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“O filho de pastor precisa de espaço para se encontrar”

Késia Feitosa fala sobre lançamento de ebook voltado para as famílias pastorais

Rafael Ramos - 17/12/2019 17h31 | atualizado em 18/12/2019 12h05

Késia Feitosa fala sobre a experiência como filha de pastor Foto: Divulgação

Késia Feitosa é missionária da Igreja Presbiteriana do Brasil. Nascida em berço evangélico, ela é filha do pastor Francisco Alves Feitosa e esposa do pastor Rui Feitosa. A partir dos seus questionamentos como filha de pastor e de relatos recebidos de pessoas como ela, nasceu o livro Filhos de Pastor: Marcas de Uma História, que teve sua versão digital lançada pela MK Books.

Criada no sertão do Cerará, Késia viu de perto a dedicação do pai como “plantador de igrejas”. Mas, ao mesmo tempo, ela enfrentava uma crise como qualquer adolescente em tentar se encontrar. Em entrevista ao Pleno.News, a autora, que é mãe de Thiago, de 10 anos, conta como foi a pesquisa para criação do livro e as expectativas com o ebook. Além disso, Késia Feitosa destaca a importância de se revitalizar as relações na casa pastoral.

Como sua experiência como filha de pastor serviu para a criação deste livro?
Eu vi meu pai, que era um plantador de igrejas, passar por muita perseguição nos mais de 40 anos no sertão do Ceará, e aquilo era muito angustiante. Desde cedo, eu vivia uma crise por questionar a veracidade da mensagem do Evangelho. Eu acalentava o ideal de me libertar e ser livre, mas, antes de fazer meus 15 anos, tive uma experiência pessoal com Jesus ao sair de casa, na cidade de Umirim, para estudar no sul do Ceará.

Eu estudei Teologia no Seminário Betel Brasileiro, na Paraíba, e tive a oportunidade de viver o outro lado. Ou seja, em não ser mais vista como a filha do pastor, mas poder estar no meio do povo. Mas, quando você começava a conversar, geralmente estava ali aquele grupinho de filhos de pastores falando das mesmas frustrações e revoltas e isso me intrigava demais. Senti o chamado de Deus e o que era uma crise passou a ser interesse em conhecer outras histórias.

Às vezes, o pastor é tão pai para os filhos dos membros da igreja e é muito pastor para os próprios filhos. E é esse equilíbrio que o pastor precisa entender

A vivência nesse meio eclesiástico pode sufocar?
Sim. Qual filho do pastor não canta? Não prega? Faz tudo? É o último a sair da igreja, dorme no banco, vai a pé para casa… Mas Jesus se tornou o meu Deus pessoal e deixou de ser o Deus do meu pai. Jesus saiu das páginas das Escrituras, veio para o meu coração e fez toda a diferença nas minhas dores e angústias. Em 1997, criei uma comunidade no Orkut para ouvir outras histórias e o negócio se alastrou pelo Brasil. Recebi muitos depoimentos e isso chegou ao jornal Tabernáculo e à Revista Enfoque Gospel. Passei dez anos recebendo histórias e até de pais pastores, já em fim de carreira do ministério pastoral, carregando frustrações e muita culpa. Conheci filhos de pastores revoltados e culpados, mas também encontrei alguns muito felizes com Jesus. Tem filho de professor que tem problema de aprendizagem, então, por que o filho do pastor não pode ter dificuldades na sua relação com a igreja?

Falta ao filho do pastor, muitas vezes, a oportunidade de encontrar sua própria voz?
Na verdade, essa é a questão: se encontrar. Toda criança precisa de espaço para se encontrar e descobrir do que gosta e com o filho do pastor não é diferente. Ele é gente e vai ter que passar por esse processo, que nem sempre é tranquilo e acontece em crises. Muitos filhos assumiram a carreira pastoral, mas também têm muitas histórias de filhos que assumiram apenas como herança familiar, sem ter vocação. O filho de pastor é alguém e deve haver sempre um respeito na relação entre família pastoral e igreja. O livro Filhos de Pastor surgiu com o apelo de encontrarmos nosso referencial, Nosso pai é uma referência, mas nosso referencial de vida tem que ser Jesus. Quando não é Jesus, nós ficamos perdidos e tentando seguir os passos sem a consciência. Tem uma música do Logos que diz “Quero pisar sobre essas marcas de valor” e eu pude dizer isso ao meu pai na jubilação dele: “Eu piso em suas marcas com consciência e sou feliz porque reconheço que Deus me deu essa fé para trilhar”.

Ebook reúne experiências pessoais e relatos enviados para a autora Foto: Divulgação

Qual a importância do pastor dedicar também um tempo para a família?
Comecei a entrevistar filhos de pastores e recebi depoimentos de pais, de mães e de esposas de pastores solitárias. Comecei a ouvir depoimentos de amigos da casa do pastor e fui percebendo que era uma questão de relacionamento. Como toda a família, a coerência da relação familiar é tudo na vida de uma criança. O tempo que você dá para o seu filho tem que ser com qualidade e que seu coração esteja com seu filho. Às vezes, o pastor é tão pai para os filhos dos membros da igreja e é muito pastor para os próprios filhos. E é esse equilíbrio que o pastor precisa entender.

A pressão em manter uma imagem inabalável seria uma das causas de tantos pastores estarem depressivos e até mesmo tirando a própria vida?
Pastor é gente, tem sentimento. A gente tem uma herança de igreja de super dotados e o próprio pastor abraça isso. Ele não pode dizer que está doente porque não vão acreditar na mensagem dele. É preciso trazer esse olhar de humanidade e se permitir ser gente porque ninguém aguenta esse peso. O problema da depressão é o pastor não poder dizer que está doente e esconder os problemas de casa. Não interessa se a família pastoral está arrebentada e o pastor está sofrendo com os problemas da sua casa, o importante é que eles estão cumprindo um dever que lhes foi dado, mas a gente explode e quebra. A casa pastoral está muito suscetível a isso por causa dessa falta de compreensão de humanidade. É uma casa como as outras, com o grande desafio de dirigir a igreja, mas é preciso que haja esse aconchego familiar e esse espaço de ser gente.

E como é ver seu livro agora ganhando uma versão em ebook e podendo alcançar muito mais gente?
Eu desisti do livro depois de dez anos que recebi aquelas histórias, mas, há uns quatro anos, comecei a receber emails para publicar o livro e Deus me deu um direcionamento pastoral. Ao final de cada capítulo do livro tem um questionário para que haja o diálogo. Estou fechando um ciclo no Rio de Janeiro. Cheguei em 1997, realizei o sonho de publicar o livro e estou voltando para o Nordeste, na Paraíba. Estou muito esperançosa de que esse livro chegue muito longe nas mãos de todos os membros e amigos de filhos de pastores para que essa corrente de revitalização das relações da casa pastoral aconteça e também na das outras famílias da igreja. Nós somos uma comunidade onde Jesus é o centro e tudo tem que fluir com graça e precisamos ser felizes entre nós com Jesus Cristo.

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