechos parecidos. Já entre os que apresentam genomas diferentes, a tendência mais forte foi de casos distintos. O resultado já indicava um componente genético forte na infecção e na manifestação da doença.

Outra pesquisa do mesmo grupo analisou dados de 86 casais, entre eles Thais e Erik, em que um dos cônjuges foi infectado pelo Sars-CoV2 e o outro não. O objetivo era justamente tentar encontrar perfis genéticos capazes de explicar a discrepância. Os dois trabalhos foram publicados na plataforma científica MedRxiv e ainda não foram revisados por pares.

– A gente tem certeza de que a genética está envolvida em vários aspectos da doença – afirmou o biólogo Mateus Vidigal, principal autor do estudo.

– Queríamos investigar a influência da genética na infecção, na variabilidade de sintomas e no desfecho, além dos mecanismos de resistência e suscetibilidade à doença – completou.

A partir do sequenciamento genético dos 172 voluntários, os cientistas conseguiram detectar duas sequências específicas de variantes ligadas ao sistema imunológico, as quais chamaram de MICA e MICB. Nos indivíduos infectados, as MICA estavam aumentadas, e as MICB, reduzidas. Nos resistentes, as MICB apareciam mais.

A descoberta pode ajudar não apenas a entender o desenvolvimento da doença como também servir de base para futuros medicamentos.

– Uma vez que se conhece o componente genético por trás da Covid, isso abre uma nova perspectiva de tratamento. Os tratamentos hoje não são coletivos; não temos nada muito específico. É importante ter tratamentos mais individualizados para melhorar o prognóstico – disse Vidigal.

Os cientistas já sabem, no entanto, que vários genes estão envolvidos, e não apenas um, como no caso do HIV. Embora muito rara, a resistência à infecção pelo vírus da AIDS está presente em 1% da população. Os indivíduos resistentes têm uma mutação em um único gene específico, chamado CCR5.

– Se conseguirmos mapear esses genes, poderemos saber de antemão quais são os indivíduos resistentes e os mais vulneráveis – afirmou a geneticista Mayana Zatz, que também participa do estudo.

– Com um teste genético simples, por exemplo, poderíamos liberar as pessoas resistentes, que não se infectam nem infectam outras pessoas, para circularem livremente. Essas pessoas poderiam também ir para o fim da fila da vacinação – acrescenta a cientista.

*Estadão

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