Sobre os Dois Papas

Apesar de o longa-metragem focar no universo católico, não é difícil criar um paralelo com estruturas eclesiásticas da igreja evangélica

Maurício Zágari - 24/01/2020 13h00

O mundo reagiu com assombro quando o alemão Joseph Ratzinger renunciou ao papado da Igreja Católica Apostólica Romana, em 2013. Naquele momento, saía do posto máximo do Vaticano o Papa Bento XVI e abria-se caminho para o início da regência do argentino Jorge Bergoglio, que duas semanas depois da abdicação se tornaria Francisco I, o 266º Papa. Muito se falou sobre o que teria levado a essa situação inusitada, e teorias surgiram de todos os lados — até porque, em se tratando de grandes estruturas de poder, versões oficiais muitas vezes não traduzem a realidade dos fatos. O cineasta Fernando Meirelles uniu-se ao roteirista Anthony McCarten para expor uma versão heterodoxa dos fatos, em um belíssimo filme que está em cartaz na Netflix.

Dois papas mistura, assumidamente, fatos com episódios e diálogos imaginários. O objetivo da obra não é ser uma cinebiografia, mas usar as conversas e os encontros hipotéticos entre Ratzinger e Bergoglio como ferramentas metafóricas para o entendimento de grandes questões filosóficas sobre a Igreja Católica, sua atuação e importância.

Assim, McCarten e o brasileiro Meirelles (de Cidade de Deus) usam os encontros imaginários entre os dois religiosos como meio para discutir a divisão interna da Igreja Católica: de um lado, Bento XVI defende o tradicionalismo e a ostentação; do outro, Francisco prega o progressismo e a simplicidade. O resultado é um filme rico, que propõe uma discussão reflexiva e necessária entre esses dois segmentos do catolicismo.

O ateu Meirelles conseguiu construir uma narrativa cativante, em um filme que, por ser baseado essencialmente em diálogos, teria tudo para ser enfadonho. Com muita inteligência, caprichou na escolha do elenco. Seu trunfo são as interpretações primorosas de Anthony Hopkins, no papel de Ratzinger, e Jonathan Pryce, como Bergoglio. Os dois atores britânicos estão simplesmente fenomenais e dão uma aula de interpretação.

Apesar de o longa-metragem focar no universo católico, não é difícil criar um paralelo com estruturas eclesiásticas da igreja evangélica. Se o filme mostra uma boa porção do funcionamento da política eclesiástica nos bastidores do Vaticano, não dista muito do que ocorre nas igrejas evangélicas. Afinal, embora o Corpo de Cristo seja uma entidade destinada à eternidade, hoje, vive na terra e caminha com base em ideários humanos e imanentes.

Se Dois papas apresenta com clareza as divisões internas da Igreja Católica, não seria difícil substituir os personagens por líderes protestantes. Ratzinger e Bergoglio representam tradicionalismo versus progressismo, mas poderiam, dependendo da contextualização, representar calvinismo versus arminianismo, cessacionismo versus continuísmo, pedobatismo versus credobatismo, além de uma infinidade de aspectos que dividem a Igreja de Cristo na terra, como questões ligadas à ordenação pastoral de mulheres, estilos de louvor, práticas de culto, usos e costumes e crenças sobre batalha espiritual.

Nesse sentido, o filme de Fernando Meirelles pode levar todo evangélico a uma interessante reflexão sobre divisões na igreja, a perda da unidade e suas consequências. Mas, como o filme mostra com delicada sensibilidade, nunca devemos nos esquecer que, acima das divisões, está a fraternidade em Cristo — que se baseia não em unanimidade de opiniões, mas na filiação comum ao Pai Celestial.

Maurício Zágari é publisher da editora GodBooks, teólogo, comentarista bíblico, escritor, editor e jornalista.

Clique para receber notícias
WhatsApp
Entre e receba as notícias do dia
Entrar no Grupo