Desconstrução da sexualidade do cristão – Parte 2

Esse jogo intelectualista que busca negar os valores cristãos contém incoerências em seu próprio conteúdo

Marisa Lobo - 08/12/2018 09h00

Na primeira parte de minha reflexão sobre a desconstrução da sexualidade (coluna anterior), esclareci sobre algumas filosofias, estratégias e discursos na desconstrução da sexualidade do Cristão, abordando também os pensamentos de Foucault. Continuando nesta linha de raciocínio, além da desconstrução, foram lançadas as bases do materialismo dialético, de Marx, o qual busca identificar contradições e tensões no meio social produtoras das lutas sociais, bem como perceber ideologias dominantes que servem aos interesses de uma elite.

Os que acolhem esse modo de pensar voltando-se para a concepção de vida cristã estão inseridos em tal ideologia de controle da vida, da moral, e que, para eles, tenta castrar a liberdade humana, condenando, por exemplo, o aborto, negando a liberdade da mulher de escolher se quer ter o filho ou não. Aqui está o ataque marxista ao cristianismo, por entender que somos representantes de uma ideologia moral dominante, que visa controlar as minorias. Perceba as armas filosóficas.

E temos também a dita filosofia da “vida”, que convida a vontade a ter superpoderes e que esquece a consciência na avaliação das responsabilidades diante da vida, não considerando que ela está acima da liberdade, algo canônico em nossa filosofia do direito ocidental. Além disso, traz à tona a acusação de que a moral cristã deve ser extirpada porque se sustenta no binarismo de gênero, legalista e patriarcal, de perfil heteronormativo. Tal filosofia ignora que desenvolver posições identitárias na sociedade, como marido e esposa, não se trata de mera bipartição, mas de uma base social dialeticamente construída. Negar isso e buscar uma harmonia entre os gêneros é uma contradição dentro da concepção dialética que defende o conflito como motor da história.

Em continuidade, o materialismo dialético também instaura uma nova relação entre trabalho e natureza, pois o homem, por meio do trabalho, transforma a natureza. Ora, isso significa que o natural é refeito pelo cultural, enquanto construção humana, a partir das relações sociais. Então o cultural é o desenvolvimento superior de um ponto de partida primário do biológico.

Assim, a família “tradicional” sustentada em bases naturais, biológicas, para eles não tem lugar no mundo contemporâneo, porque traz marcas culturais que impossibilitam seu entendimento a partir de traços biológicos, como sendo criada por Deus. Então, como é possível defender a relação conjugal no entendimento cristão sobre bases naturais, já que o natural está sofrendo constante alteração cultural? Assim, o modelo de família bíblico não poderia se sustentar. O que fazer?

A resposta é continuar com a Bíblia, porque, mesmo que o biológico sofra ingerênciasdo cultural, ele não altera sua base constituidora natural. Foucault disse ao movimento homossexual europeu que não buscasse explicar a homossexualidade, mas vivê-la, pois a tentativa de explicar em bases biológicas seria entendida pelos opositores do movimento como síndrome, uma vez que toda alteração cromossômica tem essa concepção.

Portanto, primeiro, Foucault não propôs algo direto em sua desconstrução. Segundo, também rejeitou explicações de opção sexual em bases biológicas. E terceiro, ao criticar uma moral metafísica cristã, o fez a partir do conceito abstrato, de poder, portanto metafísico.

Mas as filosofias não acabaram em Foucault. O relativismo cultural afirma que tudo é cultural e parte de uma crítica inicial nos estudos de Geertz à concepção de homem universal, desconsiderando uma essência humana, já que tudo emerge da cultura e ambas são diferentes. Então, nossa cultura cristã usou da colonização europeia para dominar a América pré-colombiana.

E aqui cabe o problema do desenvolvimento humano, pois ele se dá em bases culturais, que aparecem em um movimento de produção constante de significados; logo, nessa concepção, a imposição de padrões culturais se tornaria inviável. Portanto, a ideologia de gênero tem como alvo desconstruir o modelo colonizador binário heteronormativo e patriarcal de sociedade, entendendo que o mesmo se sustenta a partir das bases da família nascida do casamento masculino e feminino. Ela defende uma concepção pluralista de família, que visa dar conta das múltiplas configurações parentais do mundo contemporâneo.

Para tal ideologia, a verdade cristã sobre a sexualidade é apenas um discurso de poder. Lembro aqui de Foucault em sua crítica acerca dos dispositivos de sexualidade, quando diz que o poder-lei está lá, que nunca se escapa a ele e que constitui até seus opositores. Assim, Foucault insere o problema do poder não como teoria, mas como uma analítica, e diz que tanto quem reprime o desejo como quem o afirma tem uma representação comum do poder. E continua afirmando que tal poder com respeito ao sexo o limita, lhe diz não.

O poder domina sobre o sexo por meio da linguagem, estabelecendo um regime binário, certo e errado, legítimo e ilegítimo. E o faz a partir da prática discursiva, mediante a qual cria regras. Continua dizendo que a forma pura do poder está na função legislativa em seu modo de ação jurídico-discursiva. Aqui estão os movimentos que defendem a ideologia de gênero, no sentido de buscar a tomada do poder jurídico-discursivo para, no cerne do poder, atacar os limites que ele instituiu ao sexo.

Um dos ataques retóricos mais famosos é sobre a estrutura binária, heterossexual, masculino e feminino. Sobre isso, é interessante entender que as ciências humanas que desenvolvem a crítica ao dualismo filosófico, ao maniqueísmo religioso, à polarização social, enfim, a tudo o que é binário, para continuar usando uma linguagem matemática, trazem em seu corpo teórico a preeminência da classificação binária, que inclusive é frequente no pensamento estrutural.

Diante disso, temos um problema: a crítica a uma estrutura binária de família nega a nossa própria forma de conhecer, que se dá a partir da diferenciação de opostos, pois sóposso conceber o que é certo a partir da referência que tenho de errado. Portanto, Igreja, esse jogo intelectualista que busca negar os valores cristãos contém incoerências em seu próprio conteúdo.

Fontes de consulta

Foucault M. História da sexualidade: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A.

Guilhon Albuquerque. 13. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1988.

Foucault M. Uma entrevista: sexo, poder e a política da identidade. Tradução de Wanderson Flor do Nascimento.

Verve. 2004; 5: 260-77.

Marisa Lobo possui graduação em Psicologia, é pós-graduada em Filosofia de Direitos Humanos e em Saúde Mental e tem habilitação para Magistério Superior.

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