Quanta diferença! Desigualdades entre o Campeonato Português e o Brasileiro

Quando vemos os números de um futebol verdadeiramente profissional, entendemos porque nossos jovens atacantes saem para reforçar clubes que pagam milhões de euros para ter um goleiro

Sergio du Bocage - 08/08/2018 16h09

A primeiro rodada do Campeonato Português será disputada entre os dias 10 e 13 de agosto. E o Benfica, que é o atual vice-campeão, anunciou, no fim de julho, ter vendido 44.032 lugares do seu estádio – o Estádio da Luz -, cuja capacidade é de 65 mil espectadores. Quase 70% de todos os ingressos. Isso assegura um público médio elevado – na temporada passada foi de 55 mil pessoas -, num clássico contra o Porto, mas também contra o último colocado do campeonato. Bom para patrocinadores, garantia de que a marca terá boa visibilidade.

Tem mais – o pacote para os 17 jogos como mandante do campeonato, para jogos da Liga dos Campeões, da Taça de Portugal e da Taça da Liga custa 200 euros, ou cerca de 800 reais, o que dá, em média, 40 reais por jogo! O clube visitante tem direito a 5% dos ingressos, no Campeonato Português, e se essas entradas não forem todas vendidas, elas são devolvidas para que o Benfica negocie. Ou seja, prejuízo forçado, jamais!

Nos 17 jogos já realizados do Campeonato Brasileiro, o Flamengo é o líder na média de público, com 47.596 torcedores, que ocuparam 60% do estádio utilizado. Dos cinco primeiros melhores públicos, o Rubro-Negro do Rio aparece em quatro – contra o Fluminense, em Brasília, e contra Internacional, Paraná e Sport, no Maracanã.

Mas isso poderia ser bem melhor. No borderô publicado no site da CBF fica bem claro o quanto os clubes são prejudicados, ao menos no Rio de Janeiro. A carga máxima de ingressos do Maracanã, anunciada na Copa de 2014, é de 76 mil lugares. Mas desse montante, o Flamengo, ou qualquer outro clube, pode colocar cerca de 60 mil disponíveis – e aí estão incluídas as cadeiras cativas e as gratuidades, que respondem por quase 10% da totalidade. Os dez mil lugares que nem entram no processo de venda ficam vazios!! O policiamento exige que haja uma separação entre as torcidas, como forma de garantir a segurança.

É um absurdo. O pior é que o assunto nem é tão novo assim. Mas quando vemos chegar esses números do futebol verdadeiramente profissional, entendemos porque nossos jovens atacantes saem para reforçar clubes que pagam milhões de euros para ter um goleiro.

Sergio du Bocage é carioca e jornalista esportivo desde 1982. Trabalhou no Jornal dos Sports, na TV Manchete e na Rádio Globo. É gerente de programas esportivos da TV Brasil e apresenta o programa “No Mundo da Bola”.