Desconstrução da sexualidade do cristão – Parte 1

Filosofias, estratégias e discursos sobre a concepção da sexualidade

Marisa Lobo - 01/12/2018 09h00

O mundo pós-moderno é marcado pelo relativismo ético, pelo pessimismo existencial e pela negação da religião. Neste cenário, figura a discussão sobre os valores que perpassam o problema da sexualidade, o que nos coloca no cerne da questão da ideologia de gênero. Sobre essa perspectiva ideológica, temos as marcas do desconstrutivismo, que busca a negação dos valores cristãos, e do materialismo dialético, que entende a defesa cristã como ideologia dominante, negando qualquer verdade absoluta.

Acerca do primeiro, refere-se à filosofia de vida elaborada no século 19 voltada para a desconstrução da filosofia da reflexão de tradição metafísica ocidental (leia-se teológica cristã). Ou seja, a vida é entendida como um empoderamento da vontade, no sentido de viver e não tentar entender o porquê, sem se preocupar com explicações acerca de impulsos voluntários. Já a reflexão se preocupa em dar voz à consciência, buscar entender o motivo de todas as ações e a necessidade de avaliar suas consequências, tendo, para isso, responsabilidade.

Assim, o desconstrutivismo não se refere à concepção de vida cristã; antes, atacou o cristianismo em suas bases teológicas, negando, portanto, uma moral cristã como verdade absoluta e a importância da consciência como orientadora da vontade. Foi por isso que Nietzsche disse que Deus está morto; nessa nova proposta filosófica, a ideia de Deus não caberia.

Logo, o que se tem aqui é uma desconstrução da concepção de sexualidade no Ocidente. No entanto, essa perspectiva não institui uma proposta, mas apresenta uma crítica. Propor algo em tais bases é contraditório. Para essa filosofia, a verdade é extraída do prazer, e a verdade do sexo é um procedimento ordenado. No caso da primeira afirmativa, o sexo segue sem padronizações, expandindo-se. No caso da segunda, ele é controlado, regulado. É nesta última perspectiva que Foucault insere o mundo cristão ocidental e acusa o cristianismo de desenvolver dispositivos de controle arbitrário sobre o corpo, ou seja, a relação sexual.

Contudo, reduzir o Cristianismo à leitura crítica de um mundo medieval e moderno, espiritualista e mecânico-racional, é desconsiderar nossas bases bíblicas. A sexualidade como consta na Bíblia é para todos, saudável e humana. Por exemplo, no Antigo Testamento, no livro de Cantares, o assunto é claramente abordado. O apóstolo Paulo trata da questão do amor na relação conjugal.

Na verdade, trava-se uma crítica ao cristianismo a partir de um ataque à filosofia grega, que vinculava a consciência à verdade. Uma vez que tal consciência é racional, falta a sensibilidade humana para entender a vida sexual sem regras racionais. Porém, não temos só consciência; nossa dimensão da fé de herança judaica nos convida a uma experiência poética para além das acusações de um envolvimento humano frio e normativo.

Os discursos, para Foucault, representante maior do desconstrutivismo contemporâneo, têm efeito de verdade, mas não são verdadeiros. E o que tem acontecido hoje no Brasil são discursos que visam instaurar uma nova normatividade de caráter pós-moderno, que vê o homem como natural, não sendo bom nem mau, o qual, portanto, deve seguir suas pulsões orgânicas sem questioná-las, seus desejos sem responsabilidade, porque se pensar, refletir, estará cedendo a uma consciência fria e moralista.

Ora, o ser humano é cultural e produtor de significados. Se está constantemente instituindo padrões morais, se nega a moral cristã, está instituindo outro critério de moral, considerado contraditório. Logo, criticar a moral cristã do ponto de vista da sexualidade é de maneira ardilosa propor outro modelo de moral. Mas um ponto de discussão é sobre em que se assenta essa nova moral de nossa época, visto que a vontade precisa ser orientada pela consciência; caso contrário, perderá seu caráter coletivo e instituirá uma anarquia dos desejos. O Cristianismo estabeleceu um código moral para preservar a vida em comunidade, não para controlar de maneira sórdida o prazer humano, que, aliás, é uma emoção básica como a tristeza, o ódio e o medo.

Fontes de consulta:

Foucault M. História da sexualidade: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A.

Guilhon Albuquerque. 13. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1988.

Foucault M. Uma entrevista: sexo, poder e a política da identidade. Tradução de Wanderson Flor do Nascimento.

Verve. 2004; 5: 260-77.

Marisa Lobo possui graduação em Psicologia, é pós-graduada em Filosofia de Direitos Humanos e em Saúde Mental e tem habilitação para Magistério Superior.

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