E se a nossa história fosse um filme?
Se um brasileiro tivesse dormido em 2018 e acordasse agora se desesperaria
Thiago Manzoni - 11/06/2025 09h27

Já assistiu a um daqueles filmes em que o personagem principal acorda depois de alguns anos em coma ou outro acontecimento que o tenha feito perder alguns anos da história?
Então, não sei bem a razão, mas vez por outra me pego pensando: já imaginou um brasileiro que dormisse no final de 2018 e acordasse agora, em meados de 2025?
Se fosse o enredo de um filme, nós diríamos que o autor exagerou. Quando o tal protagonista – vou chamá-lo de Abel, só para parecer que sou um grande escritor – dormiu, em 2018, o Brasil vivia a esperança de que sua história estava a ser mudada e que seu curso tinha novo destino.
Pais e mães de família, nossos idosos e também nossas crianças e jovens. As ruas estiveram cheias durante dias, semanas, meses, anos. Manifestações pacíficas de norte a sul e de leste a oeste do Brasil tornaram o ambiente propício para uma jornada contra a corrupção.
Numa espécie de êxtase causado pelo ineditismo, o brasileiro celebrou políticos e empresários corruptos presos por causa do maior escândalo de corrupção do mundo ocidental (até aquele momento): o Petrolão.
O chefe do esquema também foi preso, mas não posso citar seu nome sob pena de eu mesmo responder criminalmente. A presidente que faliu o país foi retirada do poder e, depois de um ano e meio de mandato tampão de Temer, veio o melhor momento: o Brasil elegeu Bolsonaro seu novo presidente da República!
Um homem simples, decente, que falava a língua do povo e era amado pela multidão. É bem verdade que no meio do caminho um ex-filiado do PSOL tentou matá-lo, mas esse detalhe fica para uma próxima ocasião. Era o melhor momento do Brasil em décadas, talvez séculos. Agora vai!
Abel dormiu. Acordou em meados de 2025.
Todos os bandidos presos estavam soltos. Suas condenações foram desfeitas, as provas contra quase todos eles foram anuladas. Num país em que até o passado é incerto, Abel chega a pensar que não viveu o que viveu.
Como num roteiro de terror, eles estão de volta ao poder (um deles chegou a dizer que eles nunca saíram de lá, desde o Mensalão; que foi descoberto depois do Petrolão).
Descondenado depois de um tempo, aquele a quem não se pode adjetivar – a menos que se assuma o risco de responder na esfera penal – foi alçado novamente à Presidência. O mesmo grupo de políticos, o mesmo grupo de empresários.
Pobre Abel… não devia ter acordado.
Abel se pergunta: mas e o Bolsonaro? Bem, o Bolsonaro continua sendo simples, decente e amado pelo povo, só que está sendo julgado por uma tentativa de golpe. Dizem que depois de ter feito a transição do governo, nomeado os comandantes das Forças Armadas a pedido do novo presidente eleito e viajado para os Estados Unidos, ele tentou dar um golpe.
Mesmo depois da posse do novo presidente. Sem apoio militar ou paramilitar. Uma moça escreveu com batom em uma estátua e foi condenada a 14 anos de cadeia. Alguns jornalistas amigos de juízes dizem que Bolsonaro pode pegar até 40 anos de prisão.
Abel quer dormir outra vez.
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Thiago Manzoni é deputado distrital, presidente da Comissão de Constituição e Justiça e Secretário-Geral do Partido Liberal/DF. |
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