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Momentos de ternura

Há momentos em que não existe lugar para a gente orar, reconfortar, abraçar quem não quer falar, mas quer apenas o carinho de um ombro amigo

Yvelise de Oliveira - 31/07/2018 09h42

Quando entro para trabalhar, meu “bom-dia” é sincero. Eu quero ter um bom-dia e desejo a todos que, como eu, vão começar o dia trabalhando que o façam com amor. É realmente terrível não amarmos o nosso trabalho, quando se trabalha sem nenhum apego, só como uma necessidade imposta pela vida e não uma escolha de vida.

Faz alguns dias que noto uma angústia, um desapego, um desânimo em uma das “minhas meninas”. Digo “minhas e meus” a todos os que puxam o barco junto comigo. Não é possessividade: é carinho. É uma forma de criar elos de uma corrente de amizade e camaradagem no dia a dia, no cotidiano repetitivo e estressante que envolve trabalhar juntos.

Hoje, quando entrei, vi seus olhos, antes de tudo os olhos, espelhos que são da alma, enviarem um silencioso apelo de ajuda. Contido, reprimido, mas o coração sentiu e ouviu. Tenho horror a invadir o espaço dos outros, e, assim, não consigo perguntar: “Posso ajudar?”. Acho desrespeito perguntar sem ser consultada. Mas o olhar da mulher tão mais jovem que eu num rosto meio determinado a não demonstrar problemas me desconcertou e não sei como foi, mas ela me passou quase tudo em total silêncio.

Dificilmente lamento o que falo, lamento mais o que não falo, o que calo. Dor é uma coisa muito íntima, devemos respeitar o tempo que as pessoas precisam para falar delas. Meu coração sentiu uma aperto, uma necessidade de ajudar, mesmo sem ser convidada, coisa rara. Afinal, ela quer ser forte, precisa ser. Tem filho pequeno, tem casa, marido, e com pouco mais de 30 anos já se cobra uma postura de “eu não posso dar-me ao luxo”.

Lugar de trabalho não é lugar de terapia – eu sei que não é –, mas há momentos em que não existe lugar para a gente orar, reconfortar, abraçar quem não quer falar, mas quer apenas o carinho de um ombro amigo. São esses momentos de amizade, que hoje em dia as pessoas se permitem cada vez menos compartilhar.

A vida com suas mudanças desenvolve nas pessoas um individualismo egoísta. Cada um vive a sua vida, seus problemas. Pensar sempre em si próprio tornou-se lugar-comum. “Cada um por si” parece ser o lema da humanidade. É preciso ser vencedor, competitivo. Não há vagas para gente que não se adapte ao sistema, ao “mundo novo”. Ensinamos às nossas crianças, indiretamente, que vencer é o que conta: o vencedor leva tudo.

Assim, vejo a jovem mulher contida, polida, sentada à sua mesa de trabalho. Mas os olhos, sim, só os olhos pedem ajuda. Não vou omitir-me. Não quero. Fico feliz por restar-me, ainda, a capacidade de compreender, e, mais ainda: por sentir-me aceita. Somos agora, nesse momento, que ficará gravado para sempre dentro de nós, apenas duas mulheres. Ela corajosa, contendo o choro, mas deixando sentir o alívio que a ternura do momento vivido traz.

Ambas temos consciência de que são esses raros momentos da alma que, por instantes preciosos, fazem com que nos tornemos aquilo que Deus queria que fôssemos. Não em alguns momentos, mas sempre, a todo instante. É bom dar quando solicitado, mas é melhor ainda dar por haver compreendido.

Yvelise de Oliveira é Presidente do Grupo MK de Comunicação; ela costuma escrever crônicas sobre as suas experiências e percepções a cerca da vida. Há alguns anos lançou o livro Janelas da Memória, um compilado de seu material. Atualmente está em processo de finalização de uma nova obra, Suspiros da Alma.