Janja quer abortar as redes sociais e ceifar o contraditório
A lógica é simples: quem controla a informação detém o poder
Rafael Satiê - 26/05/2025 17h09

A recente tentativa da primeira-dama Janja da Silva de se posicionar como protagonista em questões de política internacional culminou em um dos episódios mais constrangedores da gestão petista.
Durante uma visita à China, Janja, que não ocupa nenhum cargo oficial no governo federal, surpreendeu ao pedir ao presidente Xi Jinping que interviesse para censurar o TikTok no Brasil. A solicitação, completamente fora de contexto e desconexa do propósito do encontro, foi prontamente rechaçada pelo líder chinês, que, com a diplomacia esperada, lembrou que o Brasil é um país soberano e capaz de resolver seus próprios “problemas”.
O incidente, amplificado pelas redes sociais, expôs não apenas a inadequação da abordagem, mas também a fragilidade de uma estratégia que o PT insiste em repetir, mesmo em um cenário onde ela já não encontra eco.
O vexame internacional de Janja rapidamente se transformou em munição para críticas nas plataformas digitais, onde usuários de diferentes espectros ideológicos comentaram a gafe com ironia e indignação.
Em resposta, o Partido dos Trabalhadores (PT) lançou a campanha #EstouComJanja, numa tentativa de reverter a narrativa e mobilizar apoio à primeira-dama. A estratégia, no entanto, revelou-se um fracasso retumbante, apelidado nas redes de “flopada”.
O que o PT parece não ter percebido é que os tempos mudaram. Há duas décadas, quando o acesso à internet era restrito e as redes sociais ainda engatinhavam, o partido conseguia dominar a narrativa online com facilidade, utilizando os chamados “MAVs” (Militantes em Ambientes Virtuais) para criar uma ilusão de consenso. Naquela época, a falta de pluralidade de vozes na internet permitia que essas ações orquestradas parecessem representativas da opinião pública.
Os MAVs, outrora eficazes em disseminar narrativas favoráveis ao PT, já não têm o mesmo impacto. A internet de hoje é um espaço de informação descentralizada e distribuída, onde qualquer cidadão com um smartphone pode acessar, verificar e compartilhar informações em tempo real. Plataformas como Twitter, Instagram e YouTube permitem que múltiplas perspectivas coexistam, desafiando tentativas de manipulação.
A campanha #EstouComJanja, por exemplo, foi rapidamente desmascarada como uma ação artificial, com hashtags impulsionadas por perfis ligados ao partido, mas sem adesão genuína do público. Memes, críticas e análises espontâneas dominaram as discussões, mostrando que a tática de criar movimentos artificiais já não engana mais.
Esse fracasso reflete uma mudança estrutural no acesso à informação. Diferentemente do início dos anos 2000, quando apenas uma parcela privilegiada da população tinha internet em casa, hoje a conectividade é praticamente universal. Com isso, a capacidade de verificar fatos e confrontar narrativas oficiais tornou-se um hábito comum. Um simples vídeo no YouTube ou um fio no Twitter pode desmontar, em minutos, uma campanha cuidadosamente planejada.
A tentativa de transformar Janja em uma vítima de ataques injustos esbarrou nessa nova realidade: as pessoas não apenas rejeitaram a narrativa, como a ridicularizaram, expondo a desconexão do PT com o atual dinamismo das redes sociais.
Para o governo petista, a regulamentação das redes sociais surge como uma obsessão estratégica. A lógica é simples: quem controla a informação detém o poder. Incapaz de competir no terreno aberto da internet moderna, onde a verdade pode ser verificada por qualquer um, o PT parece apostar na supressão de vozes dissonantes. A insistência em pautas de “regulamentação” – frequentemente um eufemismo para censura – revela a dificuldade do partido em lidar com a pluralidade de opiniões.
O episódio de Janja na China e a campanha fracassada que se seguiu são sintomas de um governo que ainda opera com táticas ultrapassadas, subestimando a capacidade crítica dos brasileiros conectados.
O fiasco da hashtag #EstouComJanja não é apenas uma derrota pontual, mas um sinal de que o modelo de militância virtual do PT está obsoleto. A internet democratizou o acesso à informação, e os brasileiros aprenderam a usá-la para questionar, debater e, muitas vezes, rir das tentativas de manipulação. O PT, que outrora dominava o ambiente virtual, agora se vê perdido em um terreno no qual a autenticidade e a transparência falam mais alto que narrativas forçadas. A era dos MAVs acabou, e o partido ainda não encontrou uma resposta para essa nova realidade.
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Rafael Satiê é vereador pelo Rio de Janeiro e presidente da Comissão de Combate ao Racismo. |
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