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Ter de dizer adeus

O que eu fui, não voltarei a ser nunca mais. Há um pranto não chorado à minha volta

Yvelise de Oliveira - 18/09/2018 09h42

Hoje me dei conta de que estou desaparecendo… De verdade, estou sumindo, meu corpo encolheu, estou muito magra e tenho ossos miúdos – estou me esvanecendo.

Meus olhos que tinham um brilho peculiar, que brincavam com as pessoas, sorriam para o mundo, se tornaram baços…

Devagar e lentamente vou me tornando a sombra do que fui.

Quando meu filho morreu tragicamente em um acidente de ultraleve, algo muito grande, imensuravelmente grande, desapareceu de mim. A alegria espontânea, o sorrido fácil e cascateante parou de ecoar pela casa. A menina que vivia em mim morreu…

E me dei conta que morria lentamente a cada anoitecer…

Quando olho para o céu e vejo suas cores fantásticas ao entardecer, sinto que vou indo junto com cada dia num morrer calmo e silencioso de quem perdeu a vontade de viver.

Vivo pela fé, mas morro por ela, porque já não encontro desejo em minha alma de prosseguir nessa jornada. Eu não quero atravessar essa ponte.

Quando você morreu, Benoni, apagou meu brilho – eu precisava de você para ser completa – e nem sabia. Me estilhacei por dentro, pedaços de mim ficaram por toda a parte – eu, atordoada, nunca mais consegui ficar por inteiro. A minha força interior deu a sensação errada a todos que eu estava superando tudo. Mentira, tudo mentira.

Como uma maestrina sem orquestra eu comecei a viver os dias – sonâmbula – mas ninguém parecia notar. As pessoas sempre veem o que querem ver… E eu sou convincente quando preciso ser.

Quem não me vê há algum tempo, se assusta. Estou devastada; eu sei que nada pode me restabelecer.

O que eu fui, não voltarei a ser nunca mais. Há um pranto não chorado à minha volta.

No peito, a dor me consome, os ossos, o fôlego me oprime, me estrangula, e eu me mantenho serena por fora – Ninguém sabe o que sinto.

Sofro. Sofro. Sofro. Assim como um animal ferido de morte espera por ela, eu espero também.

A cada anoitecer, quando o céu se torna lilás, amarelo, azul e violeta com uma beleza que sempre me encantou, vejo o avião caindo na lagoa e a morte levando meu filho.

Eu menti para sobreviver porque com essa dor não dá pra conviver.

Meu filho foi viajar, e acreditei, era preciso – era crer nisso ou cair no abismo – que não sei aonde iria dar. Mas mentira não dura para sempre… O véu foi se esgarçando e a verdade apareceu. Eu não tenho mais meu filho. Não, não tenho.

Um pânico absurdo toma conta de mim. Fico gelada de pavor, pregada no chão, colada na cama, como uma tábua enrijecida.

O que faço agora? Meu Deus, meu Deus, tem misericórdia de mim. Me leva, Senhor, me faz ter um sono onde adormeço e não mais acordo.

Yvelise de Oliveira é Presidente do Grupo MK de Comunicação; ela costuma escrever crônicas sobre as suas experiências e percepções a cerca da vida. Há alguns anos lançou o livro Janelas da Memória, um compilado de seu material. Atualmente está em processo de finalização de uma nova obra, Suspiros da Alma.
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