Depressão infantil e adolescente

Até o final da adolescência, uma em cada cinco crianças terá apresentado um episódio depressivo mais ou menos grave

Marisa Lobo - 20/04/2019 10h15


Prezado leitor, nas próximas semanas irei tratar aqui nesta coluna sobre os transtornos psicológicos gerados pela falta de uma educação positiva e equilibrada.

A depressão é considerada hoje como a pior doença de todos os tempos. É uma doença grave que, se não for tratada adequadamente, interfere no dia a dia das pessoas e compromete sua qualidade de vida. Os adultos se queixam e, mesmo que não o façam, suas atitudes revelam que não se sentem bem e logo a família percebe que algo de errado está acontecendo.

Com as crianças é diferente. Elas aceitam a depressão como fato natural, próprio de seu jeito de ser. Embora estejam sofrendo, não sabem que aqueles sintomas são resultado de uma doença e que podem ser aliviados. Não conseguem externar seus sentimentos, e os pais, de modo geral, custam a perceber que o filho precisa de ajuda.

Alguns aspectos do comportamento infantil podem revelar que a depressão está instalada. Por natureza, a criança está sempre em atividade, explorando o ambiente, querendo descobrir coisas novas. Quando se sente insegura, retrai-se e o desejo de exploração do ambiente desaparece. Por isso, é preciso estar atento quando ela começa a ficar quieta, parada, com muito medo de separar-se das pessoas que lhe servem de referência, como o pai, a mãe ou o cuidador.

A depressão está presente em 1% a 2% das crianças em idade pré-escolar e entre 3% a 8% dos adolescentes. Até o final da adolescência, uma em cada cinco crianças terá apresentado um episódio depressivo mais ou menos grave. Estudos epidemiológicos sugerem que a depressão seja mais comum em países mais pobres. Na infância, a ocorrência de depressão é praticamente igual nos dois sexos. A diferenciação começa na adolescência, fase em que as meninas são mais vulneráveis.

Causas da depressão infantil
Não são apenas crianças que passaram por traumas intensos que podem desenvolver a depressão. Assim como nos adultos, existem, aparentemente, múltiplos fatores que predispõem à depressão. Pesquisas apontam que pode haver uma pré-disposição genética, porém a educação negativa, gerada pela violência psicológica, física ou simbólica produzem afetos perdedores. Maus tratos domésticos podem levar a criança a ser vítima de bullying, um tipo de violência, psicológica ou física, que a criança sofre recorrentemente na escola e na sociedade. A não elaboração do luto devido à perda de entes queridos pode desenvolver na criança a depressão ou pensamentos suicidas.

Uma família suficientemente boa diminui a predisposição à depressão
Por outro lado, diminuem a predisposição à depressão uma relação afetiva calorosa com os pais, um nível de inteligência elevado, hábitos de lidar com os problemas focando em sua solução e a capacidade de regular as emoções de forma adaptativa. Um dado interessante é que as crianças que cometem o bullying também têm taxas maiores de depressão.

Não se conhece em detalhes a causa da depressão mas, além dos fatores acima citados, é possível que estejam envolvidos no mecanismo das depressões um mau funcionamento de partes do encéfalo (lobos frontal, temporal e/ou parietal; amígdala; hipocampo), alterações hormonais (aumento do hormônio cortisol) e mesmo processos inflamatórios. Entretanto, é importante deixar claro que, apesar de presentes em estudos científicos, é impossível, por enquanto, determinar qualquer um destes fatores em pacientes individuais, de modo que não é possível pedir algum exame que demonstre se a pessoa tem depressão ou não.

O reconhecimento da depressão na infância é relativamente recente na psiquiatria, justamente pela dificuldade que a criança tem de referir-se ao que sente. Por isso, muitas vezes, era considerada portadora de fobias específicas, tais como os transtornos comportamentais e a ansiedade de separação. Foi só há mais ou menos 20 anos, que a doença passou a ser reconhecida em adolescentes, uma vez que sua forma de expressão é diferente da dos adultos.

Importante saber:

  • Filhos de pais depressivos ou com parentes próximos com quadros de depressão correm maior risco de apresentar depressão.
  • A depressão que se inicia na infância, geralmente, é mais grave. Por isso, a criança deve ser tratada o mais rápido possível.
  • Crianças que não tratam a depressão no início têm grande dificuldade de aprendizado.
  • A criança com depressão vê alegria apenas nas outras pessoas e sofre com sentimento de inferioridade, timidez, sentimento de menos valia e se conforma com esse referencial. Ou seja, será uma pessoa infeliz.
  • Criança que cresce com depressão, quando adolescente, estará mais propensa ao uso de drogas, pois buscará um meio de se sentir feliz, ainda que pelo viés químico. Ela entrará em um “mundo de prazer” para fugir do seu desprazer.
Marisa Lobo possui graduação em Psicologia, é pós-graduada em Filosofia de Direitos Humanos e em Saúde Mental e tem habilitação para Magistério Superior.

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