Álvaro Dias: ‘Incompetência e corrupção arrasaram o Brasil’

Em entrevista exclusiva, o pré-candidato à Presidência conta suas histórias e fala de suas convicções

Virgínia Martin - 09/04/2018 18h25

Na sede da redação do Pleno.News, Álvaro Dias sente-se a vontade diante do gravador, toma um café e, sem pressa, fala de suas histórias e de suas convicções. Seu nome acaba de ser confirmado na lista dos pré-candidatos à Presidência.

O garoto que nasceu em uma fazenda no interior do estado de São Paulo, cresceu ouvindo da família: “Na casa desse homem, quem não trabalha não come”. E passou a trabalhar na lavoura. Ao todo, vivia entre nove irmãos.

Há mais de quatro décadas na atuação política, o atual senador (Podemos) passou pelos cargos de vereador, deputado estadual e governador do Paraná, estado onde constituiu formação acadêmica, carreira e família. Já foi presidente de Centro Acadêmico e radialista. Hoje se diz portador de um “sincericídio” porque pode cometer suicídio político por ser extremamente sincero.

De formação católica, Álvaro Dias quase se tornou padre, já que estudou em seminário teológico (Arquidiocesano São José – Botucatu, São Paulo) durante dois anos. Tem quatro filhos e cinco netos e a religiosidade permaneceu. Atualmente em seu terceiro mandato, o senador enfatiza que sua maior luta é contra a corrupção e responde algumas questões nesta entrevista exclusiva.

Governo no Paraná
Fui governador em um tempo de crise. A inflação era mais de 80% ao mês. Mas terminamos o governo com 93% de aprovação, segundo o Datafolha. E na última eleição para senador, obtive quase 80% dos votos, disputando com oito candidatos do Paraná, resultado de minha administração. Agora assumi a responsabilidade de disputar a Presidência da República para aplicar a longa experiência adquirida.

Prioridade de governo
Desde o início foi combater esse sistema de governança que é corrupto e incompetente, que é essa fábrica de escândalos. Eu digo que é uma matriz de governos incompetentes que foi instalado em Brasília e transplantado para estados e municípios. A distribuição de incompetência e de corrupção pelo Brasil arrasou o país. Precisamos da “refundação” da República.

Foro privilegiado
Para explicar isso, basta dizer que trata-se de um privilégio que as autoridades têm. Se são mais de 50 mil autoridades – para serem julgadas só no Supremo Tribunal Federal, que só tem 11 ministros – não há julgamento nem condenação. Só impunidade. O fim desse foro privilegiado é fundamental para que possamos ter uma nova justiça no Brasil, onde todos seremos iguais perante a lei.

Por que eu, como senador, tenho que ter esse privilégio? Então, o projeto foi aprovado no Senado e está na Câmara desde junho do ano passado. E, agora, por causa do decreto de intervenção, não pode ser votado. Só pode ser votado no ano que vem.

Álvaro Dias na redação do Pleno.News Foto: Virgínia Martin

Auxílio moradia e aposentadoria
Eu deixei o governo do Paraná no dia 15 de março de 1991. Lá se foram 27 anos. Desde então, renuncio ao recebimento de uma aposentadoria de 33 mil reais por mês, que é o teto de salários. Ou seja, atualmente já seriam mais de 11 milhões de reais na soma. Não recebi nenhum centavo. Abri mão por respeito à população a fim de retribuir a confiança que recebo do povo do meu estado. Então, esse dinheiro fica nos cofres públicos. Eu sou o único ex-governador do Paraná que não recebe. As viúvas também recebem. Portanto, para ter autoridade para combater o fim dos privilégios, tenho que abrir mão dos meus.

Também abri mão do auxílio moradia, há mais de 10 anos no Senado, no valor de 5.500 reais por mês. Não moro em apartamento do governo, mas em um flat que eu mesmo pago. Abri mão de 15 mil reais por mês da verba indenizatória, usada para sustentar escritório no estado, despesas de restaurante, viagem, transporte, gasolina.

O Brasil vive um momento de grave crise financeira. Há pessoas desempregadas. Temos 52 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no país. Como posso, por ser autoridade, ter esses privilégios?

Outros rendimentos
Tenho uma família que recebeu uma herança do meu pai, que foi agricultor a vida inteira. Desenvolvemos atividades dentro do ramo de agronegócio e do setor imobiliário. Meus filhos trabalham e eu fiz essa opção pessoal pela Política.

Como o brasileiro se tornará menos corruptível sem ver exemplos dos líderes
O Brasil é uma sociedade em movimento. Vejo no inconsciente coletivo um desejo de mudança, porque o país afundou em um oceano de dificuldades. E essa mudança tem que começar no andar de cima, pelas autoridades.

Ou nós mudamos ou continuaremos assistindo à Nação envelhecer na pobreza. Só que Deus foi generoso conosco. Temos potencialidades econômicas incríveis que bem exploradas, bem administradas, farão com que este país se desenvolva. E, farão, também, com que a população possa ter melhor qualidade de vida com mais oportunidades para exercitar a cidadania na sua plenitude.

No entanto, 66% dos nordestinos vivem com menos de um salário mínimo. Temos 20 milhões de pessoas que sobrevivem com até 140 reais por mês e nove milhões de pessoas, que é uma Suíça inteira, sobrevivem com até 70 reais por mês. Mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso ao tratamento de esgoto, 35 milhões não têm acesso a água tratada. Nós temos que mudar isso.

Sua fala para o brasileiro que hoje não tem emprego, não tem casa e não tem o que comer
Dizer o seguinte: Não jogue a toalha. Eu repetiria aquela canção do Raul Seixas: “Tenha fé na vida, tenha fé em Deus e tente outra vez”. É preciso acreditar em alguém. Tenho me exposto para que as pessoas conheçam o meu passado, o que eu fiz como governador e o que posso fazer como presidente, buscando ressuscitar essa esperança.

Acredito que é possível, porque Deus foi generoso com o Brasil. Ofereceu um solo fértil, riquezas naturais extraordinárias, 12 mil rios que cortam o nosso solo. Cerca de 40 % da nossa área agricultável ainda não está sendo explorada, ainda está sendo plantada. Então, temos todas as possibilidades de transformar este país.

Ações no governo
Em 100 dias de governo você tem que apresentar as propostas de mudanças e aprová-las no Congresso. Seria a reforma do Estado, que é a redução. Vamos reduzir pela metade o número de ministérios, vamos privatizar as empresas estatais – que são 149. Cerca de 30% dessas empresas foram criadas durante os governos do PT e muitas delas existem como cabide de emprego.

Haverá redução desses gastos com a manutenção dessas estruturas que são perfeitamente dispensáveis. Vamos reduzir o Senado em um terço, reduzir a Câmara dos Deputados em cerca de 25% e, proporcionalmente, assembleias e câmaras de vereadores. Teremos um Legislativo mais enxuto, mais econômico e mais qualificado. E vamos acabar com esses privilégios de auxílio moradia, e com todos esses penduricalhos prejudiciais.

Segurança pública
Temos uma má gestão na solução de crimes, temos impunidade. E precisamos fazer todas essas reformas a fim de colocar mais dinheiro no caixa do governo. A verba deve ser utilizada no sistema de segurança, equipando o estado brasileiro, instrumentalizando as nossas polícias, estabelecendo uma interação entre elas.

Intervenção militar no RJ
Não é a solução. Aliás, o Exército no Rio é a confissão da impotência do governo, que confessa sua incapacidade, resultado também da corrupção, do despreparo dos governantes dos últimos tempos. Uma das funções do Exército é cuidar de nossas fronteiras. Isso é constitucional. E não ficar nas ruas do Rio.

Intervenção militar no Rio de Janeiro Foto: Agência Brasil/Tânia Rêgo

Desânimo do brasileiro para votar
Mas acho que o brasileiro vai votar. Ele vai entender que é preciso votar para combater a corrupção, separar o joio do trigo. Porque não dá para generalizar. Existem pessoas boas na Política. Gente na atividade pública que deve ser valorizada. Não podemos jogar todos no mesmo lamaçal da corrupção.

Os que praticam a corrupção querem colocar todos como se fôssemos iguais. Só que não somos. Eu recebi uma homenagem da Polícia Federal, em Belo Horizonte, em que ouvi o discurso: “A política no Brasil apodreceu. Mas nós temos a obrigação de separar o joio do trigo. E essa homenagem tem esse objetivo: demonstrar que existe trigo na lavoura da política brasileira, não apenas joio”.

Essa distinção é essencial. Caso contrário, não teremos esperança. Não há como reabilitar a fé das pessoas, redescobrir as esperanças, se não acreditarmos nas pessoas de bem. O bom jornalista, por exemplo, é aquele que separa a notícia falsa da verdadeira. E assim, é necessário ter discernimento para semear um bem para o país e reabilitar as esperanças do nosso povo de um futuro melhor.

Educação
Fui relator do Plano Nacional de Educação – Metas Para 20 Anos. Fiz 103 emendas, 50 foram aprovadas. A de Responsabilidade Educacional, por exemplo, não foi aprovada. Eu pretendia impor responsabilização, ou seja, punição ao agente público que não cumprisse as metas estabelecidas nesse plano. A principal meta é repassar 10% do Produto Interno Bruto (PIB) de tudo o que se produz no país para a educação. Hoje são aplicados 6%. Seria um aumento de 4%.

Teríamos recursos para atender melhor os professores, com melhores salários. Uma das metas é fazer com que até o quinto ano do plano nacional, os professores tivessem recebendo salários equivalentes aos de seus colegas acadêmicos. Mas o plano nacional ficou no papel. O governo não o executa. Se tivermos um governo para executar, teremos mudanças.

A gente percebe a figura da escola deteriorada, apedrejada. Matérias essenciais são precárias com baixo percentual de aproveitamento, o que demonstra a fragilidade do ensino. E temos que ter uma escola na qual as pessoas são estimuladas a refletir. É preciso formar pensadores.

Saúde
O governo não assumiu a sua responsabilidade. Os municípios são obrigados a aplicar, muitas vezes, até 35% do orçamento porque o Governo Federal não aparece com o seu percentual. Cada estado tem o seu percentual. E lutamos tanto no Congresso para que o governo assumisse a emenda 29, para que o governo assumisse a sua responsabilidade e ele não assumiu. Transferiu os encargos, a manutenção da saúde pública, mas não transferiu os recursos. Então, temos que começar com uma reforma do sistema federativo para redistribuir melhor os recursos arrecadados. Até sabemos que esse sistema, o SUS, é um bom sistema, mas que está totalmente deteriorado por falta de gestão. Não há gestão competente, não há planejamento e há muita corrupção.

Bolsa Família
São programas sociais necessários diante da pobreza. Mas precisam apresentar uma porta de saída para quem deseja sair para o mercado de trabalho. Eu tenho, por exemplo, um projeto que estabelece: a empresa que contratar um usuário do Bolsa Família desconta do imposto que paga o valor do Bolsa Família. E este que aceita esse emprego passa a ter prioridade nos programas de qualificação de mão de obra mantidos pelo governo. Então, certamente, ele passará a ganhar mais que o Bolsa Família e se sentirá um cidadão exercendo a cidadania na sua plenitude, ganhando o seu dinheiro. Brasileiros não querem essa comodidade do ócio. Querem ter a oportunidade de trabalhar, de crescer… A obrigação do Governo, nesse caso, é oferecer oportunidades.

Sistema penitenciário
É um caos. O sistema penitenciário do Paraná era o melhor do Brasil, mas assim mesmo não era adequado ainda. Lá era fundamental fazer o presidiário trabalhar. Gosto muito desse sistema que se chama APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), em que os presos de bom comportamento são transferidos e ficam sob a responsabilidade do Ministério Público e da Justiça. Podem ficar em regime fechado, trabalhando no próprio local ou em regime semiaberto. Em regime fechado, as empresas oferecem trabalho. Eles trabalham internamente e também estudam para reduzir a pena. Isso tem dado certo. Começou em Minas, tem no Paraná e em algumas cidades.

A redução do custo é incrível. Cada preso custa menos da metade do que custa nesse sistema penitenciário atual. Então, essa é uma saída para o sistema penitenciário brasileiro. Agora é necessário julgar os que precisam ser julgados. E não é possível colocar presos de crimes leves com presos de crimes hediondos. Essa mistura não faz bem.

Maior deficit do país
A empregabilidade. Temos 50 milhões de brasileiros analfabetos ou semianalfabetos. Esse é um deficit incrível. Mas o do emprego ainda é o primeiro deficit. O desemprego não representa esses 14 milhões contabilizados se temos 52 milhões abaixo da linha da pobreza, que não devem estar empregados. Podem até estar subempregados. Se nós temos 30 milhões de brasileiros com carteira assinada, e o restante? Podem estar na informalidade, fazendo um bico aqui, um bico ali. Isso não é emprego. Então, o principal deficit ainda é o do emprego no país.

Governo PT
Foi um desastre. Frustrou as esperanças do povo brasileiro, se aliou às ditaduras sanguinárias e corruptas do mundo e abandonou os países do Primeiro Mundo, que poderiam estabelecer uma relação comercial proveitosa para o Brasil. Abriu portas para a corrupção, aparelhou o estado, loteou os cargos públicos, dividiu esse latifúndio entre os cúmplices, os coniventes, os coadjuvantes. Incompetência total.

Desqualificou o governo, puxou para baixo a qualidade, porque as nomeações eram feitas por partidos políticos com o objetivo de buscar dinheiro para seus projetos eleitorais. E a população foi ficando em segundo plano. Desarrumaram o Brasil.

Lula durante seu discurso no último sábado Foto: EFE/Sebastião Moreira

Operação Lava Jato
Mudou o cenário, não só da política brasileira, mas da Justiça. Passamos a ter outra Justiça, onde os “tubarões” também vão presos, os políticos também vão presos. E está funcionando. São tantos os presos. Só faltam os “colarinhos brancos” de mandato. Os que não têm mandato estão presos.

Aqui no Rio de Janeiro, o ex-governador foi preso (Sérgio Cabral), ex-presidente de Câmara (Eduardo Cunha) foi preso. Por quê? Porque estavam sem mandato. Com mandato não é condenado. Daí a importância de acabar com o foro privilegiado. Se nós não tivéssemos o foro privilegiado, a Operação Lava Jato teria se completado.

Visão de Deus nisso tudo
Deus tem que estar no comando. Não consigo planejar nada, não consigo admitir a possibilidade de mudar nada se não tiver Deus à frente. Quando fui governador do Paraná, fiz muita coisa que penso sobre como consegui fazer. Aí concluo que foi Deus que me empurrou. E continuo sendo empurrado por Ele.

Partido Podemos
É uma bandeira limpa que está sendo construída agora. Eu estou fugindo da lama. Os partidos têm sido deteriorados. E a Operação Lava Jato até chama alguns de organizações criminosas. Então, preferi algo pequeno, mas limpo, a fim de ter autoridade para falar do que acredito.

Como vê a vida
Estamos vivendo tempos difíceis. E só há uma possibilidade de superar dificuldades: com fé, com correção. Nós temos que ser corretos. O que nós plantamos, nós colhemos. Se tenho coragem de plantar a decência, vou colher resultados positivos. E, obviamente, eu tenho que ter fé. Por isso que digo que é preciso rever a fé perdida nas estradas da decepção e reabilitar as esperanças que foram sepultadas sob esses escombros da descrença em que se generalizou no Brasil, em razão da incompetência e da corrupção.

No campo da Política, esse é o raciocínio. Agora, da vida pessoal, é ter a certeza de que quem planta ventos, colhe tempestades. É preciso plantar a bondade para colher generosidade.

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