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X Natal, tempo de reflexão!

Natal, natal, natal

A demonstração de fé simples e concreta mexe com o íntimo das pessoas, não importa a crença que possam ter. A fé em Deus nos une

Yvelise de Oliveira - 19/12/2017 08h00

Houve um tempo em que Natal era, para mim, a melhor época do ano. Animada, eu fazia lista de presentes, pequenas lembranças, compradas com antecedência, porque o que importava mesmo eram os embrulhos feitos com papel colorido, fitas e uma grande dose de imaginação; que faziam com que tudo, desde a mais singela mensagem ou presente mais caro ficassem com o mesmo toque de carinho e afeto das mãos que com amor presenteavam e a alegria de todos com a beleza dos embrulhos.

No centro da sala armávamos a árvore-de-natal. Variávamos a cada ano os enfeites, toda de bolas vermelhas com lâmpadas que piscavam alternadamente: podia no ano seguinte vir toda colorida, prateada ou em elegantes laços de metal dourado.

Eu amava a festa de Natal! Da cozinha vinha um cheiro indescritível, fragrâncias múltiplas de torta de nozes, rabanadas, doces em calda, castanhas cozidas, presunto assado com abacaxi e todas as iguarias que representavam a fartura da ceia. Toda a família participava e o fato de cada convidado trazer um prato diferente fazia a mesa posta com a toalha de renda da vovó, a nossa melhor louça e os cristais estalando de limpos, ficar mais linda ao brilho das velas nos castiçais de prata antiga.

O alvoroço começava no dia 23. As compras eram feitas cedinho, tudo era escolhido com o maior cuidado: o bacalhau, herança de nosso sangue português, que aparecia também nas rabanadas, queijadinhas e nos deliciosos pastéis de Santa Clara.

No meio da mesa, nós colocávamos o nosso toque de natal brasileiro: o arranjo com frutas tropicais — abacaxis, mangas, uvas e pêssegos; o europeu se misturava ao saboroso tempero do povo que absorveu e soube adaptar uma festa que veio do inverno para nossos quarenta graus de calor, no auge do verão.

Quando começava o anoitecer do dia 24 estávamos felizes e cansados. Começava a chegar a família: meus pais, meus tios, meu irmão com os filhos e minha cunhada, nossos amigos íntimos para comemorar conosco o nascimento de Jesus.

Quando eu e meu marido nos tornamos evangélicos, líamos a Bíblia e fazíamos um culto de oração. Todos ficavam com os olhos cheios de lágrimas, um profundo respeito invadia aquele instante. Sempre a demonstração de fé simples e concreta mexe com o íntimo das pessoas, não importa a crença que possam ter. A fé em Deus nos unia.

Não sei precisar como foi ou quando foi que a festa de Natal foi se tornando algo penoso. Já não sentia a alegria infantil de antes… Talvez tenha começado com a separação de meu irmão, o lugar da minha cunhada e dos meus sobrinhos ficaram vazios. Meu irmão aparecia triste e solitário, como quem vem a um compromisso e não a uma festa.

Mamãe e minha melhor amiga morreram, tios e tias foram envelhecendo e na mesa havia cadeiras vazias demais. A noite de Natal tornou-se para mim cheia de lembranças doces, mas dolorosas.

Nunca mais armei a linda árvore-de-natal e da cozinha desapareceu o clima de animação. Receitas antigas foram engavetadas e os deliciosos aromas da ceia ficaram só na memória.

Mas como tudo na vida serve de ensinamento, deixando de ver o Natal como festa, encontrei o seu sentido exato. Passo essa noite refletindo na importância da vinda de Jesus. De como devo agradecer a Deus pelo presente maravilhoso: “porque Ele veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância”.

Yvelise de Oliveira é Presidente do Grupo MK de Comunicação; ela costuma escrever crônicas sobre as suas experiências e percepções a cerca da vida. Há alguns anos lançou o livro Janelas da Memória, um compilado de seu material. Atualmente está em processo de finalização de uma nova obra, Suspiros da Alma.
* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.
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