Uma criança de 9 anos deve pagar pelos erros dos pais?

Causa a mim preocupação o fato de existir tantas pessoas capazes de tratar um menino com tanta violência moral

Marisa Lobo - 30/03/2019 10h09

Filho de Michel Temer virou alvo de ofensas após a prisão do pai Foto: Reprodução

Nada justifica o fato de uma criança de 9 anos ser ridicularizada, se tornando vítima de bullying, por ser filho do ex-presidente Michel Temer, preso pela lava jato nos últimos dias. A sociedade tem o direito de se indignar com a corrupção e até mesmo de comemorar quando um político, seja ele quem for ou que cargo ocupe, uma vez denunciado por corrupção, seja preso. Certamente fatos como este causa em nós uma sensação de justiça.

Entretanto, sua família, principalmente os filhos ainda crianças, têm que pagar pelos erros dos pais? Creio que é cruel pensar assim. Trata-se de abuso infantil, um crime que deveria merecer maior atenção do Conselho Tutelar e da Justiça. Crianças têm sido expostas à violência psicológica e simbólica e os reflexos disso podem ser trágicos.

Gostaria de deixar claro – antes que eu seja vitima de ataques – que não estou defendendo a pessoa do ex-presidente Michel Temer. Ao contrário, comemoro todas as vezes que qualquer politico corrupto é punido, embora tenha a ciência de que ele, como qualquer outro acusado, tem direito à defesa. Quanto a isso, vamos aguardar a Justiça fazer o seu papel.

Voltando ao Michelzinho, causa a mim preocupação o fato de existir tantas pessoas más que não sabem separar as coisas, que não tenham compaixão e que tratam uma criança com tanta violência moral. Não, crianças não têm que pagar pelos erros dos pais. Não importa qual foi o erro, não importa quem sejam esses pais. Temos que ter essa consciência ou perderemos nossa humanidade.

Uma coisa é lutarmos contra a corrupção, em favor das causas de pessoas injustiçadas; este é um direito de cada um: lutar pelo que acredita. Mas tudo tem limites! O ódio é para os maus e, mesmo que ele exista, não é aceitável que venha a ser destilado contra uma criança. No entanto, é o que o filho do ex-presidente Temer tem sofrido: ataques de ódio. Estão colocando em risco a saúde emocional e mental de uma criança.

Crianças amam seus pais e não entendem certas questões. Elas não podem ser vítimas de violência. Além dos prejuízos emocionais, a violência sofrida na infância causa, a longo prazo, problemas como dependência química e hipertensão. Segundo especialistas, a constatação reforça a importância do combate à prática da violência infantil em todos os cenários.

Nossas crianças precisam ser protegidas, independente da sua classe social, idade, sexo, cor, raça e independente de seus pais. Criança é criança e nós adultos temos a obrigação de protegê-las. Lutamos por uma sociedade sem corrupção, mais humana, e quem não respeita a criança e pratica o mal contra elas, deve ser denunciado.

A sociedade tem que denunciar esses abusos e, para isso, é necessário que conheça as leis. A previsão legal do bullying se encontra na Lei 13.185/15 (BRASIL, 2015, p. 1), e seu artigo 1º, § 1º diz que: “No contexto e para fins desta lei, considera-se intimidação sistemática (bullying) todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas. Entende-se que o bullying é a intimidação sistemática que pode ser praticada por qualquer indivíduo e em qualquer meio social contra outro que não pode se defender”.

Marisa Lobo possui graduação em Psicologia, é pós-graduada em Filosofia de Direitos Humanos e em Saúde Mental e tem habilitação para Magistério Superior.

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