A lamentável final da Libertadores

Como o futebol sul-americano vai reagir e buscar o crescimento, a partir dos fatos ocorridos na final da Copa Libertadores?

Sergio du Bocage - 29/11/2018 17h00

Não é de hoje que o futebol sul-americano é visto de forma diferenciada. Inclusive entre nós, brasileiros. Ou você nunca ouviu um locutor de rádio ou televisão dizendo “isso é Libertadores! É diferente, é outro campeonato”. Sem entrar no mérito de que qualquer campeonato é diferente do outro, o fato é que essas expressões têm por objetivo dizer que a disputa é mais acirrada, tensa e, por que não(?), violenta.

Juntem-se a isso as denúncias de corrupção que envolveram o futebol sul-americano – e, nesse caso, o brasileiro também. Não à toa, um trabalho de revisão da imagem internacional tem sido buscado, à frente dele a Conmebol. Que trabalha não só para organizar melhor seus campeonatos, como valorizá-los, com premiações maiores e a presença de patrocinadores de marcas mundiais.

Todo o caminho percorrido até então, porém, foi praticamente todo por água abaixo. A final da Copa Libertadores, entre Boca Juniors e River Plate, fica maculada para sempre com o adiamento do segundo jogo provocado por violência de um grupo de vândalos com a camisa do River Plate. Apedrejar o ônibus onde estavam os jogadores do Boca, a ponto de feri-los, insistir na realização do jogo, não definir de imediato a data da partida e, até mesmo, não saber o local (!!), tudo isso só nos faz voltar no tempo e dizer que o futebol sul-americano está, mesmo, muito atrasado quando se pensa em algo profissional.

Tive a oportunidade de conversar com Alexandre Rangel, que é sócio-líder da consultoria Ernst&Young e um estudioso do futebol no que se refere a marketing e negócios em geral. Ele lembrou que a Conmebol estava estudando o aumento da premiação para 2019, garantindo aos clubes, no mínimo R$ 1,1 bilhão, valor que poderia crescer com a chegada de novos patrocinadores. Esse seria o caminho para tentar diminuir um pouco a diferença que, hoje, vivemos para a Europa. A Champions League é o exemplo a ser seguido, e ela é uma das principais fontes de receita dos clubes europeus.

Mas a Libertadores desse ano está contribuindo para que o projeto não caminhe. Desde o início tivemos problemas, envolvendo inclusive clubes brasileiros prejudicados, como Santos e Grêmio. E tudo culminando com os fatos lamentáveis da final. Como negociar, exatamente agora no fim do ano, com possíveis patrocinadores? Quem se disporá a colocar seus milhões numa competição tão bagunçada, com imagem tão deteriorada? Com a credibilidade em baixa? Como convencer os clubes mexicanos e norte-americanos a participar, com seus patrocinadores?

Em maio de 1985, no Estádio de Heysel, na Bélgica, tivemos uma tragédia, na final da Liga dos Campeões da Europa. Morreram 39 pessoas. A partir dali, o futebol europeu deu uma guinada, em questões de segurança e organização. Uma pena que tenha sido necessário um fato como esse. Aqui na América do Sul não chegamos a tanto, graças a Deus. Mas que sirva de lição e de referência para o futebol sul-americano voltar a caminhar para a frente.

Sergio du Bocage é carioca e jornalista esportivo desde 1982. Trabalhou no Jornal dos Sports, na TV Manchete e na Rádio Globo. É gerente de programas esportivos da TV Brasil e apresenta o programa “No Mundo da Bola”.

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