A pintura no cavalo e a objetificação dos animais

A coisificação ou objetificação dos animais deve ser combatida; é preciso respeitar a capacidade cognitiva e de sentir que os animais possuem

Vinícius Cordeiro - 30/07/2018 14h58

Um rumoroso episódio de maus-tratos e desrespeito foi registrado recentemente na Sociedade Hípica de Brasília. Crianças foram orientadas a usar “canetinhas” para pintar um cavalo como forma de entretenimento, em uma colônia de férias. A foto viralizou nas redes sociais e gerou críticas generalizadas por expor o animal a um alto nível de estresse, e sobre a objetificação dos animais.

A atividade, além de cruel e antididática, banaliza o abuso e a exploração de animais. “Enquanto tentamos educar as crianças para que tenhamos uma sociedade mais consciente, que saibam respeitar todas as formas de vida, nos deparamos com uma coisa absurda dessas”, desabafaram ativistas.

A Sociedade Hípica de Brasília alegou que a atividade é pedagógica e que usa a pintura em cavalos para que as crianças percam o medo desses animais. A atividade é realizada entre crianças de 3 a 14 anos com animais de comportamento “dóceis e previsíveis”.

Nas redes sociais, o caráter pedagógico da atividade foi questionado pelos internautas, e foi justamente questionado que a brincadeira desse um mau exemplo às crianças.

Cavalo foi rabiscado por crianças Foto: Arquivo pessoal

Segundo a psicopedagoga e especialista em autismo Jeana Oliveira, em entrevista publicada no portal G1, a interação entre crianças e animais é positiva, mas o uso das tintas, possivelmente, não seria necessário ou recomendado: “A interação com o animal é algo importante, prazeroso. Você começa a estabelecer vínculo, respeito aos seres vivos. O problema é usar o animal como um ‘recurso’ de pintura. Essa associação pode, sim, trazer prejuízo”, explica.

“É até meio contraditório. Eu ensino a escrever no animal, e depois ensino a lavar o animal? Como se a primeira ação fosse algo errado? A gente limpa coisas que outra pessoa vai usar, o animal não é esse tipo de acessório. A gente não ensina a bater para ensinar a pedir desculpas”, afirmou a psicopedagoga.

Após a denúncia, a Hípica foi notificada, mas os fiscais do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e do IBRAM (Instituto Brasília Ambiental) não autuaram os responsáveis, considerando a fiscalização que não houve maus-tratos.

O fato é que a argumentação pela qual não houve estresse no animal envolvido, e a naturalidade em aceitar a atividade mostram que em muitas mentes a coisificação ou objetificação dos animais deve ser combatida, e não podemos permitir algo como “festas com animais”, sob a desculpa de que isso aproxima as crianças dos bichos, enquanto que na verdade – o que é ensinado é exatamente o contrário: é a continuidade do desrespeito à vida animal, e o desprezo à senciência animal – a capacidade cognitiva e de sentir que os animais certamente possuem.

Vinicius Cordeiro é advogado, ex-Secretário de Proteção Animal do Rio de Janeiro.
Bruna Franco é ativista, dirigente da ONG ADDAMA e produtora executiva da ONG Celebridade Pet.