Uma reflexão sobre a perseguição a Igreja evangélica em nosso país

Apesar de no Brasil de hoje não encontrarmos mais perseguições, é possível percebermos de forma nítida, por parte da imprensa e dos formadores de opinião, um claro preconceito contra aqueles que se dizem seguidores de Cristo

Renato Vargens - 11/07/2018 10h42

As primeiras informações que retratam de forma efetiva a perseguição religiosa no Brasil remete ao ano de 1557, quando os huguenotes (calvinistas franceses) chegaram ao Rio de Janeiro com o propósito de ajudar a estabelecer um refúgio para os calvinistas perseguidos na França.

Em 10 de março de 1557, os protestantes franceses celebraram o primeiro culto evangélico do Brasil e no dia 21 de março celebraram a primeira santa ceia. Todavia, pouco tempo depois, Villegaignon entrou em conflito com os calvinistas acerca dos sacramentos e os expulsou da pequena ilha em que se encontravam.

Alguns meses mais tarde, os colonos reformados embarcaram de volta para a França. Quando o navio ameaçou naufragar por excesso de passageiros e por ter pouca comida, cinco deles resolveram regressar. Esses cinco se sacrificaram em favor dos seus irmãos na fé. Assim que chegaram em terra foram presos: Jean du Bordel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques le Balleur.

Pressionados por Villegaignon, foram obrigados a professar por escrito sua fé, no prazo de 12 horas, respondendo a uma série de perguntas que lhes foram entregues. Eles assim o fizeram, e escreveram a primeira confissão de fé na América, sabendo que com ela estavam assinando a própria sentença de morte. Essa maravilhosa declaração de fé é conhecida como a Confissão de Fé da Guanabara (1558).

Em seguida, os três primeiros foram mortos e Lafon, o único alfaiate da colônia, teve a vida poupada. Os mártires do evangelho foram enforcados e seus corpos atirados de um despenhadeiro. Balleur fugiu para São Vicente, em São Paulo, foi preso e levado para Salvador (1559-67), sendo mais tarde enforcado no Rio de Janeiro, quando os últimos franceses foram expulsos.

Quase 100 anos depois, os holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais com o objetivo de conquistar e colonizar territórios da Espanha nas américas, especialmente uma rica região açucareira: o Nordeste do Brasil.

Em 1624, os holandeses tomaram Salvador, a capital do Brasil, mas foram expulsos no ano seguinte. Finalmente, em 1630 eles tomaram Recife e Olinda e depois boa parte do Nordeste. Neste período, João Maurício de Nassau-Siegen, que governou essa região entre 1637 a 1644, concedeu uma boa medida de liberdade religiosa aos residentes católicos e judeus.

Sob os holandeses, a Igreja Reformada era oficial. Foram criadas vinte e duas igrejas locais e congregações, dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e até mesmo um sínodo, o Sínodo do Brasil (1642-1646). Mais de cinquenta pastores ou “predicantes” serviram essas comunidades. A Igreja Reformada realizou uma admirável obra missionária junto aos indígenas. Além de pregação, ensino e beneficência, foi preparado um catecismo na língua nativa. Outros projetos incluíam a tradução da Bíblia e a futura ordenação de pastores indígenas. Em 1654, após quase dez anos de luta, os holandeses foram expulsos, transferindo-se para o Caribe. Os judeus que os acompanhavam foram para Nova Amsterdã, a futura Nova Iorque.

Desde então, não se sabe de relatos de cultos protestantes no Brasil. No entanto, com a chegada da família real a terras tupiniquins e com a abertura dos portos as nações amigas, as confissões protestantes começaram paulatinamente a chegar ao país. Os anglicanos chegaram em 1811, os luteranos em 1824, os congregacionais em 1855, os presbiterianos em 1859, e os batistas em 1871.

Todavia, em virtude da Constituição de 1824, outorgada por D. Pedro I, que afirmava ser o catolicismo romano a religião oficial do Brasil, os protestantes não possuíam direito a cultos públicos em língua portuguesa. Além, é claro, de não terem permitidos a construção de templos com aparência religiosa.

Já no governo de Dom Pedro II , mesmo o imperador possuindo uma grande simpatia pelos protestantes, não era nada fácil afirmar publicamente a fé nos pressupostos cristãos, mesmo porque, a religião oficial do Estado imprimia forte perseguição religiosa aos evangélicos.

Com a Proclamação da República, o Estado brasileiro deixou oficialmente de ser Católico Romano permitindo assim com que os protestantes tivessem direito a culto. Todavia, como não poderia deixar de ser, a maioria da população ainda desenvolvia um significativo preconceito para com aqueles que se diziam cristãos protestantes.

A consequência direta disso foi a aniquilação de inúmeras templos evangélicos que, de forma covarde, foram destruídos pelo fogo. Dentre estes, encontra-se a 1ª Igreja Batista de Niterói, que em 14 de abril de 1901, teve seus móveis, púlpito, pertences e diversos utensílios queimados em plena rua, além de sua sede destruída.

Durante a primeira metade do século 20, os crentes em Jesus foram estigmatizados e denominados pelo clero romano como hereges, sofrendo, por conseguinte, ofensas morais, nas quais atributos pejorativos lhes eram destinados.

Junte-se a isso, o fato de que muitos, por causa da sua crença, sofreram no corpo agressões físicas por não professarem a fé dos sacerdotes romanos. Na segunda metade do século 20, a perseguição se deu de forma velada mediante os meios de comunicação que a todo custo vendiam à sociedade brasileira a imagem de uma Igreja burra, ignorante e manipuladora da fé alheia.

A Constituição de 1988 nos garante liberdade de fé e religião. O artigo 5º da Carta Magna diz que “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Todavia, apesar de no Brasil de hoje não encontrarmos mais perseguições como outrora, é possível percebermos de forma nítida, por parte da imprensa e dos formadores de opinião, um claro preconceito contra aqueles que se dizem seguidores de Cristo.

Nessa perspectiva, tornou-se comum encontrarmos na TV, rádio e cinema, acintes e deboches dos mais variados possíveis, cujo objetivo final é a desmoralização de todos aqueles que professam sua fé em Jesus. Senão bastasse isso, cresce a olhos vistos aqueles que, em nome do estado laico, querem restringir a ação dos evangélicos às suas reuniões e templos, impedindo-os assim, de divergirem dos conceitos e valores de uma geração secularista, absorta em pecado e absolutamente antagônica àquilo que a Bíblia prega e e defende.

Que o Senhor tenha misericórdia de sua Igreja e nos guarde do mal.

Renato Vargens é pastor sênior da Igreja Cristã da Aliança em Niterói, no Rio de Janeiro e conferencista. Pregou o evangelho em países da América do Sul, do Norte, Caribe, África e Europa. Tem 24 livros publicados em língua portuguesa e um em língua espanhola. É também colunista e articulista de revistas, jornais e diversos sites protestantes.

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