Fenômeno Nikolas Ferreira: Entre admiração e ódio; um político disruptivo
Ele tem a admiração de milhões, mas também é alvo de críticas, ataques pessoais e narrativas depreciativas
Marisa Lobo - 01/09/2025 10h35

Nikolas Ferreira, jovem deputado federal mineiro, evangélico e combativo, tornou-se o mais votado do Brasil em 2022, um marco que o projetou como fenômeno político nacional. No entanto, ao mesmo tempo em que conquista a admiração de milhões, também é alvo de críticas intensas, ataques pessoais e narrativas depreciativas.
Esse paradoxo — ser simultaneamente amado e odiado — pode ser compreendido por meio de conceitos da psicologia social, da sociologia política e das teorias da comunicação.
Disrupção de narrativas e hegemonia cultural
O sociólogo Antonio Gramsci (1891–1937) cunhou o conceito de hegemonia cultural, que descreve a forma como determinados grupos dominam o espaço simbólico e discursivo de uma sociedade. Quando alguém rompe essa hegemonia, questionando valores estabelecidos, torna-se alvo de resistência.
Nikolas Ferreira representa um caso típico de disruptor de narrativas: ele traz para o debate público valores cristãos, conservadores e contrários à agenda progressista dominante em setores da mídia e da academia. Essa ruptura gera reações defensivas, pois ameaça a estabilidade de discursos até então estabelecidos.
Ameaça ao status e identidade social
De acordo com a Teoria da Identidade Social (Tajfel & Turner, 1979), os indivíduos se identificam com grupos sociais (religiosos, políticos, ideológicos) e defendem sua posição. Quando outro grupo surge com força e ameaça essa posição, os ataques se intensificam.
Nikolas, jovem e popular, desafia tanto progressistas quanto setores tradicionais da política. Ele simboliza uma nova identidade coletiva conservadora, que não pede desculpas por sua fé ou valores. Isso provoca medo de perda de status nos adversários.
O narcisismo das pequenas diferenças e a dissonância cognitiva
Sigmund Freud (1917) descreveu o fenômeno do narcisismo das pequenas diferenças: grupos próximos podem nutrir ódio intenso por divergências simbólicas.
Nikolas, ao defender pautas morais e religiosas, acentua as diferenças culturais e se torna alvo de rejeição.
Leon Festinger (1957), por sua vez, apresentou o conceito de dissonância cognitiva: quando ideias contrárias desafiam nossas convicções, sentimos desconforto psíquico. A reação natural é atacar a fonte do desconforto.
Ou seja, a firmeza de Nikolas em sustentar valores cristãos gera dissonância em quem defende o oposto — e o ataque vira um mecanismo de alívio.
O medo político e a estratégia de neutralização
Na ciência política, Joseph Schumpeter (1942) destacou que a luta política é, essencialmente, uma disputa de poder e sobrevivência. Adversários não perdem tempo atacando figuras irrelevantes; eles atacam quem ameaça sua posição futura.
Nikolas já é cogitado como possível futuro governador de Minas Gerais, estado estratégico na política nacional. Logo, os ataques preventivos funcionam como uma tentativa de neutralizar um adversário em ascensão. Quanto maior seu potencial de crescimento, mais intensos os ataques.
O lado da admiração
Do ponto de vista positivo, Nikolas gera admiração profunda em seus apoiadores por simbolizar valores de coragem, autenticidade e representatividade.
De acordo com Max Weber (1922), isso se chama liderança carismática: quando a legitimidade política nasce da percepção de que o líder é diferente, autêntico e capaz de mobilizar esperanças coletivas.
Nikolas incorpora esse carisma não apenas pelo que defende, mas pela maneira jovem, direta e corajosa com que comunica suas ideias. Para muitos, ele é a voz que diz o que outros gostariam de dizer, mas não têm coragem.
O fenômeno Nikolas Ferreira pode ser entendido como a materialização de um conflito simbólico e político no Brasil contemporâneo. Amado e odiado, ele rompe com narrativas, ameaça identidades consolidadas e projeta-se como líder de massas.
Do ponto de vista científico, os ataques que recebe podem ser explicados por: Ameaça ao status (Tajfel & Turner, 1979); Dissonância cognitiva (Festinger, 1957); Narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1917); e Estratégia de neutralização política (Schumpeter, 1942).
Ao mesmo tempo, sua popularidade se apoia na liderança carismática (Weber, 1922), que o projeta como potencial candidato a cargos ainda mais relevantes — possivelmente o governo de Minas Gerais.
No fim, os ataques que recebe não diminuem sua força: pelo contrário, funcionam como combustível para consolidar sua posição de destaque.
Nikolas Ferreira é, portanto, um espelho do Brasil dividido — e um nome que dificilmente será ignorado nos próximos capítulos da política nacional.
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Marisa Lobo atua como psicanalista, é pós-graduada em Psicanálise; Gestão e Mediação de Conflitos; Educação de Gênero e Sexualidade; Filosofia de Direitos Humanos e Saúde Mental; tem também habilitação para magistério superior. |
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