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Janja e a falta de uso do dicionário

Porque conhecer o significado das palavras evita vexames públicos

Verônica Bareicha - 13/01/2026 11h34

Janja Foto: EFE/ Andre Borges

Se há uma dica preciosa que posso lhe dar é esta: consulte o dicionário!

Essa é uma verdade que me acompanha desde sempre. Agora, sente, que lá vem história. Prometo que vale a pena.

Meu avô foi um dos muitos europeus que ajudaram a construir este país. Vindo de uma pequena cidade da Lituânia, fugindo de guerras, fome e afins, chegou ao porto de Santos. O registro dessa entrada está lá, no Museu do Imigrante. Logo na chegada, a família “perdeu” todos os bens e foi gentilmente encaminhada ao interior de São Paulo, para trabalhar em uma fazenda.

Meu avô nunca se negou ao trabalho. Mas tinha sonhos. E queria mais; muito mais da vida. Trabalhando na lavoura, de sol a sol, começou a pensar em como poderia ir além. Logo ele, um imigrante que não dominava o idioma e enfrentava um acesso dificílimo à escola.

Foi então que decidiu fazer o que estava ao alcance dele: ler um dicionário. Palavra por palavra, para conhecer o português. E assim foi.

Só para você ter uma ideia de onde essa história chega… muitos anos depois de ele já ter falecido, fui a uma entrevista de emprego em uma grande editora. O editor-chefe, já um senhor, ao ver meu sobrenome, perguntou se eu conhecia o “sr. Jerônimo”. Disse que sim e expliquei o parentesco.

Ele então me contou, emocionado, que parte de seu sucesso profissional se devia a um hábito adquirido na adolescência, em conversas com o meu avô, de quem havia sido vizinho.

Qual hábito? Exatamente esse: consultar, conhecer e estudar o dicionário.

Corta a cena do papo sentimental e voltemos ao nosso país polarizado, pouco escolarizado e que hoje tem uma figura bastante controversa como primeira-dama. Embora a senhora em questão ostente títulos universitários, tudo indica que ela não ouviu o conselho do meu avô. Nem esse que agora repasso a você: use um dicionário.

Os erros cometidos por Janja já foram amplamente debatidos, e não é minha intenção repisá-los. Quero apenas mostrar, com a ajuda do dicionário, como estes seriam facilmente evitados se o significado das palavras fosse conhecido.

Lá no comecinho de sua trajetória pública, época de carnaval, Janja pediu à ministra da Cultura que, a partir de então, se cantasse “faraona” em vez de “faraó”, por causa do empoderamento feminino.

A crítica foi imediata. E com razão: “faraona” não existe na língua portuguesa. Nos dicionários do italiano, o termo aparece, mas se refere à galinha-d’angola. Cleópatra, por exemplo, foi rainha do Egito, não “faraona”.

Em outro momento, ao falar sobre o combate à fome, Janja convocou os “cidadões” a se unirem. O detalhe é que “cidadões” existe, sim, mas como plural aumentativo de cidades. O plural correto de cidadão é cidadãos. Um simples passeio pelo dicionário resolveria a questão.

Mais recentemente, durante a COP30, a primeira-dama conclamou as mulheres a serem “atoras” nas questões climáticas. Houve quem defendesse o termo, sob o argumento de que a língua é viva e está sempre evoluindo, e que “atora” seria o feminino de “ator social”. Fui conferir.

Nos dicionários, “atora” aparece, sim. Mas com outro significado: “pedaço de madeira cortada em partes regulares; tora, toro”. Isso porque existe o verbo atorar, que significa cortar madeira em toros, ou toras. Ou seja, nada a ver com protagonismo feminino.

Ainda assim, consultei profissionais da sociologia e da filosofia. Nenhum soube apontar o uso consagrado de “atora social”.

Por fim, fui a quem regulamenta a língua portuguesa: a Academia Brasileira de Letras. A resposta foi clara e objetiva: o feminino de ator é atriz. “Atora”, segundo o Vocabulário Ortográfico da ABL, refere-se apenas à madeira cortada.

O que aprendi com meu avô foi simples: antes de falar ou escrever, consulte o dicionário.

Infelizmente, o dicionário ganhou a fama de “pai dos burros”. Para mim, deveria ser chamado de “pai dos espertos”, porque saber exatamente o que se está dizendo evita confusão, constrangimento e certos vexames públicos.

Então, anote aí: use o dicionário. Sempre. Muito. Não tem contraindicação!

 

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Em tempo: há alguns dicionários online aos quais recorro sempre. Se quiser conhecê-los, tenho certeza de que você será o maior beneficiado, por isso, compartilho.
Houaiss.online

Aulete Digital

Academia Brasileira de Letras – apenas para consulta da grafia das palavras.

Dicionário Priberam – este contempla o português de Portugal e o português brasileiro.

Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.
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