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Covid 19: Médica em Nova York explica pandemia

"Por hora, sugere-se que o uso da Cloroquina seja avaliado "caso-a-caso", num contexto hospitalar, e jamais como auto-medicação", analisa a infectologista Ana Rute Muradas

Virgínia Martin - 22/05/2020 12h35 | atualizado em 22/05/2020 12h57

A médica trabalha nos Estados Unidos há cinco anos

Em pleno epicentro da pandemia nos Estados Unidos, lá está Ana Rute Bloch Muradas trabalhando no Metropolitan Hospital em Manhattan, na cidade de Nova York, onde vem refazendo residência médica em pediatria. Até a produção desta entrevista, os Estados Unidos já contabilizam 94.661 falecimentos desde o início da pandemia.

E a médica Ana Rute vem acompanhando toda a luta contra a Covid 19, exatamente na região mais afetada pelo vírus. Especializada em Infectologia Pediátrica, doutora Ana Rute vive em solo americano há cinco anos. É casada com Asaph Muradas, filho de Atilano Muradas, grande compositor e cantor de música cristã no Brasil.

A missão de Ana Rute não é nada fácil. Além de médica, ela tem formação em Teologia Livre. Procurada pelo Pleno.News, a médica de uma entrevista com informações diretas de sua base de trabalho. Ela conta que precisou passar por cinco dias de férias, a fim de se recuperar e se fortalecer das desgastantes horas de atuação no hospital.

A infectologista Ana Rute teve que tirar poucos dias de férias para se fortalecer para o trabalho

Como médica ativa no trabalho do hospital em Manhattan, Nova York, a cidade com maior número de infectados nos Estados Unidos, o que observou sobre o que deu certo e o que não deu certo no combate ao Covid 19?
Apesar de polêmico, o isolamento social foi fundamental para reduzir o número de casos e, principalmente, de óbitos. Inicialmente, Nova York não estava considerando o fechamento da cidade (comércio, pontos turísticos, parques). Mas o número de casos chegou a crescer tão rapidamente que pessoas chegavam às dezenas e centenas aos hospitais, sem condições para atendê-las. Muitos óbitos ocorreram nesse período por falta de condições adequadas de atendimento.

Com o fechamento da cidade e a ordem expressa para que todos ficassem em casa, o número de casos cresceu num ritmo mais lento, permitindo que os hospitais se organizassem para atender os pacientes.

Como ponto negativo, com certeza, a cidade não estava preparada para uma pandemia como essa. Faltaram equipamentos de proteção individual, respiradores, e leitos de hospital no primeiro mês. Considero que não foi “levado a serio” a ameaça vinda do Oriente, e a reação foi somente quando o problema já era uma realidade.

Fale um pouco sobre o sistema de saúde da cidade. Enquanto no Brasil temos o SUS, como funciona entre os nova-iorquinos? É verdade que há bairros, como o Bronx, cuja taxa de infecção é o dobro da de Manhattan?

O sistema de saúde dos EUA, de modo geral, é baseado em convênios particulares. As pessoas contratam o “seguro de saúde” particular ou pelas empresas onde trabalham. O sistema público de saúde é escasso, embora mais presente em Nova York do que nas demais cidades e estados do pais.

Na cidade de Nova York existe uma rede de hospitais públicos que atendem as pessoas que não têm convênio médico, e ainda atendem as pessoas que moram ilegalmente no país, o que é muito importante para a região. O tratamento não é gratuito, porém. A conta (que é geralmente cara) pode ser paga a longo prazo, parcelada em muitas vezes, permitindo a acessibilidade. Idosos americanos e crianças nascidas no país também têm acesso ao plano de saúde do governo, que concede atendimento gratuito a esses grupos.

Nova York não estava preparada para uma pandemia como essa. Faltaram equipamentos de proteção individual, respiradores e leitos de hospital no primeiro mês

Manhattan é a área mais “nobre” da cidade de Nova York. Áreas como Bronx e Queens foram mais afetadas, principalmente, por serem os locais onde mora a maioria dos trabalhadores das fábricas, das construções e até mesmo do sistema de saúde da cidade.

Você é médica pediatra. O que tem a dizer sobre o aumento de uma síndrome que tem afetado crianças e que cientistas acreditam estar ligada ao novo coronavírus? Até agora foram identificados 38 casos de inflamação pediátrica. O que está acontecendo?

Até a presente data, cerca de 100 casos foram diagnosticados em todo os Estados Unidos como Síndrome Pediátrica Inflamatória Multi-sistêmica Secundária ao coronavírus, com três possíveis mortes em Nova York. Essa síndrome consiste em uma resposta imunológica exagerada. Ou seja, o sistema de defesa e de inflamação da criança afetada pelo coronavírus desenvolve uma super reação à doença, muito além do esperado, e acaba afetando os próprios órgãos, principalmente, o coração.

100 casos foram diagnosticados em todo os EUA como Síndrome Pediátrica Inflamatória Multi-sistêmica Secundária ao coronavírus

A síndrome é semelhante a outra já conhecida da classe médica, que é o Kawasaki, também secundária a um processo pós-infeccioso. É uma manifestação extremamente rara, mas que pode ser fatal, se não tratada a tempo. Os pais ou responsáveis têm que procurar atendimento médico imediatamente se a criança, que teve coronavírus nas últimas duas semanas, ou está com sintomas, apresenta, além da febre, importante dor abdominal e vômitos, erupção cutânea e/ou “cansaço” para respirar. Por enquanto, não se sabe exatamente o que desencadeia essa reação, e talvez algum fator genético esteja associado.

“O ideal é o isolamento social para que o número de pessoas doentes que dependam de atendimento hospitalar não ultrapasse a capacidade do sistema de saúde brasileiro”

Sendo profissional da saúde, como tem avaliado as ações do prefeito da cidade, Bill de Blasio?

O prefeito tem agido em conjunto com o governador Cuomo. Essa ação conjunta, a meu ver, tem tido bons resultados. Hospitais de campanha foram rapidamente montados, as vagas dos hospitais já existentes foram otimizadas, de modo a expandir a capacidade hospitalar. E os equipamentos foram comprados para suprir a falta inicial (sim, o início foi complicado, como já mencionei). A cidade de Nova York também tem fornecido refeições diárias para pessoas com necessidade, e para as crianças que não estão tendo aula (e que antes dependiam da refeição na escola). Também providencia creche/escola para os filhos dos profissionais de saúde, alem de outros incentivos.

Número de casos chegou a crescer tão rapidamente que pessoas chegavam às dezenas e centenas aos hospitais, sem condições para atendê-las

Em sua opinião, o Brasil está tomando as medidas corretas no combate à contaminação?

É difícil opinar do ponto de vista político e econômico. Como médica, com minha visão de infectologia, afirmo que o ideal é o isolamento social para que o número de pessoas doentes que dependam de atendimento hospitalar não ultrapasse a capacidade do sistema de saúde brasileiro. No entanto, os efeitos econômicos e/ou a melhor maneira de realizar isso caberia aos governantes.

“Por hora, sugere-se que o uso da Cloroquina seja avaliado “caso-a-caso”, num contexto hospitalar, e jamais como auto-medicação”

Como avalia as ações do sistema de saúde brasileiro com relação a testagem, tratamento hospitalar, equipamentos e isolamento social?

A testagem pode ser feita por amostra, ou seja, testar toda a população para identificar os casos assintomáticos, e, assim, fazer uma estatística a nível populacional. Mas a testagem também pode ser somente dos casos doentes para confirmar o diagnóstico. O Brasil tem optado, na maioria das cidades, pela segunda opção, o que não está errado. E era exatamente o que Nova York estava fazendo a princípio. Essa testagem, porém, não fornece o número total da população infectada e faz com que, estatisticamente, a mortalidade seja porcentualmente maior.

Quanto a vagas hospitalares e disponibilidade de equipamentos, o fato é que é difícil prever o número exato a ser utilizado, e ninguém tem “estoque” de leitos de CTI (nem aqui, nem no Brasil). Acho que o governo tem tentado socorrer na medida do possível, mas o sistema de saúde brasileiro é frágil por uma série de motivos.

“Mas eu realmente não creio que as vacinas estarão disponíveis para o público antes do meio do próximo ano”

Com o desenvolvimento do trabalho de cientistas dos EUA e de todo o mundo, acha que a vacina tão esperada contra o Covid 19 tem alguma perspectiva de ser concluída ainda este ano de 2020? Como está o andamento das pesquisas?

Toda vacina, para ser produzida, passa por etapas científicas e éticas obrigatórias, o que leva um tempo. Quando existe uma pandemia, algumas etapas podem ser simplificadas, reduzidas, e é o que se está fazendo com as pesquisas para tratamento e vacinas do Coronavírus. No entanto, ainda assim, faz-se necessário um tempo para confirmação da eficácia e segurança. Algumas empresas americanas e europeias estão anunciando vacinas em fase de teste, mas eu realmente não creio que estarão disponíveis para o público antes do meio do próximo ano.

No Brasil, temos uma grande polêmica sobre o uso da cloroquina como medicamento para tratamento da Covid 19. Há divisão de opiniões e uma crise política advinda dos possíveis perigos que a medicação pode apresentar com os efeitos colaterais. Qual a sua opinião?

Como já mencionado, em situações de pandemia, abre-se exceção para uso de tratamentos ainda não protocolados ou não bem estudados para aquele uso. É o que está acontecendo com a Cloroquina/Hidroxicloroquina. Essa é uma medicação usada há tempos para tratamentos de malaria e de doenças reumatológicas e, em laboratório, teve efeito em reduzir a replicação do Coronavírus.

Testes adequados em pacientes, porém, não foram feitos e a droga começou a ser usada sem protocolos adequados aqui nos EUA. Constatou-se que os efeitos colaterais, principalmente cardíacos, eram sérios e até mesmo fatais, de modo que alguns centros científicos chegaram a recomendar o “não uso” da droga. Recentemente, alguns estudos adequadamente elaborados (“clinical trials”) foram iniciados, mas levará um tempo para termos as respostas. Por hora, sugere-se que o uso da Cloroquina seja avaliado “caso-a-caso”, num contexto hospitalar, e jamais como auto-medicação

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