O grande auê que certa música causou
Vamos fazer uma análise literária da canção Auê (A fé ganhou)?
Verônica Bareicha - 05/02/2026 12h42

Posso dizer que a “grande graça” de conhecer um pouco mais sobre o nosso idioma é que isso nos possibilita entender a mensagem por trás de tudo aquilo que é comunicado a nós.
Sempre gostei de analisar livros, textos, poesias e canções. Nos últimos dias, está no hype uma canção de um grupo que tem por objetivo evangelizar de forma popular; usando estratégias e palavras que alcancem a todos. E, embora muitos já tenham falado sobre; gostaria de compartilhar minha interpretação também.
Lembrando que para fazermos uma boa análise é bom conhecermos as palavras, seus significados, mas também contextualizarmos a obra em relação aos posicionamentos do seu autor.
Segundo os autores da canção Auê, ela é um sermão baseado em Lucas 14:15-22; passagem em que há um convite para que os que estão à beira do caminho, os marginalizados e invisíveis da sociedade venham para o grande banquete com o Rei. Ou seja, recebam a graça.
Tanto que a letra da canção começa assim: “Pode entrar, eu ouvi. Alagou o olhar”. Alguém convida o outro a entrar em sua casa, e os olhos se alagam. Ou seja, enchem-se de água; quer dizer: há emoção nesse convite.
Na sequência: “Quando o lustre tá no chão”; veja bem: se esse é um convite inusitado, para uma pessoa improvável, não há luzes no chão, há um chão polido, brilhante, lindo; não um chão de casa pobre. Por isso, surge a pergunta: “Onde estão os meus?” Pra mim, o convidado chegou a um lugar nunca imaginado e questiona onde estão os seus, porque quer compartilhar o que está recebendo de bom.
O convidado continua: “Com a folha, eu aprendi como se deve cair”. Isso quer dizer, foram tantas as rasteiras da vida que aprendi a ficar no chão mesmo. Caí, levantei, caí, levantei e pronto; fiquei.
“E agora, com as mãos estendidas, você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar com minhas roupas, minhas falhas, minhas brigas”. Aqui, há um convite para se erguer: “Saia do chão. Pegue as minhas mãos e se erga novamente”. Também há um momento de aceitação: esse improvável é aceito com roupas, falhas, brigas. Isso é, eu aceito o que você traz, toda a sua bagagem. Tudo o que você acha que não cabe nesse lugar de destaque e brilhante.
Na sequência, segue-se um contracanto de auês. Segundo o dicionário Houaiss, auê quer dizer: agitação, vibração provocada por alegria, encontros felizes, comemorações; comoção que toma um indivíduo ou um grupo. Assim, depois desse convite, de choro, de recepção e acolhimento houve uma agitação; um momento de grande alegria; uma comemoração.
Então, “agora que o Zé entrou e todo mundo viu, todo mundo olhou, e todo mundo riu, ninguém se acostumou, mas o céu se abriu”. Quem é Zé? Zé é qualquer pessoa… Zé é o apelido carinhoso ou pejorativo de José, lembra? A referência é a alguém comum, alguém do povo, alguém que a princípio não seria convidado para aquele lugar bonito, muito menos seria acolhido.
Note que, o Zé entrou, todo mundo viu e riu, ninguém se acostumou… por quê? Porque Zé é um improvável. Aí, vem o detalhe: “Mas o céu se abriu”; pronto. Zé, Bill ou mesmo João foram acolhidos.
Nessa hora “agora que a fé ganhou e a Maria sambou, sua saia balançou; alguém se incomodou com a cor que ela mostrou, mas o céu coloriu”. Veja bem; depois de Zé, Bill, João, Joana, Maria e Severina terem sido recebidos as mulheres se ergueram com fé e dançaram. Sambaram. Talvez aqui, haja uma referência a Miriam – e outras mulheres com ela – tocando tamborim e dançando de alegria após a travessia do Mar Vermelho (Ex 15:20,21).
Agora há outro ponto: “Alguém se incomodou com a cor que ela mostrou; mas o céu coloriu”. Segundo o autor, aqui a referência é à cor da pele. E na sequência, “o céu se coloriu”. Deus recebe a todos nós de diferentes tribos, raças e povos, certo? Então, o céu é colorido sim.
E aí, vem: “Auê, dança na ciranda da fé…” alegria, contentamento, explosão de felicidade, e as pessoas dançam. Dançam como? Na ciranda; numa grande roda. Essa dança remete às danças antigas; judeus e mulçumanos comemoram dançando em roda assim até hoje; por exemplo.
Mas há um detalhe: crianças também dançam e brincam de roda. Certo? É o que a canção diz a seguir: “Solta tua criança até explodir em glória”. Vejo aqui uma referência a “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3-6). A criança dentro do Zé, Bill, Maria ou Joana “explode”, ou seja, vem à tona sua inocência e juízo de valor até explodir… até encontrar a Glória.
O que muita gente boa questiona ainda são os termos “auê” e “emolêbamemoê”. Auê, eu já expliquei e emolêbamemoê pode ser apenas um som para “rimar”. Há quem diga que o termo vem de religiões de matriz afro; particularmente, desconheço.
Outro ponto que tem causado controvérsia é não ter claramente o nome de Deus, ou de Jesus, na canção. Seria bom lembrarmos que nem o livro de Cantares, nem o livro de Ester trazem o nome de Deus; e, ainda assim, foram mantidos no Cânon Sagrado por algum motivo.
De verdade, entendo a confusão sincrética que a canção trouxe. Até por causa dos elementos visuais com os quais ela foi apresentada. Mas há dois dados que quero apresentar ainda. O primeiro, é que o autor afirmou, em um podcast, que gostaria de ver o samba entrando nas igrejas. Para ele, isso não acontece porque há um embranquecimento das religiões cristãs.
E, por fim, a intérprete da canção fez um vídeo explicando a intenção da música. Uma das frases que ela diz é algo como e “se não for essa mesma a nossa intenção, de sincretizar para atrair?”
É provável que você esteja se perguntando o que quero realmente dizer com a minha análise. Respondo: não posso dizer que há ou não intenção cristã na música. A Bíblia aconselha a sermos sábios e a não julgarmos; por isso, fiz uma análise “literária da letra”; pois o que posso é compreender o que as palavras dizem. Ir além disso é sondar corações; algo que só Deus pode fazer.
E, por fim, entendo que há músicas cristãs que cantamos em casa, em festas, em espetáculos, e não obrigatoriamente dentro das igrejas. Faço parte de uma denominação muito tradicional e digo isso baseada na minha experiência. É bem provável que a sua seja diferente da minha e está tudo bem.
Então, se posso compartilhar minha opinião: pra mim, Auê, é uma dessas. Para trazer pessoas, para gerar reflexão, para acolher quem, de outra forma não seria acolhido, para quem gosta desse tipo de som ouvir e se alegrar. E se o céu se abrir, por que não?
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Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida. |











