CORONAVÍRUS
- Tudo o que você precisa saber
-->
Leia também:
X Sinergia social. O foco é servir!

A morte entrou pela porta e sentou na minha sala

“Essa senhora sinistra” se instalou confortavelmente. Um garrote apertou a minha alma

Yvelise de Oliveira - 14/08/2018 09h39

Dona Morte entrou pela porta da minha casa e se instalou confortavelmente em algum dos meus sofás.

“Essa senhora sinistra” começou com o meu jardim. A casa foi feita para o jardim. Toda cercada de flores coloridas, as singelas marias-sem-vergonha abraçavam tudo como em um buquê. Por dentro da casa e pelo lado de fora junto dos muros o colorido das flores, na rua, aconchegavam a frondosa amendoeira em um abraço carinhoso em frente à casa.

Mas as plantas foram morrendo sem motivo e o jardim todo florido foi ficando sem vida e sem cor… Se foi o sol, o calor, muita água, o jardineiro mesmo não sabia dizer… Mas lutei. Comprei terra adubada e centenas de mudas de maria-sem-vergonha, lilases, grama inglesa. Enfim, plantei tudo de novo, mas o jardim nunca mais foi o mesmo. Minhas orquídeas morreram aos montes no orquidário branco que fiz para cuidá-las. Amo plantas.

Indo mais fundo, Dona Morte matou minha gata Sara. A porta foi esquecida aberta e ela pulou para a casa da vizinha – morreu na hora. Os cachorros quebraram seu frágil pescocinho.

Lamentei por dias sua morte e chorei sentida a sua falta. Mas a gente não sabe o futuro e esperei sempre que tudo fosse melhorar.

Sem doença, sem nada, a mãe do meu marido, D. Margarida, morreu. Uma morte serena. Dormiu e não acordou. Sua jornada tinha acabado.

Foi uma tristeza grande. O Consolo ficou apenas na suavidade com que Dona Morte agiu. Assim que a gente começa a respirar mais aliviado, o consolo vem vindo, porque minha sogra viveu 91 anos, jovial e saudável.

Nesse ano que passou nós a vencemos quando meu marido teve um câncer e pensei que iria perdê-lo. Mas a mesma fé que o curou completamente não conseguiu tirar o medo que veio morar dentro de mim. Logo eu, tão segura, tão confiante, tão cheia de planos, passei a temer o confronto com ela: a “sinistra senhora”.

Depois passei a desconsiderá-la: “Não. Já perdi gente demais, um filho pequeno, minha mãe, meu pai, minha amiga querida. Perdas que fazem parte da vida quando se é jovem”.

Mas Dona Morte instalou-se. Minha casa grande, branca e bela tornou-se sua morada predileta.

Em um sábado de céu azul e o sol brilhando, um dia tipicamente carioca, a família se reuniu para almoçar. Na mesa, sorriso e comida farta, muito papo jogado fora. Benoni, meu filho, tinha agora um novo hobby: voar de ultraleve, um avião monomotor. Todos já tinham voado com ele: meus netos, sua esposa, meu marido e as centenas de amigos que ele, com seu jeito de menino grande e coração doce, conquistava.

Nesse sábado, ele me convidou animado:

– Vamos, mãe, vamos voar, é lindo. A gente se sente um pássaro. – Emocionava a forma como ele descrevia o voo, uma aventura única, um prazer indescritível.

Ver o Rio assim, de cima, sua cidade que ele tanto amava.

– Vou enjoar, respondi, acabei de almoçar. Vou amanhã, eu prometo.

Meu genro, um jovem homem amável e tranquilo, nada dado a aventuras perigosas disse:

– Eu vou. Vou fotografar todo o Rio, o Cristo. O dia está claro como cristal.

Meu genro era um grande fotógrafo, tinha uma visão artística peculiar de luz e sombra. Assim os dois saíram rindo felizes. O Sérgio, meu genro, com sua máquina super Nikon pendendo do pescoço. Alto, magro e sorridente como seu cunhado. Eram muito diferentes, mas tinham em comum a camaradagem.

Nesse dia claro e cheio de sol, Dona Morte resolveu dar um golpe fatal. Enquanto o dia ia findando e o sol tornava o céu rosa em tons de púrpura e lilás, meu filho foi aterrizar seu avião, pequeno, leve como um brinquedo mortal.

O vento, sim, o vento que ele tanto amava virou o avião. Caíram na lagoa e morreram os dois na mesma hora. Tantos planos, tantos sonhos, tanta juventude assim cortada, desperdiçada.

Morto meu filho, os bombeiros o tiraram da lagoa, o coloquei no meu colo. Pareceu dormir. Tão lindo.

Um garrote me apertou a alma. Uma dor assim não se limita, não se escreve, não se consegue sabotar. Perplexa, vi que era verdade… Meu filho amado, meu filho morto, em meus braços eu o embalei.

A dor é muito particular, íntima e, para mim, incurável. Não vou superar, já estou velha, cansada. Vou apenas suportar enquanto der, lutando para preservar a minha fé, manter o meu coração em Cristo, desejando que Deus permita que meu tempo aqui na Terra não seja tão longo.

Como não pude te dizer, meu Deus: “Ainda não, ainda não”.

E rogar: “Por favor, não o deixe ir agora. Não me lance nessa noite tenebrosa”.

Yvelise de Oliveira é Presidente do Grupo MK de Comunicação; ela costuma escrever crônicas sobre as suas experiências e percepções a cerca da vida. Há alguns anos lançou o livro Janelas da Memória, um compilado de seu material. Atualmente está em processo de finalização de uma nova obra, Suspiros da Alma.