Pode o cristão ouvir música do mundo?

Fui ensinado pelos meus discipuladores que toda música que não fosse evangélica vinha do diabo

Renato Vargens - 05/07/2018 12h09

Lembro que no início da minha caminhada cristã fui ensinado pelos meus discipuladores que toda música que não fosse evangélica vinha do diabo. Com isso tive que jogar fora todos os meus discos (na época não existiam CDs).

Com o passar do tempo e com a maturidade cristã, entendi a doutrina da graça comum. Em virtude dessa compreensão, voltei a ouvir a boa música popular brasileira.

Bom, antes que seja apedrejado pelos religiosos de plantão, é importante salientar que Deus estabeleceu como ordem a graça comum. E que essa é a fonte de toda cultura e virtude comum que encontramos entre os homens. Em outras palavras, isto significa que Deus em sua infinita graça fez com que o sol nascesse sobre o justo e o injusto, e mandasse chuva sobre o bom e o mau. Entre as bênçãos mais comuns que devem ser atribuídas a essa fonte, podemos enumerar a saúde, a prosperidade material, a inteligência em geral, os talentos para a arte, música, oratória, literatura, arquitetura, comércio, invenções e etc.

Talvez por ignorância, parte dos evangélicos, em nome de Deus, dicotomizaram a existência dualizando o mundo. Infelizmente, fundamentados numa pseudoespiritualidade, um número imensurável de cristãos tem, ao longo dos anos, avaliado como profano e imoral tudo aquilo que não brota dos arraiais evangélicos. Para estes, quem ouve música do mundo ou vai ao teatro assistir uma peça, cede às tentações do diabo.

Segundo essa perspectiva, a arte, a cultura e a música secular foram “divinamente satanizadas”. Ora, vamos combinar uma coisa? É absolutamente impossível negar a ação de Deus entre os homens ao ouvir clássicos da música como One, do U2, ou Miss Sarajevo, onde Luciano Pavarotti leva qualquer um às lágrimas com sua participação especial.

Particularmente, sou tocado com a musicalidade de Jobim, com o ritmo da bossa nova, com a voz de Maria Rita, com a brasilidade de Gonzaguinha, com a inteligência do Lenine, com o doce gingado do baião nordestino, com a voz de Frank Sinatra e Elvis Presley, com as sinfonias de Bethoven, Bach e Mozart, com a música de Roberto Carlos, com a arte do Police, U2 , Dire Straits e tantos outros mais.

Meu amigo, não consigo ver determinadas manifestações musicais ou culturais como satânicas ou malignas. Antes pelo contrário, a multiforme manifestação cultural no ser humano, aponta diretamente para um Deus generoso que é absolutamente apaixonado pela arte, música e cultura.

Louvado seja o Senhor pela graça comum!

Renato Vargens é pastor sênior da Igreja Cristã da Aliança em Niterói, no Rio de Janeiro e conferencista. Pregou o evangelho em países da América do Sul, do Norte, Caribe, África e Europa. Tem 24 livros publicados em língua portuguesa e um em língua espanhola. É também colunista e articulista de revistas, jornais e diversos sites protestantes.