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Opinião Russell Shedd: Santidade

A beleza da vida cristã se manifesta em sua santidade

Russell Shedd - 11/03/2018 08h00

A beleza da vida cristã se manifesta em sua santidade. Deus nos obriga a seguir a santificação sem a qual ninguém o verá. “Sede santos porque eu sou santo”; é uma citação de uma ordem divina registrada no Antigo e no Novo Testamento. Como, então, se explica a carência dessa qualidade fundamental nas vidas de tantos membros de igrejas e indivíduos que se declaram cristãos? Respostas fáceis – ignorância da Palavra de Deus, hábitos equivocados mantidos desde tenra idade ou má-educação – não satisfazem.

Talvez não tenhamos uma ideia clara do que significa ser santo. Talvez a influência da Igreja Católica e a história de alguns indivíduos extraordinários que se destacaram no mundo com atos de abnegação e sacrifício que beneficiaram a sociedade definam a santidade para a maioria dos brasileiros. Homens e mulheres canonizados criam um quadro de santidade um tanto irreal.

Uma conversa ocorrida em 1666-1667 com o irmão Lourenço mostra uma visão que poderia nos orientar. “Lourenço tinha descoberto uma tal vantagem de andar na presença de Deus que foi natural para ele recomendá-la aos outros. Porém, o seu exemplo foi um incentivo mais forte do que qualquer argumento que poderia propor. Sua própria face edificava – tal doçura e calma e devoção aparecendo nela – que não poderia
deixar de afetar quem o observasse. Notou-se que debaixo da maior pressão dos afazeres na cozinha, ele ainda preservava sua atitude celestial. Ele nunca estava com pressa nem ocioso, mas fazia tudo no seu devido tempo com uma composição e tranquilidade de espírito. ‘O tempo de ação’, disse ele, ‘não difere do tempo de oração, e no barulho e na confusão da minha cozinha, com várias pessoas pedindo diferentes coisas, possuo Deus em tão real tranquilidade como se eu estivesse de joelhos tomando o sacramento bendito'”. (The Pracdce of the Presence of God, ed. Hugh Martin, Londres, 1956, pp. 21,22).

Esta bela descrição de santidade reflete plenamente a visão de santidade no Novo Testamento. Enquanto não nega a importância de horas separadas para o culto e a adoração, ela eleva o serviço ordinário da cozinha a um nível de igualdade de adoração, uma vez que o crente tenha oferecido o seu corpo como sacrifício santo, vivo e aceitável a Deus.

Aquelas horas “religiosas” de leitura da Bíblia, de oração, e de assistir aos cultos da igreja têm valor se elas desenvolvem uma espiritualidade na vida, no dia a dia. Elas não devem ser encaradas como um dever a cumprir.

Santidade quer dizer diminuir o egoísmo e a soberba e aumentar a centralidade de Deus em todas as facetas da vida. A mente santa, diria Paulo, pensa em tudo o que é verdadeiro. O que há mais verdadeiro do que Deus? Pensa também no que é nobre. O que há mais nobre do que Deus? Pensa em tudo o que é correto. Existe algo mais correto do que Deus? É impossível. Somente o que for puro deve ocupar a mente, e nada mais puro que Deus existe.

Uma oração do conhecido teólogo Tomás de Aquino (1225-1274) me parece apropriada.

Dá-me, Senhor, um coração vigilante que não se deixe desviar de ti por nenhum pensamento leviano, um coração reto que não aceite ser seduzido por instintos perversos, um coração livre que não se deixe dominar por nenhum poder maligno. Dá, Senhor, sensatez para te conhecer, sabedoria para te achar. Faze com que minha vida inteira seja do teu agrado.

(citado por Franklin Ferreira e Alan Myatt na Introdução à Teologia Sistemática, a ser lançada pela Vida Nova em 2007).

Todos os cristãos regenerados, que almejam ser aprovados por Deus, nunca podem depender de sua santidade para alcançar a justiça perfeita que Deus requer. Nenhum pecador entra no céu sem ser justificado, isto é, declarado santo pela atribuição da santidade de Cristo. Sendo assim, seria um erro grave imaginar que mais esforço para ser santo daria mais certeza da salvação. Somente Jesus Cristo salva pecadores pelo seu sacrifício de infinito valor que apaga os pecados que cometemos.

Mas, mesmo reconhecendo esta verdade fundamental, redescoberta pelos reformadores, não seria sábio pensar que a santidade é de menor importância. “Esforcem-se para serem santos”, diz o autor inspirado de Hebreus. Deus retribuirá a cada um conforme o seu procedimento (Romanos 2:6). A justificação pela graça toma imperativa a busca pela santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.

Russell Shedd Era conferencista internacional, bacharel em Teologia com especialização em Bíblia e Grego, Mestre em Novo Testamento e PhD em Filosofia. Nascido na Bolívia, filho de pais missionários, veio para o Brasil em 1962. Escreveu mais de 30 livros, publicados pela Shedd Publicações e pela Edições Vida Nova, fundadas por ele. Faleceu em 2016, aos 87 anos, vítima de câncer. Neste espaço, recebe homenagem do Pleno.News, que publica textos daquele que foi conhecido como o maior teólogo do Brasil.