Quando alguém assume publicamente a depressão

Entendo que poucos quadros clínicos geram tão pouca empatia e sofrem tantos preconceitos quanto a depressão

Marisa Lobo - 21/09/2019 08h00

Falar em depressão para pessoas que acreditam em Deus, que seguem uma religião, e levantar polêmica, já que para muitos cristãos, por exemplo, é inadmissível crer que alguém possa ter problemas psicológicos emocionais, se crê em Deus, se ora, se está próximo de Deus. Entendo esse pensamento, eu já fui levada a pensar dessa forma, até que a depressão entrou em minha casa. Aí tive que aprender a lutar contra, e tive que estudar esse mal, esse gigante chamado depressão para derrota-lo de vez em minha vida.

Aprendi que Deus está sim ao nosso lado, o tempo todo nos ajudando e nos livrando de todo mal e de toda a injustiça, como está escrito em Isaías 41:10: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça”.

Mas também aprendi com a minha fé que tem coisas que Deus faz e outras que preciso fazer, para que o milagre aconteça em mim. Sim, há o milagre e há o esforço pessoal. Deus nos convida a caminhar em direção à nossa cura, mudando nossos hábitos para transformar nossas vidas.

Entendo que poucos quadros clínicos geram tão pouca empatia e sofrem tantos preconceitos quanto a depressão. Apesar de os casos drásticos suscitarem comoção, para a maioria das pessoas a luta contra a doença acaba sendo mesmo uma jornada bastante solitária – vivida em segredo ou, então, envolta em recriminações e julgamentos, quando assumida publicamente, principalmente quando o meio é religioso.

Assumir publicamente a depressão exige coragem para lidar com essa dura realidade, que pode ser modificada por meio do processo do reconhecimento, entendimento das quatro dimensões onde todo ser humano é afeto por ela bio psico social e espiritual.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que os transtornos depressivos atingem hoje quase 5% da população mundial. Mas é sabido que esse percentual é muito maior, considerando os altos índices de casos sub-diagnosticados. Temos que vencer o preconceito que, muitas vezes, vem do próprio paciente. É difícil aceitar que temos uma tristeza profunda que, muitas vezes, não passa, não tendo motivos para que ela permaneça. Parece ingratidão, então, preferimos assumir a depressão sorridentes. E assim enganamos a todos sobre nosso estado, e vivemos uma vida dupla, na frente dos outros estamos bem, mas a sós, somente Deus sabe o que sentimos.

Para muita gente, a depressão é sinônimo de fraqueza. Outras tantas especulações atribuem o quadro a falhas na formação e na educação e na falta de fé. Pode ser decorrente de uma triste história de vida, mas nem sempre. Pensar somente dessa forma é reforçar grandes equívocos, pois ela é multifatorial, podendo até mesmo ser genética, hormonal, sintoma de outros transtornos, uso de drogas é muito mais. É a somatória de muitos fatores.

Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas trazer, de forma clara e prática, o conhecimento sobre a depressão, que é considerada pela OMS ( Organização Mundial da Saúde) como o “mal do século”, uma doença, infelizmente, cheia de tabus e preconceitos até dentro das igreja.

Minha intenção não é questionar a fé ou uma história de vida. Mas questionar o preconceito, a falta de conhecimento e, principalmente, quebrar este tabus que seguem ajudando a adoecer pessoas em todo mundo. Quero ensinar como não permitir que o mundo fira alguém ao ponto de gerar transtornos psicológicos, como a depressão, caracterizada por uma tristeza crônica e profunda, uma patologia silenciosa e, muitas vezes, incompreendida.

Depressão é avaliada como uma das doenças mais caras para a sociedade, pois o consumo de antidepressivos no país movimenta cerca de 140 milhões de dólares por ano, além dos prejuízos decorrentes da perda de produtividade e dos afastamentos no trabalho, sem contar os custos do sofrimento humano que não podem ser mensurados. Alguns religiosos entendem a depressão apenas como um pecado, falta de Deus, de obediência, frescura etc. Mas não é. Minha intenção como psicóloga e cristã é provar para você, leitor, com conhecimento científico que depressão é uma doença que pode se agravar.

Vamos aprender sobre depressão a fim de realizar uma intervenção apropriada, até mesmo na igreja. Temos muitas possibilidades de tratamento, se houver respeito e acolhimento adequado em, no máximo, 6 meses, podemos contribuir com a recuperação dessa pessoa.

Temos que abrir as nossas mentes e entender que Deus não nos quer doentes e que temos a opção de continuar na ignorância ou lutarmos com todas as armas disponíveis para nos livrarmos dela. Tudo passa pelo conhecimento de Deus e entendimento do que Ele deseja para nossas vidas.

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Romanos 12:2

Marisa Lobo possui graduação em Psicologia, é pós-graduada em Filosofia de Direitos Humanos e em Saúde Mental e tem habilitação para Magistério Superior.

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