Mexendo na vida

Me sacudo como um cachorro molhado, me endireito, me empino, ombros para trás, vou em frente

Yvelise de Oliveira - 23/10/2018 09h41

Andei remexendo em lugares secretos, em feridas ainda não cicatrizadas, nos escuros meandros de minha dor ainda não de todo superada.

Um arrepio me fez estremecer. Senti frio no corpo — gelei — “A morte passou por perto”, diria minha mãe.

Uma tristeza chegou e o meu brilho desapareceu — como um grande guarda-sol — toldou de repente todo o meu sol interior.

É muito difícil viver quando se sente medo, dor e saudade todo o tempo. O tempo todo.

Um desespero tomou conta de mim, um não sei para onde vou, não sei o que quero. A saudade voltou agoniando minha alma recém-composta e meu corpo se retorceu na angústia das lembranças ainda tão doídas.

São as fotos, sempre as fotos que trazem o deja vú e tudo se torna cinza, nebuloso e eu me derramo dentro de mim mesma.

Choro um choro sentido, lágrimas quentes pesadas. Só alguns instantes e me recomponho. Sei que não vou me reconfortar, sempre fico infinitamente triste quando me permito chorar.

Me sacudo como um cachorro molhado, me endireito, me empino, ombros para trás. Vamos lá: liberte-se! Continue! Tente ao menos ver o lado positivo das coisas.

Dor danada, não dá trégua, saudade, sempre saudade, sem remédio. Uma causa perdida; não tem volta.

Anestesio a minha alma, quero me livrar disso tudo. A proximidade da velhice me diz que o tempo é pouco, preciso me recuperar.

Ainda não terminei o que comecei.

Yvelise de Oliveira é Presidente do Grupo MK de Comunicação; ela costuma escrever crônicas sobre as suas experiências e percepções a cerca da vida. Há alguns anos lançou o livro Janelas da Memória, um compilado de seu material. Atualmente está em processo de finalização de uma nova obra, Suspiros da Alma.

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