Opinião Vinicius Cordeiro e Bruna Franco: O Rio de Janeiro e os jacarés

Com o crescimento da cidade é possível vivenciar situações inusitadas, como encontrar jacarés em esgotos, bueiros, canais e lagoas

Vinícius Cordeiro - 23/02/2018 11h30

O crescimento desordenado das cidades pode trazer consequências perigosas. É o que acontece no Rio de Janeiro, no Brasil, onde, com o seu habitat cada vez mais reduzido, os moradores vivem lado a lado, com alguma curiosidade e medo, com os já chamados “jacarés urbanos”, muitos da espécie jacaré-de-papo-amarelo, Caiman latirostris, ameaçado de extinção.

A cidade do Rio de Janeiro possui grande número de manguezais, rios, lagoas, uma razoável faixa costeira, e até bairros como Jacarepaguá, assim denominada pelos índios por ser a “enseada no lugar dos jacarés”. O fato é que esse animal tem a ver com a fauna e a própria história da cidade, que ainda tem os bairros do Jacaré (Zona Norte, derivado de um rio com o mesmo nome, pela presença desses animais) e o morro do Jacarezinho.

Como dissemos, com o avanço mais recente da cidade em direção à Zona Oeste contribuiu para que presenciássemos cenas insólitas de encontrar jacarés vivendo em áreas de esgoto, invadindo condomínios erguidos próximos a áreas que não foram preservadas e entregues à especulação imobiliária urbana. Entre 2014 e 2015, vários casos de avistamentos foram registrados na área do Recreio dos Bandeirantes, sobretudo no canal das Tachas, que mesmo após ganhar uma estação elevatória de esgoto, em 2010, apresenta índices altos de contaminação e poluição.

O fato é que a redução do ambiente natural dos jacarés tem forçado uma migração para o meio urbano. A presença de animais silvestres, como capivaras e garças na região tende a aumentar frente à expansão de prédios e condomínios. Eventualmente, são vistos jacarés até dentro de piscinas. Poderiam ser inclusive um atrativo turístico, como na Flórida, mas em pleno século 21, esses animais são tratados como lixo, como um estorvo, um inconveniente apenas. Se não houver uma reversão desse processo e um gerenciamento dessa população, em algum tempo, 30 ou 40 anos, o jacaré-de-papo-amarelo, e outros, podem virar uma mera referência bibliográfica.

Mas e os constantes avistamentos de jacarés no Rio de Janeiro? Eles têm sido, periodicamente, encontrados em áreas com acesso à superfície, como bueiros, canais e lagoas. De fato, alguns animais acabam vivendo nas galerias mais superficiais ou em áreas de descarga dos esgotos nos rios. Um verdadeiro absurdo! O descaso ambiental com a questão dos jacarés na cidade tem sido objeto de preocupação de algumas ONGs, ativistas ambientais e da causa animal. A Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB/RJ, inclusive, já marcou atividade para debater o problema com o Instituto Jacaré, especializado em atuar em questões envolvendo essa espécie de répteis, dia 5 de março, às 10 hs, na sede da OAB/RJ, com entrada franca e transmissão ao vivo pela TV OAB RJ. Estarão presentes ao encontro, representantes do INEA, e o Doutor em Biologia e Ecologia Ricardo Freitas Filho, presidente do Instituto, que esclarecerá detalhes sobre o problema apontando soluções e ações a serem desenvolvidas, como o chamado “Projeto Jacaré”. Para o Presidente da CPDA-OAB/RJ, o advogado Reynaldo Velloso, “a proposta é da criação de um santuário, pois existe espaço viável na própria região, para implantação do projeto”.

Afinal, registre-se, que, como outros animais silvestres, estes não devem ser alimentados aleatoriamente pela população, que deve comunicar imediatamente o seu avistamento às autoridades ambientais, que lidam com fatos como esses também em outras cidades brasileiras, como Rio Branco, no Acre, em Ilhéus, no sul da Bahia e até mesmo em grandes cidades do mundo, como Nova Iorque.

Vinicius Cordeiro é advogado, ex-Secretário de Proteção Animal do Rio de Janeiro.
Bruna Franco é ativista, dirigente da ONG ADDAMA e produtora executiva da ONG Celebridade Pet.