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A dor de viver

Fazia tantos anos que eu não sentia mais a perda de meu filho... Livrara-me das culpas, das memórias...

Yvelise de Oliveira - 07/08/2018 09h38

Meus fantasmas saem dos seus nichos, sempre tão fechados, e voltam a me assombrar. Sem convites, sem reservas, são subitamente donos de mim. Que desespero!

Pensei que tinham partido… Ido assombrar outras almas. Afinal, sofri tudo o que tinha para sofrer ou não?

Eles chegam, se apegam aos detalhes íntimos que provocam uma dor conhecida, mas que a gente pensa que já passou, que não vai machucar mais.

A respiração fica curta e rápida, o coração dispara e sai do ritmo. Um suor gelado umedece todo o corpo que parece não ser mais meu. Abrem-se todos os porões da mente. Tudo o que não pode sair e esteve reprimido esgarça a fina teia, rompe e invade a insônia no anoitecer. Entre o sono e a insônia, esta vence.

Fico no bagaço. Sem rumo, me assusto em como posso ficar tão vulnerável; eu, que sei meus pontos fracos e os camuflo tão bem.

Tomo dois comprimidos para dormir. Não durmo. A mente comanda tudo. É preciso aceitar com serenidade que não vou vencer, pelo menos dessa vez. Vou ter que ir até o fundo do meu vale sombrio, sinistro, dos meus medos, meus segredos, minha dor. Vou atravessar o vale, não existe outra saída.

Não choro. Meus olhos pesam e sinto meu rosto escorrer para baixo como se fosse feito de massa mole. Sinto-me como se tivesse vivido toda a eternidade em uma só noite.

Respiro pausado; o sono induzido é inquieto e acordo exaurida na madrugada que nem clareou.

Lembro com ternura e agonia. As mãozinhas do meu filho, seu cheiro, seu suor, seus olhos claros – volta tudo. É um pesadelo viver outra vez tão completamente o que já não doía mais. Acho que vou parar meu coração e deixar de sentir tudo, mas ele insiste em bater descompassado.

Fico no vácuo do nada, não choro, não mexo. Eu ainda sei lidar com a dor arrasadora, mas não sou mais uma menina, sou uma senhora – me sinto a mulher mais velha do planeta.

Adormeço, acordo, nem consigo orar. Fico imóvel, tensa como uma tábua, rígida como um cadáver. Mundo duro de alentar!

Vida que não dá descanso quando quer judiar e maltratar. Só Jesus!

Ao meu lado, meu marido dorme sereno, não sei se em sonhos sente comigo ou se já conseguiu atravessar o seu vale e perdeu a rota de como se entra nele e está a salvo.

Fazia tantos anos que eu não sentia mais a perda de meu filho… Livrara-me das culpas, das memórias…

Como foi que isso aconteceu?

Deus me ajude, não sou mais sombra do que já fui.

Quem já não sentiu medo de todos os medos? Estilhaços de vida cortando a alma, memórias… Caleidoscópios de emoções, prismas de cores que a gente sabe existir mas ignora, recolhe, encolhe por dentro para nossos abismos interiores.

A madrugada rompe e a claridade invade o quarto em tênues fios de sol que entram pelas pequenas brechas da cortina. Já não é mais noite escura…

Preciso encontrar a ternura da vida. O amor, eu sei, nunca termina.

“Meu Deus, vem me abraçar… Vem me embalar, vem me cuidar…”

Segredos – quem imagina que eu sofro assim? Segredos – vou guardar tudo de novo, vou levantar, vou reagir.

Ah! Que vontade de esquecer de mim…

Viver dói, mas a gente aguenta. Com fé dá para levar…

Yvelise de Oliveira é Presidente do Grupo MK de Comunicação; ela costuma escrever crônicas sobre as suas experiências e percepções a cerca da vida. Há alguns anos lançou o livro Janelas da Memória, um compilado de seu material. Atualmente está em processo de finalização de uma nova obra, Suspiros da Alma.