Dar tempo ao tempo

A pressão do torcedor por resultados e o calendário apertado são fatores que atrapalham a adaptação de reforços. Como resolver essa falta de tempo?

Sergio du Bocage - 19/09/2018 16h03

Não é de hoje que o futebol brasileiro sofre com o assédio dos clubes europeus aos nossos melhores jogadores, na verdade, às promessas que surgem por aqui. Na contramão, são poucos os jogadores que vêm de fora com carreira ainda em condições de evoluir por aqui. O resultado é que, ano após ano, a qualidade de nossos jogos involui, fato incentivado, ainda, pela quantidade de jogos em torneios que se misturam semana após semana. Exemplo? Nesse meio de semana temos Copa Libertadores; fim de semana, Campeonato Brasileiro; no outro meio de semana, Copa do Brasil.

Mas há outros dois fatores que atrapalham ainda mais – o calendário do futebol brasileiro não é similar ao europeu (estamos em meio de temporada, enquanto na Europa se está no início); e a paciência da torcida não é das maiores. Com isso, jogadores que chegam no meio do campeonato são obrigados a entrarem nos times, volta e meia como “salvadores”, sem tempo sequer para se ambientarem como deveriam.

Vasco da Gama x Flamengo, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, Distrito Federal Foto: Staff Images/Flamengo

O Flamengo é um exemplo disso tudo. Vendeu sua joia, Vinícius Júnior, para o Real Madrid, simplesmente porque não tinha como recusar uma oferta de 45 milhões de euros, maior valor pago a um garoto de 18 anos no Brasil. VJr estava no auge, sendo decisivo em vários jogos, novo ídolo da torcida. Para o lugar dele veio Vitinho, ainda jovem, por 10 milhões de euros, maior valor pago pelo clube por um reforço. Na cabeça do torcedor, um jogador para chegar, entrar no time como titular e resolver todos os problemas.

Não é bem assim. O Real Madrid, apesar da pressão da torcida, relacionou Vinícius Júnior para alguns jogos, mas o tem usado em seu time na Terceira Divisão. Está adaptando o garoto, mesmo tendo a possibilidade de escalá-lo de início, já que o time estava em começo de temporada e pronto para ser arrumado.

O Flamengo, não. Com o time montado, em meio a três competições, lançou Vitinho de imediato, sem adaptação, sem tempo para treinar, ainda procurando a melhor posição para ele jogar.

Isso se repete em outros clubes. Não ache que é “privilégio” de um só. Torcedores são todos iguais, impacientes. É do jogo, a paixão sempre fala mais alto. Como resolver? Com a palavra, os dirigentes.

Sergio du Bocage é carioca e jornalista esportivo desde 1982. Trabalhou no Jornal dos Sports, na TV Manchete e na Rádio Globo. É gerente de programas esportivos da TV Brasil e apresenta o programa “No Mundo da Bola”.

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