Sandra Terena luta contra a desinformação

Mãe, indígena e jornalista, a secretária nacional ajudou a denunciar o infanticídio nas aldeias

Virgínia Martin - 12/06/2019 10h01

Sandra Terena é a primeira indígena a ocupar a Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial. Aos 37 anos, essa curitibana já sentiu na pele os efeitos da discriminação e do preconceito. Algo que ela acredita ser fruto da falta de informação.

Como forma de reverter essa situação, Sandra se formou em Jornalismo e sempre atuou por causas sociais, principalmente na luta para desmistificar a questão do infanticídio, prática que acontece em algumas aldeias indígenas do Brasil. Evangélica, casada há 13 anos com Oswaldo, Sandra Terena é mãe de três filhos com idades entre 4 e 11 anos. E, em entrevista ao Pleno.News em Brasília, ela contou um pouco sobre sua trajetória e sua luta para mudar a realidade de seu povo e promover igualdade ente várias raças brasileiras.

Como vivenciou seu DNA indígena na infância?
Meu pai nasceu em uma aldeia de Icatu, no interior de São Paulo. Mas ele queria uma condição de vida um pouco melhor e assim decidiu se mudar para Curitiba, onde nasci. Apesar de eu morar na cidade, passei minha infância inteira morando na aldeia. Sempre tive noção dessas duas realidades (cidade e aldeia) muito diferentes e importantes na minha formação, seja na minha identidade, seja na minha percepção de mundo. Sempre me senti melhor na aldeia porque não tinha essa questão da discriminação que eu sofria na cidade. É complicado ser criança e passar por situações de preconceito.

Mas que tipo de discriminação?
Acredito que a discriminação acontece por falta de informação. Quando eu era criança, aos seis anos, passei por situações em que muitas pessoas riam de mim por eu ser indígena ou porque meu pai veio de uma aldeia. Percebi que aquilo não era normal, mas não entendia a razão. Eu via que estava em uma situação de constrangimento. Com o passar do tempo, a gente vai se formando, vai estudando e a gente vai percebendo que, de fato, trata-se de uma situação de preconceito. Infelizmente, as pessoas ainda têm essa percepção. O combate não cabe apenas ao governo, mas à sociedade que deve se mobilizar para mostrar que nosso país é pluriétnico. Tanto é que, trazendo para o contexto da nossa Secretaria, no início ela tinha um trabalho muito forte na questão do racismo contra negros. Mas cada vez mais vem ampliando sua ação para abordar a multiplicidade de raças que existe no país.

A prioridade continua sendo a população negra?
Continua sendo, porém, abrindo o leque de atuação para o segmento étnico racial. Porque hoje, no Brasil, temos ciganos, indígenas, os povos que são invisibilizados, que são segmentos que a população desconhece. Eles se tornam invisíveis, como se não existissem.

Então, o trabalho da Secretaria é muito mais amplo e rico?
Sim. É amplo. A gente tem que fazer conhecidas e respeitadas as especificidades dessas diversas comunidades. É preciso que a sociedade entenda que elas também têm voz, direito a participação. São 27 povos com quem a gente trabalha e muitos deles ainda são novidade para muitas pessoas. Alguns são: os catadores de flores sempre-vivas, as quebradeiras de coco babaçu, os pomeranos. Estas comunidades são invisibilizadas, são tornadas invisíveis dentro do contexto brasileiro. Por isso, trabalhamos com o que é pluriétnico.

Quando você desenvolveu o desejo de contribuir contra essa discriminação?
Sempre tive claro que, por mais que eu vivesse parcialmente na cidade, nunca me identifiquei totalmente com ela. Eu era vista de uma forma diferente. E isso acontecia também com meus parentes. Essa questão da ancestralidade é algo muito marcante. Eu gostava de várias profissões, mas via no Jornalismo uma ferramenta muito importante no sentido de quebrar esse estigma, dando essa visibilidade com o recorte correto. Por meio da comunicação, posso ter uma ferramenta no combate à desinformação e dar voz para quem, até então, não tinha. Esse foi um dos fatores primordiais que me levou a trabalhar com comunicação.

Quando a gente fala de indígena no Brasil, infelizmente, muitas pessoas ainda têm uma ideia deturpada. Quando se fala em Dia do Índio, a criança vai para a escola e volta com uma tiara com penas. Existe o caso de uma menina que foi em uma aldeia afastada de Curitiba, olhou em volta e perguntou onde estavam os índios. Mas eles estavam em volta dela, usando casaco, calça e calçados. Na concepção que ela recebeu, eles deveriam estar como nos livros da escola. Só que a cultura muda. Se você está em um ambiente mais urbanizado, que tem um pouco mais de conhecimento, então, é normal que as comunidades se adequem a isso, mesmo que não percam suas origens e suas características.

Evangélica, Sandra foi responsável por trazer o tema do infanticídio nas tribos para a luz

E por isso você se tonou jornalista?
Eu sempre gostei de estudar, o que me ajudou bastante. Eu fiz Jornalismo por meio de uma bolsa de estudo. Naquela época, a Funai tinha uma parceria de subsidiar os estudos dos estudantes. Não é fácil porque uma universidade particular tem outro padrão. As pessoas ali tem um nível intelectual e financeiro muito mais elevados. Mas sempre fui uma pessoa esforçada e estudiosa e minha família me ajudou muito nesse sentido. Até a questão do deslocamento era complicada porque eu morava na extremidade da cidade e tinha que pegar cinco ônibus. Mas conclui o curso e ainda tirei uma boa nota no meu TCC com um tema sobre fotografia.

A comunicação chama muito minha atenção. E gosto muito da parte das imagens. A comunicação visual e audiovisual são as áreas que mais me fascinam. Acredito que uma boa imagem toca o coração das pessoas. Fiz um trabalho muito legal mostrando o dia-a-dia da comunidade Guarani no litoral do Paraná. E em minha pós-graduação fiz um documentário sobre essa comunidade.

E como a ministra Damares Alves te conheceu?
Vi que tinha um problema muito grande em algumas aldeias que é a prática do infanticídio. Era um problema complicado e bem delicado e foi aí que surgiu a ideia de fazer o documentário Quebrando o Silêncio para trazer voz a um tema que era tabu. Entrevistamos vários indígenas e também mostramos que é um assunto muito doloroso. E como eu tenho uma filha, me senti na obrigação de abordar o tema. Muitas mães não queriam sacrificar seus filhos. Por isso, não podia me calar diante dessa temática.

Eu, como mãe, indígena e jornalista, tinha que fazer alguma coisa. E esse documentário teve uma repercussão muito positiva e comoveu muito a sociedade com uma boa abertura nas aldeias. Apesar do tema polêmico, lançamos esse documentário no Xingu em um evento para mulheres. Elas, naquele momento, sentiram necessidade de estarem ocupando seu lugar de voz e participando das decisões na aldeia. Também participei de exibições em faculdades, debates e levantei a bandeira. Foi algo natural e vi ali uma oportunidade de fazer alguma coisa.

O filme recebeu dois prêmios: Prêmio Voluntariado Transformador, na categoria Redução da Mortalidade Infantil, e o prêmio internacional Jovem da Paz, na categoria Comunicação. Foi algo que selou ainda mais essa bandeira. Também fui convidada a participar de audiência pública na Câmara dos Deputados e também no Senado Federal. Entre essas idas e vindas, conheci a ministra Damares, uma grande defensora dos Direitos Humanos. E aí somamos forças nessa luta, entre tantas que a ministra defendia.

Conseguiu se adequar a essa nova realidade morando em Brasília?
Minha casa é praticamente uma aldeia com uma família grande. A gente tem uma área verde, que é fundamental. É difícil eu conseguir me adaptar em apartamento. Tenho a necessidade de pôr o pé na terra, nas plantas. Sou muito ligada à natureza.

Qual foi o maior desafio para que o povo brasileiro abraçasse essa luta pela igualdade racial?
Como eu disse, a gente já veio com um objetivo diferenciado. Eu procurei me atentar a todo funcionamento da secretaria e não tinha noção de quais seriam os desafios nem tinha muita percepção de quais seriam os principais problemas para enfrentar. Creio que o grande desafio é passar para as pessoas que nosso país é pluriétnico. Tudo é um processo de construção. Inclusive, está no nosso plano de comunicação não só gerar pautas, mas também trazer mais detalhes e informações sobre esses povos. A gente está em um novo momento no Brasil de fazer a inclusão real e já começar pela comunicação.

E assim, vamos implementar políticas públicas. Uma delas é fortalecer o empreendedorismo das mulheres de matriz africana e das quilombolas ou os problemas relacionados à saúde das mulheres quilombolas e de que forma aquelas comunidades precisam de apoio em relação a saúde e educação. Infelizmente, no Brasil, temos vários problemas que afetam a mulher. Estamos trazendo esse recorte étnico racial com suas demandas, mas priorizando as características daquela determinada comunidade. Como a ministra sempre tem dito: Direitos Humanos é para todos. Inclusive, a gente tem que pensar nesses povos que têm características, modos de vida, cultura própria, e que também passam por dificuldades.

Ainda existe resistência ao trabalho missionário entre os índios?
Ainda existe, porém, vejo que o governo está com uma proposta que vai muito mais além. É verdade que existem aquelas organizações que realmente são comprometidas e têm interesse em fazer um trabalho sério, mas tem as que usam as comunidades indígenas com massa de manobra. É importante que o governo faça esse filtro e, independente da religião, veja o comprometimento com a verdade.

Estamos em um novo tempo e nossa proposta é trabalhar na inclusão de todos os segmentos que compõem a nossa sociedade que é tão pluriétnica e tem uma riqueza tão grande. É importante darmos esse resgate no sentido de valorizar o nosso povo. É importante a gente somar os esforços, trabalhar e oferecer uma condição mais digna a todos e promover os direitos humanos.

 

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