Opinião Sergio du Bocage: A comemoração

Sou favorável à comemoração com bom humor. Futebol é alegria. Mas é importante não ofender, não insultar

Sergio du Bocage - 21/02/2018 10h15

Nos dois últimos fins de semana, o resultado de dois jogos nem importaram tanto. E olha que foram clássicos estaduais! Flamengo x Botafogo, no Rio de Janeiro, e Vitória x Bahia, na Bahia. Mais que os resultados, só se falou das comemorações dos autores e dos protestos/violência que elas causaram.

O primeiro foi Vinícius Júnior, o jovem de 17 anos do Flamengo, que ao marcar o terceiro gol em cima do Botafogo simulou o gesto de alguém chorando, remetendo ao famoso episódio do “chororô” da Taça Guanabara de 2008. A polêmica tomou conta do noticiário. Contra e a favor do ato. O Flamengo nem pôde jogar a final do primeiro turno contra o Boavista, no estádio Nílton Santos, porque o Botafogo se sentiu ofendido e vetou o local.

O segundo caso foi mais grave. Ao fazer o gol de empate do Bahia no 1 a 1 com o Vitória, o meia Vinícius foi comemorar de frente para a torcida rival, com gestos nada recomendáveis. Não prestou. E o Ba-Vi que seria o clássico da paz, com a volta da torcida mista no Barradão, terminou em pancadaria, com cinco jogadores do Vitória expulsos e a partida sendo interrompida 11 minutos antes do fim. No dia seguinte, no Tribunal, o Bahia foi declarado vencedor por 3 a 0.

Confusão no Ba-Vi. Comemoração polêmica do gol feito Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

A questão é: Até que ponto a comemoração de um gol é ofensiva? Até onde o jogador pode ir? Nos dois casos, há uma diferença básica: Vinícius Júnior se dirigiu à torcida do Flamengo e, se virem os vídeos, o time do Botafogo só reclama depois que o árbitro pune o atacante rubro-negro. Vinícius, do Bahia, provocou diretamente a torcida do Vitória.

Eu sou favorável à comemoração com bom humor. Quem não lembra de Viola imitando um porco, quando fazia gols no Palmeiras? Ou Edmundo rebolando diante de Gonçalves, num Vasco x Flamengo? De Túlio, fazendo gol de calcanhar com o gol vazio no Maracanã, em plena Libertadores? De Manga, anunciando que “enfrentar o Flamengo era bicho certo”, cantando vitória antes dos jogos?

Não ofendendo, não menosprezando, não agredindo, vale festejar. Futebol sempre foi sinônimo de alegria. Irreverência. Acabar com isso é tirar muito da graça do esporte.

Sergio du Bocage é carioca e jornalista esportivo desde 1982. Trabalhou no Jornal dos Sports, na TV Manchete e na Rádio Globo. É gerente de programas esportivos da TV Brasil e apresenta o programa “No Mundo da Bola”.